Estrat�gia atual da UE � ampliar acordos de livre-com�rcio, diz comiss�rio do bloco

Estrat�gia atual da UE � ampliar acordos de livre-com�rcio, diz comiss�rio do bloco

O eslovaco Maros Sefcovic, o comissário europeu de comércio, diz que o comércio global está cada vez mais politizado, mas nega que haja uma guerra comercial entre os Estados Unidos e a União Europeia (UE). Acrescenta, porém, que a atual estratégia do bloco é buscar cada vez mais acordos de livre-comércio com novos parceiros, diversificando sua cartela, dado que os EUA ainda são os seus maiores parceiros comerciais. Em entrevista à reportagem por email, o eslovaco, que é um dos comissários mais experientes do bloco, falou sobre as tarifas de Donald Trump, o comércio com o Brasil, o acordo com o Mercosul e as eleições brasileiras. Sefcovic diz que, independentemente dos entraves na Europa, a implementação provisória do acordo de livre-comércio com o Mercosul começou muito bem. E lista os três produtos cujas exportações cresceram mais de 200%: abacates, óleo de milho bruto e café torrado. Sobre as falas do candidato Flávio Bolsonaro (PL) que sinalizam a possível retirada do Brasil do Mercosul, diz que o acordo seguiria em vigor da mesma forma com o Brasil, e que está "confiante na resiliência da nossa parceria". Afirma, ainda, que foram positivas as auditorias realizadas pela UE no Brasil após o bloco ter interrompido as importações de carnes sob o argumento de que o Brasil faz uso excessivo de antibióticos na pecuária. E que as recomendações serão levadas aos Estados-membros para que o fluxo possa ser retomado —ainda que na terça (29) a autoridade sanitária da UE tenha dito que o Brasil não voltará a vender carne bovina para o bloco em menos de dois anos. C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisões Quando serão retomadas as exportações brasileiras de produtos de origem animal para a UE? O governo brasileiro afirmou que a UE havia aceitado os protocolos apresentados pelo Brasil durante as auditorias, mas ainda não há um cronograma claro. A Comissão Europeia de fato concluiu sua avaliação dos controles de antimicrobianos nos setores de aves e mel, e as conclusões são positivas. Trata-se de uma excelente notícia, que também reflete a ótima cooperação entre as autoridades europeias e brasileiras. Em breve, apresentaremos os resultados aos Estados-membros da UE, cuja aprovação é necessária para que a medida entre em vigor. Uma vez obtida essa aprovação, a implementação poderá ocorrer imediatamente —e estamos em estreito contato com o Conselho e com as autoridades brasileiras para garantir exatamente isso, abrindo caminho para a rápida retomada das exportações desses produtos. Apesar do acordo com o Mercosul, a UE decidiu impor uma cota às importações de aço que afeta a siderurgia brasileira. Existe alguma possibilidade de renegociar esse arranjo com o Brasil? A nova medida da UE para o aço foi adotada em um contexto muito difícil para o mercado siderúrgico europeu, marcado pela sobrecapacidade global. Ela se baseia nas medidas de salvaguarda da UE para o aço já existentes, em vigor há vários anos e concebidas para enfrentar o risco de aumentos súbitos das importações e proteger a estabilidade do mercado siderúrgico europeu. Desde então, a situação se tornou ainda mais desafiadora, com a União Europeia perdendo 65 milhões de toneladas de capacidade industrial e 100 mil empregos em nosso setor siderúrgico. As importações provenientes de parceiros comerciais preferenciais representam 80% do total das importações de aço da UE, razão pela qual foi necessário aplicar a medida a todos os países terceiros. Mas isso não significa que não estejamos ouvindo nossos parceiros. Muito pelo contrário. A UE atribui grande importância à sua relação com os parceiros do Mercosul e está atenta às suas preocupações. Ao longo de todo o processo, mantivemos contato próximo e constante com nossos interlocutores brasileiros. Continuaremos dialogando de forma aberta e construtiva, e tenho certeza de que, nos próximos meses, encontraremos uma solução que atenda tanto aos interesses de exportação da indústria brasileira quanto à segurança econômica da União Europeia. O acordo UE-Mercosul começou a ser aplicado provisoriamente em 1º de maio de 2026. Como avalia seus efeitos até agora? Já existe algum impacto mensurável sobre a atividade econômica? Ainda é muito cedo, mas começamos muito bem! Desde o início da aplicação provisória, as reduções tarifárias já estão se traduzindo em fluxos comerciais mais robustos. De maio a agosto de 2026, as exportações brasileiras para a UE aumentaram 23,5% em comparação com o mesmo período do ano passado. Para colocar isso em perspectiva, as exportações totais do Brasil cresceram cerca de 11%, o que significa que as exportações para a UE avançaram 12,5 pontos percentuais acima do total das exportações brasileiras. Alguns produtos brasileiros exportados para a UE registraram crescimento particularmente expressivo, entre eles abacates (+443%), óleo de milho bruto (+347%) e café torrado (+232%). O acordo também se apoia em uma relação de investimentos que já é sólida. A UE é o maior investidor estrangeiro no Brasil, com um estoque de investimentos avaliado em € 276 bilhões (R$ 1,6 trilhão) em 2024. Com o tempo, graças ao acordo, essa relação crescerá, gerando mais investimentos e mais empregos. Acredita que o Tribunal de Justiça da União Europeia poderia bloquear ou, de alguma outra forma, impedir o avanço do acordo durante sua análise jurídica? Quando espera que o acordo seja plenamente implementado? Não posso antecipar a avaliação do Tribunal, nem o ritmo de seu trabalho ou suas conclusões. Dito isso, estamos confiantes de que o