Desde 2015, os pacientes que chegam ao SUS (Sistema Único de Saúde) ou à rede privada de saúde e são diagnosticados com linfoma difuso de grandes células B, um tipo comum de câncer linfático agressivo que afeta os linfócitos B (células do sistema imunológico) recebem o mesmo tratamento: o esquema de quimioimunoterapia R-CHOP. Esse esquema combina medicamentos como rituximabe, um anticorpo monoclonal; os quimioterápicos ciclofosfamida, doxorrubicina e vincristina; e prednisona, um corticoide. Essa combinação é capaz de induzir remissões duradouras em cerca de 50% a 60% dos pacientes. Mas pesquisadores decidiram investigar se a oferta desse protocolo de tratamento unificado seria suficiente para garantir o mesmo desfecho clínico aos pacientes. E descobriram que não. Com base no Registro Hospitalar de Câncer do Estado de São Paulo (RHC-SP), um banco de dados mantido pela Fundação Oncocentro com informações de todos os hospitais públicos e privados credenciados para atendimento oncológico de alta complexidade no estado, os estudiosos levantaram informações sobre 2.396 pacientes que tiveram o diagnóstico da doença e iniciaram o tratamento entre 2015 e 2020. Deste total, 2.055, o equivalente a 85,8%, foram tratados no SUS, e 341 (14,2%), na rede privada. Os dados analisados sobre cada um dos pacientes incluíram a fonte de financiamento da assistência à saúde, o nível de escolaridade, o tempo transcorrido até que tivesse início do tratamento e o tempo médio decorrido desde o início do tratamento até a morte do paciente por qualquer causa, chamado de sobrevida global. Ao longo de um período de cinco anos, os pacientes com linfoma difuso de grandes células B tratados no SUS apresentaram uma sobrevida menor, quando comparados àqueles que receberam atendimento na rede privada. Os percentuais dos que continuavam vivos após meia década foram de 51,7% e 64,7%, respectivamente. "O nosso estudo demonstrou que existem outros fatores que interferem e podem impactar na sobrevivência do paciente. A sobrevivência não depende única e exclusivamente do tratamento que é oferecido", afirma o médico hematologista Rafael Dezen Gaiolla, docente do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina de Botucatu e um dos coordenadores da pesquisa. O estudo foi publicado na revista Blood Global Hematology. O impacto da escolaridade O nível de escolaridade revelou-se como um dos fatores prognósticos mais fortes do estudo. Segundo os registros analisados, os pacientes tratados no sistema privado de saúde apresentaram maior nível de escolaridade: 48,7% relataram possuir nove anos ou mais de educação formal. No sistema público, apenas 29,8% dos pacientes tinham esse mesmo tempo de dedicação ao ensino formal. E essa disparidade foi relacionada a consequências no desfecho dos pacientes com linfoma difuso de grandes células B. Pacientes com até oito anos de escolaridade formal apresentaram um risco de morte 47% maior, independentemente de idade, sexo, intervalo entre o diagnóstico e o início do tratamento ou fonte de financiamento do tratamento. A sobrevida dospacientes com nove anos ou mais de escolaridade formal em cinco anos foi de 63,9% enquanto a dos pacientes com zero a oito anos ficou em 45,2%. "A escolaridade tem um grande impacto na sobrevida desses pacientes. E, ao interpretar esses resultados, é fundamental considerarmos que questões relacionadas ao autocuidado, à valorização da saúde, ao entendimento sobre as orientações e à adesão ao tratamento passam pelo nível de escolaridade do paciente", explica Gaiolla. O tempo para o início do tratamento As longas filas e o tempo de espera até o início do tratamento são alguns dos principais desafios enfrentados pelos pacientes do SUS, independentemente da doença que apresentam. E esse era um dos principais questionamentos dos pesquisadores: investigar o quanto essa espera pode impactar na sobrevida do paciente com linfoma difuso de grandes células B. Para surpresa dos pesquisadores, um menor tempo entre o diagnóstico e o início do tratamento, de até 60 dias, esteve relacionado