Eu banco

Eu banco

Toda sexta-feira, a caminho de sua casa, meu pai fazia a parada obrigatória numa banca de jornal. Eu tinha direito a três revistinhas, minha irmã a outras três. Durante o fim de semana, acabando de ler a cota pessoal, trocávamos. Em época de álbum, a parada ficava ainda mais emocionante. Vez ou outra, até conseguíamos emplacar uns Plocs, Ping Pongs ou Bubbaloos. Essas memórias voltaram na última terça, ao receber um áudio. "Amigo, aqui é o Maurício, da Banca Maranhão, em frente à Padaria Aracaju". Maurício tinha meu contato por conta de um cupom preenchido durante a Copa – atingindo tantos reais em figurinhas, você concorria a um Playstation 5. "Tô vendendo a banca. Se você tiver interesse ou conhecer alguém que tenha, dá um toque". Eu não sabia, até a última terça, mas eu tinha muito interesse. Não sabia, mas trazia dentro de mim um jornaleiro adormecido (em algum mundo paralelo existe uma versão de "A fantástica fábrica de chocolate" em que Willy Wonka, em vez de levar as crianças através de rios de leite, açúcar e cacau, abre caminho com seu facão por selvas de quadrinhos, revistas, figurinhas, jornais e chicletes Ploc). Respondi perguntando o preço. Era alto, mas possível. Arrepiei. Pude ouvir um neurônio gritando pros outros, lá no fundo do cérebro, como o atendente do balcão fazendo o pedido pro pessoal da cozinha numa casa de sucos do Rio de Janeiro: "desce endorfina! Solta noradrenalina! Alô dopaminaaaaa!". Tá, Antonio, comprar a banca e depois? Fazer o que com ela? Ai, que pergunta ridícula. Típica de uma época como a nossa, presa aos ditames esquálidos da eficiência e da produtividade. Alguém já disse que "o nacionalismo é o último refúgio do canalha". Parafraseio: o pragmatismo é o último refúgio do medíocre. Imagina se em mil oitocentos e bolinha o Eiffel mostra seu projeto de torre e alguém pergunta, lá em Paris: "tá, construir a torre e depois? Fazer o que com ela?". Imagina Da Vinci, mil quinhentos e nada, terminando a Monalisa: "tá, e depois? Fazer o que com ela?". Fazer o que com a banca? Nada. Apenas deixá-la existir – mas como banca. Primeiro, tirar todas as capinhas e carregadores de celular, guarda-chuvas, carrinhos transformers e outras tranqueiras importadas da China. Tirar, sobretudo, os jornais vendidos a granel pra cachorro fazer xixi (se não me engano, jornais serem vendidos a granel pra cachorro fazer xixi é um passo antes dos rios de sangue e dois antes das chuvas de enxofre no Apocalipse de São João). Trago para a banca, então, os jornais e as revistas que ainda existem no mercado. Sei que não preencherão sequer uma prateleira. Vou, portanto, a uma feirinha de antiguidades como a da Benedito Calixto ou do Bixiga e faço a rapa em revistas antigas. Encomendo uma Kombi de publicações com o Ricardo, do sebo "Desculpe a Poeira" e refaço o cenário como era em, digamos, 1985. Nada estará à venda. Será tipo uma instalação. ("Banca 1. 2026. Ferro, celulose, pigmentos"). Atrás do balcão, um jornaleiro de bigode e boina. De bronze. Como uma praça preserva o verde no meio da cidade, minha banca preservará ideias no meio da imbecilidade. Assim como os monumentos ao soldado desconhecido, minha banca será um monumento ao leitor desconhecido. A todos companheiros mortos em batalha nas últimas décadas e aos poucos que ainda lutam, por romantismo ou teimosia, contra o infinitamente superior exército de silício. Não esmoreçais, bravos guerreiros. A banca é só o primeiro passo. Se tudo der certo, mais dia, menos dia, ainda reabro uma vídeo locadora —onde hoje é um pet shop. Não esmoreçamos. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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