acordo está em conformidade com os Tratados da UE. Após a decisão do Tribunal de Justiça, o Parlamento Europeu dará a palavra final, em conformidade com os Tratados da UE, e os Estados-membros procederão à ratificação definitiva. Enquanto isso, o acordo comercial está sendo aplicado provisoriamente em sua totalidade, o que significa que seus benefícios já estão disponíveis para empresas e cidadãos. Em que estágio estão as conversas com países como França e Polônia para reduzir sua oposição ao acordo com o Mercosul? Nunca perco uma oportunidade de promover o acordo UE–Mercosul. Esse acordo foi concebido como uma verdadeira parceria de mão dupla, que traz benefícios a empresas de todos os portes, trabalhadores e agricultores de ambos os lados. Estou convencido de que, com o tempo, os resultados concretos do acordo ajudarão a demonstrar que muitas das preocupações iniciais foram exageradas e que os benefícios são reais, inclusive em países como França e Polônia. O Brasil irá às urnas em poucos dias. O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro propôs que o Brasil deixe o Mercosul, o que poderia colocar em risco o acordo de livre-comércio. Como a UE vê essa possibilidade? O Brasil ratificou o acordo conforme seus procedimentos nacionais e com ampla maioria no Parlamento. Portanto, é parte signatária do acordo independentemente de sua participação no bloco do Mercosul. Estamos confiantes na resiliência de nossa parceria. Ao mesmo tempo, respeitamos —e continuaremos respeitando— o direito soberano do povo brasileiro de escolher seu presidente. Flávio Bolsonaro, que atualmente está empatado com o presidente Lula nas pesquisas, defende um alinhamento mais estreito com os Estados Unidos. Acredita que a eleição poderia mudar a relação entre o Brasil e a Europa? Não vemos nossos acordos comerciais como algo voltado contra alguém. Isso também vale para o acordo UE–Mercosul. Nossos acordos têm como objetivo abrir novas oportunidades, diversificar parcerias e fortalecer nossa posição na economia global. Na prática, eles nos ajudam a construir cadeias de suprimentos mais resilientes, reduzir dependências excessivas e nos adaptar às mudanças no cenário mundial. Nesse contexto, confio na parceria entre a UE e o Brasil. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. Qual é sua avaliação sobre o atual estágio da guerra comercial iniciada pelo presidente Trump? O comércio está mais politizado do que nunca, mas a UE e os Estados Unidos não estão em uma guerra comercial. Talvez você já tenha me ouvido dizer: é fácil declarar uma guerra comercial, mas é difícil encerrá-la, e ela é sempre muito custosa para ambos os lados. Por isso, prefiro o diálogo ao confronto, em qualquer circunstância. A UE continua empenhada em firmar acordos comerciais e buscar soluções conjuntas para desafios comuns. Agora temos 45 acordos com 81 países. Somando-se as negociações concluídas com Indonésia, Índia e Austrália, esse número sobe para 48 acordos, abrangendo 83 países. Há poucos dias, também chegamos a um acordo substancial sobre nosso tratado de livre-comércio com as Filipinas, uma das economias mais dinâmicas do Sudeste Asiático. Isso fala por si só. Que impacto as tarifas impostas pelos Estados Unidos estão tendo sobre a UE? Há um ano, o comércio transatlântico parecia frágil. Em vez de responder à incerteza com confronto, a UE optou por negociar, chegando a uma Declaração Conjunta com Washington que limitou a 15% as tarifas dos Estados Unidos sobre produtos da UE e estabeleceu exceções para alguns setores estratégicos, como o de aeronaves e o de medicamentos genéricos. Estabilidade, previsibilidade e os impactos sobre empresas e empregos estão sempre presentes em minhas considerações. Os Estados Unidos continuam sendo nossa maior relação comercial individual —quase US$ 2 trilhões em bens e serviços em 2025. Por isso, nunca tive dúvidas de que esse é o caminho certo. Além disso, essa abordagem também abriu portas que uma guerra comercial teria fechado, porque compartilhamos muitos desafios, por exemplo, em relação à sobrecapacidade global, aos minerais críticos e à inteligência artificial. Nada disso significa que o trabalho esteja concluído, e deixamos claro que agiremos caso os compromissos não sejam cumpridos. Estou em contato constante com meus interlocutores norte-americanos para resolver questões pendentes e evitar qualquer agenda negativa. Que estratégias a UE está adotando para mitigar os efeitos dessas tarifas? O acordo com o Mercosul poderia contribuir para esse esforço? Tanto o novo contexto geopolítico quanto o novo cenário comercial serviram de impulso para nossas negociações. Os acordos de livre-comércio tornaram-se uma parte ainda mais importante de nossa agenda de diversificação. Eles ajudam a fortalecer nossas cadeias de suprimentos. Nesse contexto, o acordo UE-Mercosul já desempenha um papel crucial. E acredito sinceramente que continuará ajudando nossas empresas a prosperar dos dois lados. Várias delegações empresariais da UE já estão visitando o Brasil para estabelecer vínculos comerciais —como a italiana Confindustria, há algumas semanas. Irei à região em dezembro para participar de fóruns empresariais em Punta del Este e Buenos Aires e promover nosso acordo localmente, ao lado de meus parceiros do Mercosul e da UE, bem como de empresas de destaque. RAIO-X | MAROS SEFCOVIC, 60 Comissário europeu de Comércio e Segurança Econômica desde 2024, é natural de Bratislava, capital da Eslováquia, e um dos diplomatas com maior experiência na UE atualmente. Representou seu país em alguns postos consulares e, a partir de 2009, passou a integrar comissões do bloco

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