Exposi��o resgata mulheres que lutaram pelo fim da escravid�o no Brasil

Exposi��o resgata mulheres que lutaram pelo fim da escravid�o no Brasil

Vendedora de charutos, Adelina aproveitava a liberdade de circulação proporcionada por seu trabalho para atuar como informante do movimento abolicionista do Maranhão nos anos 1870 e 1880. Esperança Garcia, escravizada, redigiu em 1770 aquela que é considerada a primeira petição jurídica do Brasil, ao pedir para voltar para a fazenda de origem devido aos maus-tratos infligidos a ela e aos filhos pelo novo feitor. Cerca de um século antes, Aqualtune ajudou a liderar o quilombo dos Palmares, o maior e mais longevo do continente americano —Zumbi, cuja data de morte marca o feriado da Consciência Negra, comemorado neste mês, descende dela, neto de acordo com algumas fontes, sobrinho-neto com outras. Essas são algumas das oito mulheres resgatadas pela exposição "Abolicionistas Brasileiras", em cartaz no Museu Nacional de Belas Artes, o MNBA, no centro do Rio de Janeiro. A lista se completa com a escravizada Anastácia, que se tornou um símbolo da insubmissão negra; Luiza Mahin, genitora de Luiz Gama; Maria Felipa, pescadora que lutou pela independência do país; Maria Firmina dos Reis, autora do primeiro romance abolicionista brasileiro; e Maria Tomásia Figueira Lima, uma das fundadoras de uma sociedade cearense contra a escravidão formada apenas por mulheres. A aparência de quase todas elas é desconhecida —com exceção da última, que é também a única branca do conjunto. Segundo Ana Carla Soler, curadora da mostra, a ausência de registros pictóricos contribuiu para que elas fossem tratadas por muito tempo como reles mitos, lendas. "Só sabemos a história dessas personagens por causa da oralidade, da resistência da população negra", ela diz. Soler conta que a exposição teve origem em um pedido de um colecionador à organização em que ela trabalha, o Instituto Artistas Latinas. Incomodado com a baixa representatividade de artistas negras em seu acervo, ele solicitou um projeto para comissionar nomes com esse perfil a produzir obras para ele. A entidade decidiu então convidar oito artistas brasileiras, cujas pesquisas já envolviam o resgate da história negra no país, para homenagear mulheres que contribuíram para o fim da escravidão. Cada artista escolheria uma personalidade feminina numa lista de figuras mapeadas pelo instituto. Em seguida, se comprometeria a narrar sua biografia com uma obra, usando o suporte, a linguagem e a técnica que desejasse. Quando os trabalhos foram finalizados, o Artistas Latinas percebeu que tinha uma exposição em mãos. Propôs então ao MAR, o Museu de Arte do Rio, exibir aquela que seria a encarnação inicial de "Abolicionistas Brasileiras", em 2024. As obras formam um conjunto bastante diverso, com cada artista buscando imprimir os próprios interesses ao representar sua homenageada. Roberta Holiday, cuja produção frequentemente aborda o tema da mobilidade, mas no espaço urbano, pinta um Atlântico vermelho rodeado de búzios, amuletos de proteção nas religiões africanas, para ilustrar os caminhos de Luiza Mahin entre a África e o Brasil —ela é a inspiração por trás da personagem-título do romance "Um Defeito de Cor", de Ana Maria Gonçalves. Mariana Maia, que costuma homenagear suas ancestrais lavadeiras usando cestos e bacias como suporte para suas pinturas, parte de retratos falados de Maria Felipa, marisqueira que lutou contra a tentativa de Portugal de manter a Bahia sob seu domínio após a independência do Brasil, em 1822, para mostrá-la ora como Iansã, ora como Iemanjá. Já Thaís Iroko —que inaugurou recentemente uma mostra ali perto, no Palácio Gustavo Capanema— buscou se aproximar de sua retratada, Anastácia, pela via sensorial. A ilustração mais popular da escravizada a mostra com a boca coberta por uma mordaça, uma punição por haver se negado a ter relações sexuais com seu senhor. "Assim como ela teve sua voz silenciada, pensei o que eu poderia silenciar em mim para me aproximar dela", diz a artista. Optou, enfim, pela visão, e pôs duas telas lado a lado. Em uma delas, pinta um retrato mais ou menos tradicional de Anastácia, dotando-a de uma língua afiada para simbolizar sua insubmissão. Em outra, busca repetir os movimentos que havia realizado na pintura anterior, mas com os olhos vendados. As duas são exibidas na mostra como um díptico. As peças encomendadas para exaltar as abolicionistas estão no cerne da mostra. Mas elas não são as únicas a integrarem a exposição, tendo sido postas em diálogo com trabalhos que refletem sobre o que aconteceu depois da abolição a partir da ancestralidade, dos direitos básicos e da espiritualidade. Soler conta que essas outras produções foram incluídas na coletiva quando ela começou a itinerar pelo país, um percurso que incluiu mais três instituições —o Mamam, Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, no Recife; a Casa de Cultura da América Latina, em Brasília; e o CCSP, o Centro Cultural São Paulo, na capital paulista. Em cada uma dessas montagens, a seleção anterior foi acrescida de trabalhos de artistas locais, além de itens do acervo da instituição anfitriã. Por isso, a versão atual da mostra é também a mais populosa, com 47 artistas participantes. Soler afirma que esses outros trabalhos mostram, em última instância, como a abolição continua em curso. Ela ecoa a posição de diversos pesquisadores contemporâneos de que só se poderá considerar que a escravidão chegou ao fim quando construirmos uma sociedade verdadeiramente igualitária em termos raciais. "Enquanto vivermos com o racismo, é como se ainda estivéssemos na abolição", diz.

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