Estou de lua de mel, mas sou uma colunista dedicada e busquei um tema social e antropológico para contar durante minha viagem romântica. Viemos para Montevidéu e eu ouvi dizer que a Feira de Tristán Narvaja é uma fotografia autêntica da vida, dos modos e costumes dos moradores daqui. Não tem regra nem setores. Nas primeiras banquinhas vi muitas frutas, verduras, plantas, mudas de lavanda, alecrim, tomilho, louro, temperos frescos e desidratados. Um homem com enormes tranças brancas vendia tábuas e colheres de madeira de oliveira, muito feliz ao dizer os preços e receber os interessados. Logo depois dele, infinitas banquinhas de venda de incensos. Muito cheiro e muita fumaça. Hippies legítimos que voltaram hoje dos anos 1960. A feira, entre outras coisas, também parecia uma viagem no tempo. Atravessada a espessa cortina de fumaça dos incensos, encontramos uma mãe e seu filho vendendo bolos e cookies caseiros. Acho bonito ver essas iniciativas familiares, buscando o seu melhor para prover o sustento da família, uma renda extra na manhã de domingo. Compramos um de cada, para incentivar. Eu estava com fome e dei logo umas três mordidas no bolo de uma vez, para continuar o passeio bem alimentada. Meu objetivo era achar antiguidades. Passamos por uma zona de livros usados e vi muitos exemplares do Paulo Coelho em espanhol. Isabel Allende, também. Depois encontrei o "Juntacadáveres", do Juan Carlos Onetti, que está fora de catálogo e eu quero muito ler. A seguir vieram os LPs. Os vendedores continuavam na mesma configuração: senhoras e senhores com mais de 60 anos, com camisetas dos seus ídolos, cabelos grandes, brancos, mulheres de roupas coloridas. Uma senhora de cabelos azuis lia tarô para os transeuntes, passado, presente e futuro. Tive vontade de parar, mas segui procurando antiguidades. O grande momento foi ver uma banca dupla, só com gnomos para vender. Não havia mais nada, só pequenos gnomos fazendo coisas diferentes. São comportamentos gnomoicos, registrei na cabeça para usar na coluna. Refleti que não sei a diferença entre gnomos e duendes, uma nomenclatura que me escapa. Aquilo na mesa era grama mesmo? Os pequenos seres estavam andando de um lado para o outro. Ninguém parecia perceber. Evitei olhar para não fazer contato. O foco era achar antiguidades. Fui seguindo. Tive vontade de comprar uns azulejos quebrados e outros inteiros. Um bolo de fotos de gente antiga, bem antiga, todas me olhando do além. Uma das fotos me acompanhou com os olhos, tenho certeza. Cismei que queria colher e garfo de servir salada. Achei. Antigos, de prata, fiquei pensando em quem teriam sido os donos daquelas relíquias, mas minha vista estava muito embaçada, talvez alergia por causa dos incensos. Aquela feira é estranha. Por que todo mundo está com uma garrafa térmica e uma cabaça nas mãos? Por que estão andando tão devagar? Por que a buzina desse carro está tocando igual à abertura do Jornal Nacional? Por que as palavras das músicas aparecem na minha frente, como legendas? Por que os duendes estão vindo atrás da gente com brownie nas mãos? Meu primeiro dia no Uruguai foi intrigante. Semana que vem conto mais. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Estou de lua de mel em Montevid�u, mas busquei um tema antropol�gico
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