A família, os amigos e os colegas tentaram fazê-lo desistir. Daniel Lamarre ocupava a presidência da rede TVA quando decidiu trocar um dos cargos mais prestigiados da televisão canadense por um emprego em um circo. "Minha mulher, meus pais, todo mundo era contra. Diziam: 'Você tem um ótimo emprego, estabilidade, trabalha em uma grande emissora e quer largar tudo para entrar num circo? Do que você está falando?'", recorda. Ele ignorou os conselhos. "Achei que o Cirque du Soleil tinha potencial para crescer rapidamente pelo mundo. Como eu queria uma carreira internacional, era uma oportunidade extraordinária." Lamarre entrou no Cirque du Soleil em janeiro de 2001, tornou-se presidente e CEO três anos depois e permaneceu no comando por quase duas décadas, período em que a companhia multiplicou espetáculos, consolidou Las Vegas como sua principal vitrine internacional, firmou parcerias com marcas e artistas como Beatles, Michael Jackson, Disney e Avatar e atravessou a maior crise de sua história durante a pandemia. Hoje, ele é vice-presidente executivo do conselho e estará em São Paulo em agosto para participar do evento SP2B, onde falará sobre criatividade e negócios no dia 14/8. Fundado em 1984, na província canadense de Quebec, o Cirque du Soleil revolucionou uma indústria em declínio ao romper com vários dos elementos tradicionais do circo clássico. Desde o início, eliminou animais, substituiu números independentes por narrativas, incorporou teatro, dança, música ao vivo e cenários sofisticados e transformou o espetáculo circense em entretenimento para adultos dispostos a pagar preços semelhantes aos da Broadway. Ao longo de quatro décadas, estima ter levado mais de 400 milhões de espectadores a apresentações em mais de 80 países. Antes disso tudo, Lamarre imaginava outro futuro. Pagou a universidade trabalhando como jornalista na Radio-Canada e em um jornal canadense. "Foi uma experiência extraordinária. O jornalismo me colocou em contato com empresários e me ensinou muito." Mais tarde migrou para a comunicação corporativa e, em 1986, conheceu Guy Laliberté, o fundador do Cirque, durante um trabalho. Os dois mantiveram contato até que, quinze anos depois, Laliberté lhe fez o convite inesperado. O maior choque, conta ele hoje, não foi abandonar a televisão. Foi descobrir que havia entrado em um negócio sem parâmetros de comparação. "Na televisão eu podia estudar outras emissoras, olhar o mercado americano, fazer comparações. No Cirque não existia benchmark [referência]." Durante praticamente um ano, limitou-se a acompanhar Laliberté em viagens para entender o funcionamento da empresa. "Era como se tudo o que eu tivesse feito antes tivesse deixado de ser relevante." Naquele período começou também a insistir com o fundador sobre o potencial global da marca. Para Lamarre, o ponto de inflexão veio com "The Beatles LOVE", criado em parceria com Paul McCartney, Ringo Starr, Yoko Ono e Olivia Harrison. Estreou em 2006 e rendeu ainda um ótimo álbum. Até então, o Cirque era conhecido principalmente por seus espetáculos originais. A associação com o catálogo da banda mais famosa do mundo levou a companhia a um novo patamar de visibilidade internacional. A negociação, porém, foi difícil, e não por causa dos Beatles. Segundo Lamarre, o impasse surgiu quando os responsáveis pelos direitos musicais dos Beatles fizeram exigências financeiras consideradas excessivas pelo Cirque. "Durante alguns dias achei que o projeto não aconteceria." O acordo só avançou porque os próprios músicos pressionaram os detentores. "Eles queriam muito fazer o espetáculo e os convenceram a serem mais razoáveis." A estreia de "LOVE", afirma, transformou definitivamente a empresa. "Foi transmitida para o mundo inteiro. Ali o Cirque passou para outro nível." Vieram então os espetáculos inspirados em Michael Jackson, as parcerias com a Disney, grandes eventos internacionais, apresentações na festa do Oscar e mesmo produções ligadas ao universo criado por James Cameron. Sob sua gestão, a companhia expandiu continuamente o número de produções. Quando chegou ao Cirque, havia sete espetáculos em circulação. Hoje são cerca de 23 montagens apresentadas simultaneamente entre shows residentes e turnês internacionais. Cerca de 4.000 funcionários trabalham na empresa, dos quais aproximadamente metade são artistas. Cada produção permanece exclusiva de uma cidade ou circuito. "Nós nunca duplicamos um espetáculo. Se você quiser assistir a 'Alegría' em agosto, terá de ir a São Paulo. É o único lugar onde ele estará." O show reestreia por aqui em 20/8. Nem todos os projetos, entretanto, deram certo. Ao recordar o maior fracasso da carreira, de 2009, um pequeno detalhe chama a atenção: Lamarre evita até mencionar o nome do espetáculo. Conta apenas que ele e Laliberté decidiram "reinventar o vaudeville" depois de uma sequência de sucessos. O erro, afirma, foi vender aquela produção como um espetáculo do Cirque du Soleil. "Quem nunca tinha visto o Cirque gostou. Mas nossos fãs odiaram. Diziam: 'Isso não é Cirque du Soleil'." Dois meses depois, "Banana Shpeel" foi retirado de cartaz. "Estávamos prejudicando a marca e tivemos de encerrá-lo." A crise seguinte seria incomparavelmente maior. Em março de 2020, com a chegada da pandemia, todos os espetáculos da companhia pararam. O primeiro desafio foi localizar artistas espalhados pelo planeta e conseguir levá-los de volta para casa antes que voos e fronteiras fossem fechados. "Era uma corrida contra o relógio. A cada hora uma companhia aérea suspendia operações." Logo depois veio a decisão mais dura: dispensar aproximadamente 4.700 funcionários, o equivalente a 95% da força de trabalho do Cirque. "Foi a pior experiência da minha vida." Após as demissões, ele diz, a empresa manteve contato permanente com os artistas. A estratégia tinha um objetivo prático: reconstruir rapidamente o elenco quando as apresentações voltassem. Segundo Lamarre, cerca de 90% dos profissionais dispensados retornaram ao Cirque. "Eles continuaram treinando durante toda a pandemia. Quando ligamos dizendo que estávamos prontos para voltar, eles também estavam." Foi naquele período que, segundo ele, tomou a decisão mais criativa de sua carreira. Com apenas três pessoas trabalhando na sede da empresa, decidiu gastar parte dos recursos restantes para produzir semanalmente conteúdos digitais com bastidores e trechos de espetáculos. Ao fim de um ano, calcula, cerca de 70 milhões de pessoas haviam acompanhado esse material. Na renegociação com bancos e credores, usou esses números para defender a sobrevivência da companhia. "Eu dizia: existem 70 milhões de pessoas esperando a volta do Cirque. Apoiem financeiramente a empresa porque elas estarão lá quando reabrirmos." É essa experiência que Lamarre pretende levar ao palco do SP2B, no parque do Ibirapuera. O título da palestra, "Sem Criatividade, Não Há Negócio", resume uma convicção que, diz ele, foi reforçada justamente quando o negócio parecia não ter futuro. "Se você quer desenvolver sua empresa e liderar seu setor, precisa ser mais criativo do que seus concorrentes." LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. 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Executivo largou rede de TV e levou Cirque du Soleil a patamar internacional
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