Estudo dinamarqu�s revela que 45% dos casos de dem�ncia s�o evit�veis

Estudo dinamarqu�s revela que 45% dos casos de dem�ncia s�o evit�veis

"A velhice ridícula é, porventura, a triste e derradeira surpresa da natureza humana", escreveu Machado de Assis, em "Memórias Póstumas de Brás Cubas". A ideia que Machado fazia da velhice não era propriamente a do mundo atual. No conto "Linha Reta e Linha Curva", ele escreveu: "Quanto ao velho que lhe dava o braço, era, como disse, um homem de 50 anos. Era o que se chamava em português chão e rude, um velho gaiteiro". Qual não seria a surpresa do maior escritor da nossa língua, ao saber que dali a um século e meio mulheres e homens dessa idade estariam em plena atividade profissional e que a expectativa média de vida beiraria os 80 anos. A queda continuada das taxas de natalidade e o envelhecimento progressivo da população criaram o desafio de organizar os serviços de saúde, numa sociedade com números cada vez menores de jovens em relação ao de velhos. Como controlar as doenças crônicas que incidem nessa faixa etária: hipertensão arterial, diabetes, obesidade, sarcopenia, câncer, problemas ortopédicos e transtornos psiquiátricos que, em conjunto, representam cerca de 80% dos atendimentos do SUS e da Saúde Suplementar? Nenhuma dessas enfermidades, entretanto, demanda a complexidade de recursos humanos e materiais requeridos pela "triste e derradeira surpresa". Pessoas com demência sobrecarregam a saúde pública, a sociedade e, sobretudo, as famílias, não só no Brasil, mas em todos os países do mundo. Nas últimas décadas aprendemos que os quadros demenciais muitas vezes se instalam por condições genéticas, ambientais e neurobiológicas mal conhecidas, contra as quais pouco ou nada podemos fazer. No entanto, segundo a The Lancet Commission on Dementia, ao lado dessas causas, há pelo menos 16 fatores de risco passíveis de modificação, para prevenir ou retardar a instalação dos quadros demenciais. A comissão estima que esse conjunto de fatores seja responsável por 45% dos casos no mundo. São eles: 1) traumatismos cerebrais; 2) depressão; 3) perda de audição; 4) perda da visão; 5) diabetes; 6) distúrbios do sono; 7) hipertensão arterial; 8) colesterol elevado; 9) doenças cardiovasculares; 10) hospitalizações por doenças infecciosas; 11) obesidade; 12) fumo; 13) consumo de álcool; 14) baixo nível educacional; 15) sedentarismo; e 16) isolamento social. Acabam de ser publicados os resultados de um inquérito populacional dinamarquês que avaliou a interação entre esses fatores em todos os habitantes do país nascidos em 1957 ou antes dessa data —portanto, com 70 anos de idade ou mais. No total, foram acompanhadas mais de 1,7 milhão de pessoas que não apresentavam demência, número que torna esse estudo o mais completo já realizado. No acompanhamento dos participantes, 37,8% desenvolveram demência. A análise dos fatores de risco individuais mostrou que os mais relevantes foram: hospitalização para tratamento de infecções (9,4%), depressão (8,7%) e doenças cardiovasculares (7,6%). Quando esses três fatores estavam presentes ao mesmo tempo, o risco foi potencializado. A extensa avaliação dos dados obtidos mostrou, por exemplo, que, embora tenha havido um pequeno aumento em fumantes, os números não foram estatisticamente significantes. O mesmo ocorreu com o consumo de álcool. Entre os nascidos no período de 1948 a 1957 hipertensão arterial aumentou o risco, fato não documentado entre os nascidos antes de 1937. Curiosamente, a obesidade foi relacionada co m 18% de redução do risco. O isolamento social só aumentou o risco no grupo de nível educacional mais baixo. Nas mulheres, o risco mais alto foi associado à depressão; nos homens, às doenças cardiovasculares e à hipertensão arterial. Os autores consideram que 25% dos diagnósticos de demência são atribuíveis a três fatores: depressão, internações hospitalares por infecção e doenças cardiovasculares. E que 10% de redução na prevalência dos 16 fatores de risco seriam suficientes para reduzir de 4% a 5% os casos de demência. Nem o SUS, nem a saúde suplementar e nem a sociedade estão estruturados para enfrentar desafio dessa magnitude. O inquérito dinamarquês conduzido com pessoas de 70 anos ou mais mostra que, nessa faixa etária, a prevalência de quadros demenciais é de 37,8%. Hoje, quando morre alguém da família com 70 anos, dizemos que morreu moço. Dá para ter ideia da gravidade do problema que estamos vivendo? LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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