A cada ano, entre 2022 e 2025, o Iser (Instituto de Estudos da Religião) entrevistou 45 mulheres, de 16 a 65 anos. Elas vêm sobretudo das classes C e D e são, em sua maioria, pretas e pardas. Todas evangélicas. O que emerge é um painel de mulheres que conciliam fé e pragmatismo e que, no último ano, passaram a ressignificar o feminismo que até então lhes provocava repulsa. Essas fiéis desconfiam de um Estado que, para elas, não faz o suficiente para que se sintam protegidas contra a violência doméstica. Não têm problema com o conceito bíblico de submissão, entendido sob o papel teológico de ser uma "ajudadora" do homem no ambiente familiar. Exemplo disso é como muitas avaliam a postura da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF): uma mulher que não se posiciona à frente do marido, mas ao lado dele. Diz o livro de Gênesis que Deus julgou não ser bom "que o homem esteja só" e fez "uma ajudadora idônea para ele". O Livro de Provérbios descreve a mulher virtuosa: ela administra o lar com zelo e "só lhe faz bem [ao marido], e não mal". É uma visão que faz sentido para a evangélica média, que não vê conflito entre assumir esse rótulo virtuoso e buscar a igualdade de gênero. Ela defende o direito de trabalhar e ter o próprio dinheiro, além de cobrar uma divisão mais justa das tarefas domésticas. O relatório "Mulheres Evangélicas, Política e Cotidiano" desconstrói a caricatura homogênea tão atribuída às crentes brasileiras. As fiéis ouvidas "gostam de um estado forte, que as ajude nas demandas do dia a dia, e entendem que empreendedorismo e liberalismo sozinhos não resolverão suas vidas", exemplifica a antropóloga Livia Reis, que coordenou o projeto com Jacqueline Moraes Teixeira. "Surpreende também o apoio que elas dão à necessidade de educação sexual nas escolas", ainda que recusando termos abstratos como "ideologia de gênero", diz Reis. "A maioria passou por experiências de abuso e não confia em homens para cuidar de seus filhos, afastando-as desse estereótipo de que evangélicas são contra o tema." A pesquisa adotou uma metodologia baseada na escuta continuada: um total de 180 entrevistadas em trios de desconhecidas que debatiam por duas horas tópicos como fé, família e país. Por se tratar de um estudo qualitativo, focado em aprofundar percepções em vez de mensurar dados numéricos, os resultados não funcionam como amostra estatística e não podem ser generalizados para todas as evangélicas do Brasil. O que o método oferece é um retrato desse grupo-chave da população, levando em conta que mulheres negras de classes baixas são maioria nas igrejas. Essa mulher enxerga o templo como um "espaço importante para buscar Deus e encontrar a paz, e não apenas como um lugar que oferece coisas que o Estado não faz, como o senso comum gosta de justificar o crescimento evangélico", diz Reis. "Essa dimensão religiosa da igreja é relevante e, inclusive, é o que faz com que elas critiquem o uso político dos templos. Crente gosta de ir à igreja porque gosta de orar, de louvar." É uma compreensão sintetizada na fala de uma jovem de 17 anos, fiel de uma Assembleia de Deus: "Não acho que é um lugar que esse tipo de coisa [questões eleitorais] deve ser comentado, né, até porque às vezes nem faz sentido, [o pastor] tá ali pra pregar a palavra". O acompanhamento anual detectou uma inflexão na perspectiva sobre o feminismo. Em 2025, o conceito passa por uma ressignificação e deixa de ser visto como um bicho-papão ideológico. Até o ano anterior, grande parte das entrevistadas via ali um movimento que defendia o aborto, pregava uma incômoda "supremacia feminina", era antagônico ao evangelho e até símbolo da "falta de higiene pessoal", pelo lugar-comum da militante que não depila a axila. Não reconheciam agendas como acesso à saúde e combate à violência nesse pacote. Depoimento de uma batista de 47 anos resume essa aversão: tudo bem para ela apoiar "a mulher ser independente" e "poder trabalhar". Daí a dizer que "não precisa do homem pra nada" é esquecer que "ela tem um pai, um tio, um avô". Nenhum deles presta? "Pra mim, começa a virar uma doença mental." Houve um deslocamento inédito nas respostas do ano passado, com 6 em cada 10 participantes dizendo que é possível ser cristã e feminista ao mesmo tempo. A palavra ganhou contornos de luta legítima. Elas dizem perceber que usufruem de menos direitos do que os homens, enquanto relatam cansaço com a sobrecarga de atividades domésticas. Lívia Reis identifica "dois movimentos aparentemente paradoxais, mas que se reforçam". Por um lado, a rejeição ao termo "sempre foi marcante, sobretudo quando comparada ao posicionamento delas em relação a questões LGBTQIA+ e afrorreligiosas, nas quais são mais flexíveis". Mas também ficou claro "que a imagem que elas tinham era a de um feminismo estereotipado pela direita religiosa, da mulher de peito de fora, pelos embaixo do braço e que luta pelo aborto". Em paralelo, conservadoras como Michelle e a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) ganharam mais projeção. Reis sublinha: não está dizendo que Michelle e Damares são feministas. Mas, ao trazer à tona pautas como violência de gênero, "a partir de uma gramática própria, mediada pela linguagem religiosa", colaboram para que muitas irmãs de fé "reformulem a própria percepção que elas têm sobre o feminismo de uma forma geral". Aborto continua um campo minado. Prevalece a posição conservadora contra um comportamento classificado como "libertinagem" —um contraste com o perfil real traçado por pesquisas, que mostram que a mulher que opta pelo procedimento geralmente já tem filhos e professa uma religião. O aborto é avaliado de forma negativa porque, na visão delas, viola o livre-arbítrio do próprio feto. A parcela ouvida pelo Iser espera rigor punitivo do Estado, com metade endossando a prisão daquela que aborta. Em contrapartida, 2 em cada 3 defendem que a igreja acolha sem julgar. Para Reis, a sanha punitivista e o impulso por acolhimento podem caminhar juntos, "inclusive porque grande parte afirma conhecer mulheres que já abortaram". O discurso mais duro acompanha a forma como a direita cristã vem conduzindo o debate sobre aborto desde 2024, ano em que o ex-presidente da bancada evangélica Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) apresentou um projeto de lei para equiparar a gravidez interrompida após a 22ª semana ao crime de homicídio. O estudo revela maior simpatia por manter as leis que garantem o aborto legal nos casos de estupro, anencefalia fetal e risco à vida materna. São opiniões de mulheres que aprovam em peso o governo de Jair Bolsonaro (PL), fidelidade que se reflete nos dados: cerca de 80% o escolheram em 2018 e 2022. Os "impropérios" que ele diz incomodam, mas acabam funcionando como uma "chave de humanização", segundo o relatório. Uma crente de 47 anos, da Congregação Cristã no Brasil, o define como "uma pessoa meio Hitler, meio sem filtro", que não teve "potência em algumas coisas que ele falou", mas também um presidente que "não teve nem tempo de realizar as propostas que ele tinha". Já Lula (PT) é vinculado pelo grupo com "roubalheira", ecoando rótulos fartamente propagados pelo bolsonarismo. A percepção é de que, sob a gestão petista, a situação econômica piorou, como detecta uma fiel de 28 anos de uma Igreja Universal: "Aumentou o salário mínimo, mas todos os produtos também aumentaram, né? Você vai no mercado e a maior parte do teu dinheiro fica no mercado, então, você não pode fazer um lazer com a tua família porque as coisas estão muito caras".
Estudo desmonta caricatura da eleitora evang�lica e mostra mudan�as na vis�o sobre feminismo
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