Esquerda chegou atrasada na comunica��o digital e � 'cringe', diz Jones Manoel

Esquerda chegou atrasada na comunica��o digital e � 'cringe', diz Jones Manoel

A esquerda brasileira chegou atrasada na comunicação digital, não entrou de cabeça, e quando tenta dialogar com a juventude, é "cringe". Esse é o diagnóstico do historiador Jones Manoel (PSOL), candidato a deputado federal em Pernambuco que é um dos poucos progressistas a dominar as redes –tem um dos canais de YouTube de esquerda de maior audiência. Em entrevista ao podcast "A Máquina", série da Folha publicada pelo Café da Manhã durante o período eleitoral, Jones ressalta que o problema não se restringe à comunicação digital. "A mensagem da esquerda hoje é muito voltada para o passado, oferece poucas alternativas de futuro", diz. "A maioria dos progressistas diz: 'estamos no menor desemprego da história.' Ou seja, o progressista está dizendo que a pessoa passar 12 horas numa bicicleta entregando iFood é emprego e tudo bem." Por que a direita consegue engajar mais do que a esquerda nas redes? O primeiro fator é o meio de comunicação, que não é neutro. As big techs têm um lado político explícito. Reportagem no The New York Times e pesquisas acadêmicas mostram o condicionamento da governança algorítmica para privilegiar conteúdos de extrema direita. O segundo fator é o atraso das esquerdas. A direita e a extrema direita entraram primeiro nas redes sociais. Em 2012, tinha colega na faculdade que já falava de Olavo de Carvalho, dos vídeos dele no YouTube, do Instituto Mises, do Instituto Liberal. O primeiro canal marxista de sucesso no YouTube foi o da Sabrina Fernandes (de 2017), após o golpe contra Dilma [Rousseff]. Até hoje os partidos políticos, os movimentos sociais, têm uma resistência à comunicação digital. A esquerda demorou e, quando entrou, não foi de maneira substantiva. O terceiro elemento é a universalização da internet no Brasil. No momento que a internet explodiu no Brasil, o PT era governo havia muito tempo, e acabou sendo identificado como o sistema. Então se criou toda um ecossistema contra o establishment, contra o que está aí. Existe algo na estrutura dos partidos de esquerda, mais centralizada e hierárquica, que não estimula o ativismo digital? Os partidos políticos no Brasil, de maneira geral, são controlados por linhagens familistas. Aqui em Pernambuco todos os protagonistas da política pernambucana são pessoas de sobrenome. É só Mendonça, Ferreira, Coelho, Lira, Campos, Arraes. E a internet tem um elemento descentralizador que é problemático para quem controla estruturas partidárias e quer manter esse controle. Vou pegar o meu exemplo pessoal. Eu, filho de uma empregada doméstica e de um pedreiro, que não tinha tradição política nenhuma, começo a minha militância política 15 anos atrás. Um belo dia eu decido que eu vou abrir um canal no YouTube. É pequeno e tal, mas começa a ir bem. Aí todos os temas que eu vinha falando nos meus vídeos, decido que isso dava um bom livro, que para na mão do Caetano Veloso. Ele gosta do livro, me chama para dar entrevista na Mídia Ninja, e aí essa entrevista bomba meu canal. De repente, estou com peso no debate político, não passei pela bênção de nenhum cacique partidário. A internet tem um elemento anárquico, descentralizador. Alguém que faz uma boa comunicação digital consegue interferir nas disputas políticas e aparecer para centenas ou milhares de pessoas como representante de uma causa. E faz isso fora da estrutura partidária. Quais os problemas da estratégia de comunicação da esquerda? O problema é político. Hoje, no Brasil, temos 90 milhões de brasileiros endividados, porque a taxa de juros está nas alturas. Não é um problema de comunicação, é oferecer uma resposta para isso. Além disso, a esquerda brasileira tem um problema geracional muito grande, eles têm muita dificuldade de dialogar com a juventude. Quando tenta, faz o que os jovens chamam de cringe. É a comunicação que tenta parecer descolada, ágil, mas acaba não dando certo. O vice-presidente Geraldo Alckmin, por exemplo, tentou dar uma melhorada na imagem, tirar aquela coisa meio picolé de chuchu. A aposta dele foi ficar engraçadinho, mostrar as meias coloridas dele. É meio artificial. Falta ter pessoas da geração mais jovem, que estudam comunicação, para pensar estratégias concretas. Há lideranças ou ativistas de esquerda que o senhor considera muito bons na internet? A Erika Hilton é alguém que desenvolve uma comunicação muito efetiva, que conseguiu criar em torno da figura dela um ecossistema de apoiadores engajados, muito ativos, prontos para defendê-la de qualquer crítica. Sâmia Bomfim também tem uma comunicação muito boa. E da direita? A melhor pessoa é o Nikolas Ferreira. Ele tem uma capacidade de pautar o debate que é impressionante. Se há alguma pauta negativa para a direita e extrema direita, ele arruma do quinto dos infernos uma pauta aleatória para dispersar aquele debate. Aquele negócio do detergente foi ele que começou [acusou a Anvisa de perseguir politicamente a fabricante do Ypê após a agência suspender a fabricação do detergente]. Ele inventa alguma coisa totalmente aleatória, meio inacreditável, consegue emplacar como assunto. Assim: "A Galinha Pintadinha é comunista". sabe? "os comunistas mataram o Chacrinha". Uma segunda figura é a Michelle Bolsonaro. Aquele vídeo da Michelle