Quando os soviéticos assombraram o mundo em 1957 com o lançamento do primeiro satélite artificial, o Sputnik, a principal preocupação americana para além da debacle de propaganda era o emprego militar da novidade assombrosa. Em meio à paranoia causada pela expansão dos arsenais nucleares, a certeza de que um tira-teima entre o capitalismo e o comunismo seria atômico orientava as decisões das potências. Dez anos depois, após a Crise dos Mísseis de Cuba em 1962, o tema tornou-se tão urgente que gerou o Tratado do Espaço Sideral. Nele, Estados Unidos, União Soviética e outros se comprometiam a nunca instalar armas de destruição em massa na órbita terrestre. Só que o texto não se referia a meios convencionais de combate. Atualmente, há cerca de 600 satélites militares, 250 deles dos EUA. Testes com armamentos —destruição de aparelhos com mísseis lançados da Terra— foram conduzidos por russos, americanos, chineses e indianos. Tais ensaios não são inócuos. Em 2021, ocupantes da Estação Espacial Internacional buscaram refúgio em naves de escape após entrarem na rota de destroços de um satélite russo explodido por um teste com míssil. Assim, causou espécie a recente admissão feita pela Força Espacial dos EUA de que o país governado por Donald Trump tem armas em órbita para dissuadir rivais. Não foram divulgados detalhes, porém especialistas supõem que se trate de sistemas para atacar satélites inimigos. O mandatário republicano já havia anunciado que seu quimérico sistema de defesa Domo Dourado teria componentes espaciais, mas visando mísseis balísticos. China e Rússia, detentoras das maiores frotas de satélites militares após os EUA, protestaram. Para Pequim, a medida irá acelerar a incipiente corrida espacial bélica. Já Moscou exortou Washington a buscar um regramento. A chance de isso ocorrer é mínima. Desde seu primeiro mandato, Trump se notabilizou por rasgar os tratados sobre arsenais atômicos. Argumenta, não sem razão, que os diplomas estavam desatualizados ante a evolução tecnológica e a ascensão chinesa, mas não apresenta alternativas. A seguir a lógica do americano, o texto de 1967 pode ser a próxima vítima, ainda que a China seja signatária. Seja como for, a mera multiplicação de vetores de destruição em órbita é uma ameaça ao modo de vida atual. Da navegação por GPS em celulares e da telefonia em áreas remotas da Amazônia ao manejo de campos de batalha, muito depende de satélites privados que ficariam na linha de fogo de um eventual bangue-bangue cósmico. As constelações ao estilo da empresa americana Starlink, de Elon Musk, só crescem: em 2020 havia ao todo 3.300 satélites em órbita; hoje, são 16 mil. Se a expansão do conflito humano para a órbita do planeta é inevitável dados os interesses militares e econômicos envolvidos, limites seriam desejáveis. editoriais@grupofolha.com.br
EUA abrem precedente perigoso ao militarizar o espa�o
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.