Havia nove terreiros de candomblé ativos no bairro em Camaçari, na Bahia, em que eu fiz pesquisa. Mas, a menos que você vivesse ali ou tivesse familiaridade com essa tradição religiosa, não saberia diferenciar o espaço sagrado de um roçado comum. Não são apenas os terreiros que ficam escondidos. Anitta diz em entrevistas que existe também um ato de sair do armário para quem é macumbeiro. Durante os primeiros anos de carreira, ela não falou sobre sua religiosidade: sabia que patrocinadores não queriam suas marcas associadas a algo tratado como prática demoníaca. Metade dos escravizados que cruzaram o Atlântico vieram para o Brasil. Isso contrasta com a quantidade de pessoas que dizem a pesquisadores do Censo ser adeptas de religiões de matriz afro: menos de 2%. Como pode? A herança afro está presente em quase tudo o que é celebrado como brasileiro. Está no samba, no tempero, na farmácia popular, no perfume e nas flores que ornam a academia de capoeira de mestres como João Grande, discípulo de Pastinha, em Nova York. Está na ginga e na mandinga que marcam o futebol brasileiro. Está nas festas de rua. Já escrevi aqui sobre a noção antropológica de indiretividade: dizer uma coisa falando outra. O sincretismo esconde algo em plena luz do dia. Esse cuidado para apagar o vínculo de qualquer dessas práticas com sua origem sagrada ajuda a explicar os 2% do Censo. "Equilibrium 2" retira esse véu com delicadeza pela intimidade da artista com o tema e pelo apoio que recebeu de acadêmicos para montar o espetáculo. Anitta coloca no centro do palco a africanidade que sempre esteve no centro da experiência brasileira. Uma religiosidade associada a pessoas pobres, praticada em lugares ermos, que foi e continua sendo perseguida, ela mostra exuberante, com efeitos, músicos e bailarinos dignos de show de Madonna. Imagino o encantamento que essa turnê provocará ao rodar pelo mundo. O orgulho que Anitta demonstra pela tradição religiosa que escolheu me lembra o orgulho que evangélicos têm por sua fé, sua liturgia e a rede de afeto que as cerca. Mas evangélicos devem celebrar —em vez de atacar— o trabalho de Anitta por outro motivo. O que ela expõe em "Equilibrium 2" é o produto de uma experiência religiosa que integra. Ela foi coroinha na igreja, sua mãe é católica, ela fala respeitosamente sobre Chico Xavier. Durante a pandemia, cantava louvores em lives. Anitta promove o mesmo que evangélicos defenderam na origem: o direito de ter sua fé. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha O sociólogo Andrew Johnson, em "If I Give My Soul" (Oxford University Press), estuda conversões ao cristianismo dentro de prisões brasileiras e mostra algo parecido: encontrar um Deus que ama igualmente todas as pessoas permite ao convertido abandonar anos de estigma. Ele deixa de se ver como pessoa de segunda categoria. Talvez "Equilibrium 2" ofereça essa mesma redenção, por outra chave. Aceitar e celebrar a importância do candomblé e da umbanda pode ser também um ato de cura e reparação para quem aprendeu por séculos que se esconder era estratégia de sobrevivência. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Evang�licos devem celebrar o �lbum 'Equilibrium 2' de Anitta
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