Um cão esculpido em madeira de umburana, típica da caatinga, lambe a parede do espaço expositivo. Um homem nu, também em madeira, olha para o horizonte acima de um pedestal. Soldadinhos-do-araripe, pássaros da Chapada do Araripe, no Ceará, esculpidos em bronze e pintados a óleo, repousam sobre galhos fixados às paredes. Na exposição "O Homem Nu", de Efrain Almeida, em cartaz na galeria Fortes D’Aloia & Gabriel, em São Paulo, referências à cultura cearense se encontram com aspectos biográficos do artista para tratar sobre os limites entre o íntimo e o universal. Morto em 2024, aos 60 anos, Almeida construiu uma obra marcada pela presença de corpos, animais, plantas e objetos ligados ao universo cultural do Cariri, região onde nasceu. Ao longo de sua trajetória, incorporou referências ao catolicismo popular, à sexualidade e às tradições do sertão, sem se limitar à representação de costumes regionais. O recorte da exposição é biográfico, segundo Márcia Fortes, galerista que assina o texto crítico da mostra. A seleção reúne autorretratos em pintura e escultura, além de trabalhos que evocam a fauna, a flora, a arquitetura e a indumentária do Cariri. Signos religiosos, como chagas e figuras bíblicas, convivem com representações da nudez e do erotismo. "O título ‘O Homem Nu’ remete à integridade formal e psicológica do seu trabalho. É uma nudez que implica que ali está o homem inteiro, em toda a sua complexidade", afirma Fortes. A nudez, nesse contexto, não se restringe à representação do corpo. Ela funciona como uma maneira de expor a experiência individual em suas contradições, aproximando dimensões que poderiam parecer incompatíveis. Na obra de Almeida, o sagrado e o profano, o desejo e a devoção, a fragilidade e a resistência coexistem sem que um anule o outro. Essa convivência também se manifesta na escolha dos materiais. A madeira de umburana, recorrente em sua produção, remete à paisagem de origem do artista, mas também confere presença física a corpos e animais que parecem oscilar entre a delicadeza e a vulnerabilidade. A relação entre escala e espaço é outro aspecto central. Embora pequenas, as esculturas não se restringem à contemplação de objetos isolados. A disposição das peças, a distância entre elas e sua relação com a arquitetura compõem o conjunto da exposição. Um pássaro pousado sobre um galho ou uma figura solitária sobre um pedestal pode ocupar pouco espaço físico e, ainda assim, alterar a percepção do ambiente ao redor. "Efrain era um mestre da instalação, do uso do espaço como matéria, mostrando que não é preciso pesar a mão para atingir o outro e reverberar amplitude", afirma Fortes. Em vez de transformar as tradições do Cariri em imagens folclóricas, Almeida as incorporou a uma linguagem própria, capaz de articular experiências locais a questões mais amplas. "Seu trabalho consegue tratar de dores e violências e uma boa dose de erotismo sem abrir mão da delicadeza das formas e da metáfora", diz.
Exposi��o revisita erotismo e religiosidade nas esculturas de Efrain Almeida
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