a uma pior sobrevida se comparado ao de pacientes que iniciaram o tratamento após 61 dias. "A nossa interpretação é que esse resultado tem relação com a biologia do tumor. A doença mais agressiva traz o paciente mais rápido ao serviço. E, por isso, esse tempo foi mais curto. A pior sobrevida, portanto, estaria mais relacionada à característica biológica da doença e não ao tempo de início do tratamento", completa o coordenador do estudo. Diferenças entre faixas etárias e sexo Outra descoberta relevante da pesquisa foi a interação entre sexo, idade e fonte de financiamento do tratamento. Nos pacientes do sistema público com idade entre 18 e 64 anos, apesar de ambos os sexos terem um prognóstico pior se comparados aos pacientes do sistema privado, ele é mais acentuado entre as mulheres. Já na faixa etária de 65 anos ou mais, observou-se um risco de morte significativamente maior exclusivamente entre as mulheres tratadas no SUS. "Não esperávamos identificar uma diferença baseada em sexo", pontua Gaiolla. "Mas, somente com esse estudo, não podemos avançar nesse dado", avalia. Os estudiosos envolvidos na investigação debateram a possibilidade de que o resultado esteja relacionado a um contexto sociocultural e econômico que dificulta o acesso das mulheres aos serviços de saúde. "Mas também pode ter relação com as características biológicas da doença e a resposta do organismo feminino ao tratamento" afirma o hematologista. "É um dado significativo que merece ser avaliado em outros cenários para entedermos o porquê dessa diferença." A necessidade de avançar em políticas públicas O estudo deixa claro que, apesar de o SUS oferecer de forma gratuita o mesmo protocolo de tratamento para o linfoma difuso de grandes células B que a rede privada, há uma diferença significativa entre os desfechos clínicos dos pacientes. Por esse motivo, os pesquisadores destacam que a grande contribuição da pesquisa é ampliar o olhar para possíveis políticas públicas em saúde que possam modificar essa realidade. "O paciente do SUS vive menos, ainda que apresente a mesma doença e receba o mesmo tratamento que o paciente da rede privada. Não podemos ter essa disparidade. Então, é preciso, com base nessas informações, entender o motivo desse desfecho pior. Se está no acesso dos doentes ao serviço, nas informações prestadas, na educação médica, ou seja, o estudo gera novas hipóteses de onde podemos melhorar esse atendimento". Para isso, o médico hematologista destaca a importância de se manter bancos de dados atualizados e com acesso facilitado às informações. "Não é simples extrair e fazer o cruzamento dos dados. A nossa pesquisa contou com analistas de dados que se debruçaram sobre os registros para chegar a esses resultados", explica Gaiolla. "Ainda não temos um banco ideal que o acesso seja feito de maneira fácil. E isso é importantíssimo, porque conseguimos obter informações que podem direcionar o trabalho de gestores em saúde. O material desse estudo é uma importante referência que pode embasar as discussões sobre mudanças estratégicas para o tratamento do linfoma", afirma. Um novo estudo em andamento O desafio dos pesquisadores, neste momento, é investigar o desfecho clínico de pacientes que estão na segunda linha de tratamento contra o linfoma difuso de grandes células B. Ou seja, que fizeram o primeiro ciclo de quimioimunoterapia e tiveram uma recidiva da doença. "Para a segunda linha de tratamento, há diferenças significativas entre os serviços público e privado. No sistema privado, são muitas opções de tratamento. No SUS, elas são mais restritas. Nossa ideia é cruzar as informações dos bancos e obter dados clínicos mais pormenorizados para avançar e entender o trajeto do paciente e a sobrevida. Acreditamos que vamos encontrar uma disparidade ainda maior", completa Gaiolla. Cuide-se Ciência, hábitos e prevenção numa newsletter para a sua saúde e bem-estar
Estudo identifica desigualdades na sobrevida de pacientes com linfoma atendidos nas redes p�blica e privada de SP
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.