Faz 20 dias que meus pais estão hospedados na minha casa. Salvo uma ou duas vezes durante as férias da faculdade, essa é a primeira vez desde meus 17 anos, quando saí da casa deles em Salvador para morar sozinha no Rio de Janeiro, que convivemos por tanto tempo debaixo de um mesmo teto. Ao contrário do que muitos esperariam, a visita tem sido tranquila. Apesar das muitas diferenças que o simples fato de pertencermos a diferentes gerações impõe, a convivência tem sido fácil e bonita. Acordar e ver minha mãe lendo um livro para as crianças, com elas amontoadas em cima dela. Ou sentados no chão com meu pai, montando um Lego. Luxos que não tenho no dia a dia morando longe deles. Fazia nove meses que não nos víamos. E sempre que tanto tempo se passa entre uma visita e outra, sou confrontada pela materialidade do tempo. Desde dezembro, quando nos vimos fisicamente pela última vez, ganhei algumas manchas na pele e cortei meu cabelo bem curto, mas ele já cresceu novamente. Meus filhos começaram numa escola nova e a mais velha já sabe dar estrelinhas com apenas uma mão, ao passo que o mais novo está aprendendo a nadar (sem sucesso por enquanto) e já sabe escrever seu próprio nome. Meus pais também mudaram, mas, do alto de seus 70 e 79 anos, seguem desafiando os sinais do tempo como poucos que conheço. Certo dia, as crianças já tinham ido dormir e sobravam apenas os adultos ao redor da mesa, com seus guardanapos usados e jogos americanos vazios, quando uma conversa desembocou na vida noturna do Rio de Janeiro. Entre nomes de restaurantes que abriram e casas noturnas que fecharam, atribuí minha ignorância com relação ao assunto ao fator mais clichê: velhice. "Não estou mais por dentro desses lugares de jovens", disse. "Você não é jovem?", minha mãe me respondeu com uma pergunta. "Mãe, eu tenho 42 anos, tenho dois filhos pequenos. Não consigo sair com a frequência de um jovem de 20 e poucos anos." "É", ela respondeu pensativa e concluiu: "Eu não consigo mesmo ver você como uma mulher de meia-idade." Era a primeira vez em muito tempo que alguém me chamava de jovem sem que a palavra viesse imbuída de uma boa dose de sarcasmo. Pelo contrário, com cada vez mais frequência venho sendo chamada de velha, madura, ou rotulada como 40+, sem sarcasmo algum. A conversa me fez lembrar de quando perguntei à minha mãe como era se olhar no espelho e se ver mais velha. E ela me respondeu: "A gente não reconhece quem está refletido ali. Às vezes me pergunto: quem é essa velha? Por dentro, ainda me sinto uma menina." À época não consegui me colocar no lugar dela, não fui capaz de entender plenamente aquele sentimento de perda de si. Hoje me encontro exatamente na mesma posição e fico pensando se a obsessão feminina por uma pele mais jovem não seria, em parte, fruto de uma vontade dessa mulher de continuar conectada a si mesma. Na noite seguinte, lembrei da conversa novamente. Ao botar meus filhos para dormir, disse ao pequeno (com quatro anos recém-completados) que ele seria sempre meu bebê. Ele concordou e acrescentou: "Até quando eu ficar velhinho." Dei-lhe um beijo na testa e um abraço apertado e entendi que envelhecer talvez seja isso mesmo: acumular versões dentro de nós sem abandonar totalmente nenhuma delas. Todas Discussões, notícias e reflexões pensadas para mulheres LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
'Eu n�o consigo ver voc� como uma mulher de meia-idade'
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