Extremismo alem�o imp�e derrota ao projeto europeu

Extremismo alem�o imp�e derrota ao projeto europeu

A segunda-feira (7) foi pródiga em sinais funestos para os valores que sustentam a política tradicional e o projeto europeu do pós-guerra. Enquanto a Sérvia enterrava com honras militares e multidões nas ruas um criminoso de guerra condenado e conhecido como o "açougueiro da Bósnia", Ratko Mladic, um partido alemão que esposa seus conceitos de exclusão étnica obtinha uma vitória eleitoral expressiva. Na véspera, a Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla germânica) havia vencido o pleito regional da Saxônia-Anhalt, disparando alarmes. O fato de alguns de seus líderes já terem adotado discursos revisionistas, como o questionamento do Holocausto, dá credibilidade ao temor. A AfD apoia a Rússia na guerra contra a Ucrânia e é líder em desinformação digital. Ademais, tem seções estaduais classificadas como extremistas, e a mesma designação federal foi dada em 2025, tendo sido suspensa para análise judicial neste ano. Não que a Saxônia-Anhalt seja tão importante: está em último lugar no ranking de PIB per capita do país. Mas fica no coração da antiga Alemanha Oriental, cuja integração em 1990 foi parte central do projeto da União Europeia, formada dois anos depois. Berlim fracassou em equalizar o abismo entre as zonas comunista e capitalista, e a pobreza relativa no leste gerou nostalgia da República Democrática Alemã. Assim, o líder da AfD na Saxônia-Anhalt, Ulrich Siegmund, fez campanha pilotando uma antiga motoneta alemã oriental Simson, dando um toque local à fórmula usual de culpar o governo e os imigrantes por tudo. A sigla precisa formar coalizão para viabilizar um governo, tarefa na qual fracassou em 2024, ao vencer na vizinha Turíngia. Faltam à AfD três cadeiras para atingir a maioria no Parlamento local, algo que poderá ocorrer de forma inusitada, com apoio de radicais de esquerda. Se obtiver sucesso, será algo inédito para a extrema direita desde a vitória nacional nazista de 1933. O premiê Friedrich Merz fez um ato de contrição pública, até porque quem perdeu o pleito foi a sua sigla conservadora União Democrata-Cristã (CDU). Ele pregou uma "reforma do sistema político", algo vago e tardio. A AfD, maior partido de oposição no Parlamento federal, já é o preferido do eleitorado. Merz lidera uma gestão impopular, dada a estagnação econômica, e tenta evitar adiantar a eleição geral de 2029, sob risco de ver radicais colherem uma vitória histórica. Com Giorgia Meloni à frente do mais longevo governo italiano do pós-guerra e Marine Le Pen forte na disputa pela Presidência francesa em 2027, a ultradireita vive momento de força no continente —inspirada por Donald Trump do outro lado do Atlântico. Em comum, ambas arrefeceram o discurso. A AfD adota retórica similar, mas seu passado e sua composição são mais problemáticos, num país-chave para a equação política da Europa. editoriais@grupofolha.com.br

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