Perder alguém que amamos é perceber-se para sempre acompanhado por ambivalências doídas: para sempre a presença da ausência; para sempre o rimar de amor e dor; para sempre o medo de perder alguém de novo, que vem junto com o medo de não perder o medo nunca mais. Dá medo de nunca mais ser feliz de novo, mas talvez tão doída quanto esse medo seja a culpa por, pela primeira vez, ser feliz de novo. O dia em que a gente ri, se apaixona por outro homem (ainda que siga amando imensamente o marido que se foi), vende a casa que era nossa e compra um novo canto, morada de sonhos vividos sem eles… Dias tão diferentes daqueles em que o lugar-comum da dor da ausência se concretiza, marcos de um aperto no peito anunciado: o Natal, o aniversário da pessoa, o Dia das Mães… mas que desestabilizam tanto quanto. Nos dias felizes, a dor chega intensificada pelo remorso. De repente você se sente duplamente em falta: com saudade de quem ama e autora de uma espécie de infração ao vínculo. E talvez nenhuma infração pareça tão grave quanto a de esquecer. Um dia a gente esquece o aniversário. Passa o dia inteiro feliz ou, o que às vezes é pior, imersa no automático do novo normal. A angústia surge oito dias depois, quando você se lembra de que esqueceu. E com ela a angústia de se ver sem angústia, com um novo contato de emergência, outra pessoa que recebe a ligação que por meses ficou sem destino. A ausência dos que amamos tira o chão do lugar. Seguimos em pé, mas meio bambos, como quem tem labirintite: o mundo continua girando e a gente gira diferente. Depois que meu primo morreu, minha tia nunca mais parou de balançar. Um balanço discreto à mesa, no sofá. Por muito tempo li ali a prova de que nunca mais haveria um centro. Hoje leio também um ninar: o corpo dela continuava embalando o filho que não estava, dando o colo que já não podia dar. No apartamento, conservou-se o quarto intacto: fotos, bilhetes, coleções que um dia seriam do filho que ele não teve tempo de ter. Os psicanalistas Maria Torok e Nicolas Abraham distinguem duas formas de guardar quem se foi. Na incorporação, guardamos a pessoa e nossa dor aguda num cômodo fechado, onde não se pode mexer em nada, nem no próprio sentir. Cristalizam-se as memórias e arrancam-se as casquinhas do machucado sempre que ele parece cicatrizar, para manter o outro perto, seja pelos incômodos ou pelos cômodos. Se a gente não desmonta cômodos e armários logo, quando ainda está desmontada, mas amparada pelas visitas, fica difícil abrir espaço depois. Cada objeto vira uma âncora de concretude, um pouso para quando o balanço balança demais. De alguma forma, a gente entende que honrar o amor é ser fiel à dor. A segunda forma é a introjeção. Nela trazemos aos poucos para o que somos traços do outro e memórias compartilhadas: a coragem, o gosto pela música clássica, a receita do Natal. Traços que alargam a alma e nos dão novas formas de estar no mundo, com o presente e com o ausente. No primeiro movimento, a falta paralisa, contrai, se faz aguda para manter o outro presente. No segundo, a falta expande, e os novos espaços são preenchidos pelo que fica de quem não fica. E se fica em nós, esquecer o aniversário deixa de ser descuido e passa a ser um indício de elaboração, processo que dá destino à dor pelas pulsões de vida. Que leva quem já não está aqui para passear. Penso no ato de aprender a dirigir. No começo, hiperfoco, lembrança de cada gesto: o pé na embreagem, a seta, o retrovisor. Aos poucos, confiança e fluidez. A gente esquece como se dirige justamente porque aprendeu, e esse esquecimento nos dá a chance de guiar os próprios rumos e escolher trilha sonora. Quem se foi vai estar sempre na gente. O esquecimento das datas vai conviver com lembranças espontâneas, e tudo bem. Perdi minha mãe aos 5, esse primo aos 15 e, há pouco mais de dois anos, minha tia, que foi minha mãe postiça. Sinto com você que se pune por ter esquecido, e com você que teme ter esquecido os caminhos para ser feliz. As cicatrizes serão para sempre nossas, mas não precisam ser cortes abertos. Te convido a esquecer um pouco, doar um pouco, mudar um pouco. E a criar seus próprios rituais e amuletos, que não sigam o calendário, não te suguem para o passado, e sim te deem outro balanço: não o da labirintite, mas o do brinquedo do parquinho, que acomoda amor, dor, lembrança e esquecimento num movimento constante como portais de conexão com quem se foi. Já esqueci aniversários da minha mãe. Já carreguei culpa por isso. Em outubro, resgatei com meu pai um pingente de coração que ele comprou na feira hippie de Ipanema, primeiro presente para ela. Ela tinha 15. Ele, 17. Hoje, 55 anos depois, quem carrega o coraçãozinho no peito sou eu. Uma pequena bússola do amor que compartilhamos, que é saudade, mas também legado. O psiquiatra Vamik Volkan fala em objetos de ligação: símbolos que podem ser levados para a vida, tocados sem data marcada, quando o coração aperta ou transborda. Imagine o seu amuleto, símbolo de um universo particular em que o tempo não é linear e o esquecimento não apaga o amor. Com ele, talvez esquecer um aniversário deixe de ser trair e passe a ser só mais um dia em que ela foi passear com você. E se você também tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Esqueci o anivers�rio dela pela primeira vez desde que ela morreu. Seguir vivendo � trair a mem�ria?
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