contra a aliança do PL com Ciro Gomes no Ceará, criticando o Flávio Bolsonaro, é uma peça de comunicação dez do ponto de vista semiótico, enquadramento da imagem, da roupa dela, do jeito de falar, da mensagem política. Ainda bem que ela não é candidata a presidente. Daria trabalho. De que maneira a esquerda não responde aos anseios dos jovens? Eu tenho 36 anos, não tenho casa própria. Meus amigos também não. Eu não tenho carro, meus amigos também não. Eu estou fazendo doutorado e as expectativas de empregabilidade correspondente ao meu nível de formação são baixíssimas. A minha geração é típica dos anos 2000. Gente que foi o primeiro da sua família a fazer curso superior, na expectativa de "pô, agora vamos ter um emprego bom, uma casa legal, com carro legal, ter dinheiro para fazer uma viagem, ir pra Belém do Pará ou para Argentina". E isso não se realizou. A possibilidade de um jovem hoje ter estabilidade financeira é cada vez menor. E a mensagem da esquerda hoje é muito voltada para o passado, oferece poucas alternativas de futuro. "O governo Lula fez o Luz para Todos, fez o programa de cisternas, fez o Fies, fez o ProUni." Sem oferecer uma mensagem de futuro melhor, você não vai ganhar a juventude. E a extrema direita oferece um programa para isso, a meu ver, totalmente falso e equivocado, que é radicalizar um programa neoliberal de privatizações, de desregulamentação, de fim de direitos trabalhistas. Mas ela oferece uma mensagem para o futuro. Se essa falta de perspectivas se aplica a pessoas que têm esse nível de formação alta que você tem, como é que isso funciona para uma multidão de entregadores do iFood? A maioria do campo progressista olha para a economia brasileira e diz que está tudo bem, é o menor desemprego da história. Mas não está tudo bem. Estamos batendo recorde de endividamento, aumento do custo de vida. Aí a extrema direita olha assim e fala: "Ó, tá vendo essa economia aqui? A única coisa que tem para você fazer é você virar empreendedor. O grande problema é o Estado, porque cobra muito imposto, impõe muita regulamentação, atrapalha". Então eles pegam essa economia capitalista que só gera emprego precário e radicalizam. Nessa relação de trabalho uberizado, faz sentido você radicalizar um discurso de desregulamentação, pelo menos você supostamente vai melhorar as condições imediatas daquele trabalhador. Se eu vou ser entregador de iFood pelos próximos dez anos, vamos acabar com o Detran, porque pelo menos não levo multa, dirijo como eu quiser, com a viseira levantada, com a placa vencida. A maioria dos progressistas diz: "estamos no menor desemprego da história." Ou seja, o progressista está dizendo que a pessoa passar 12 horas numa bicicleta entregando iFood é emprego e tudo bem. Nos EUA, os democratas socialistas têm avançado. Zohran Mamdani se elegeu prefeito de Nova York, vários deles venceram primárias. Mas, no Brasil, essa ultraesquerda ainda é um nicho. O Mamdani soube capturar um conjunto de propostas que, para os EUA são radicais, lá creche pública é um negócio "nossa senhora". Sistema universal de saúde é uma revolução, né? É, vem aí os bolcheviques. Então creche pública, controle de preços dos aluguéis, mercados estatais. Mamdani soube juntar um debate de esquerda mais crítico ao capitalismo, com um muito universalista, que toca nas demandas imediatas da classe trabalhadora carente de serviços públicos. Aqui no Brasil, ninguém perguntou à classe trabalhadora se a principal demanda é sair estatizando tudo. Mas esse é o discurso central. Eu defendo uma lei de teto de juros, uma proposta que tem um amplo apelo nas ruas. Pode não ser revolucionária, pode não acabar com o capitalismo, mas se a gente quer conquistar famílias trabalhadoras, precisa oferecer uma alternativa imediata. Por outro lado, o Brasil tem uma coisa muito curiosa, que os nossos radicais deixam muito rápido de ser radicais. O Zohran Mamdani é o Guilherme Boulos de 2020 [então candidato à Prefeitura de São Paulo]. Em 2020, ele fez aquela campanha de massas, empolgada, com discurso radical, enfrentar a especulação imobiliária, garantir moradia popular. O Boulos deveria ser o nosso Mamdani. Mas ele desistiu. O senhor já disse que o último bom presidente do Brasil foi João Goulart. Qual sua avaliação do atual mandato do presidente Lula? O grande mérito do presidente Lula é não ser fascista, não ser de extrema direita. Vou votar no Lula porque é o candidato mais competitivo para derrotar o Flávio Bolsonaro. Mas o presidente Lula não conseguiu entregar reformas estruturais. Eu acho muito triste que a esquerda não tenha conseguido forjar um candidato competitivo com boa capacidade de comunicação para ter uma candidatura presidencial marxista. Mas tenho certeza de que a gente vai ter em 2030. Eu espero que seja eu. Com que político conservador você gostaria muito de debater? Tem duas figuras que eu quero muito debater. Nikolas Ferreira é um, porque ele é o futuro da extrema direita brasileira. No campo de centro, porque não acho que seja de esquerda, eu gostaria muito debater com o [candidato ao Governo de São Paulo] Fernando Haddad. Inclusive para mostrar para a população a diferença de uma proposta comunista e a uma progressista. Isso seria muito bom para o PT, porque o PT, coitado, leva a fama injustamente de ser comunista.

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