Espet�culo infantil no Sesi-SP recria Cordisburgo de Guimar�es Rosa

Espet�culo infantil no Sesi-SP recria Cordisburgo de Guimar�es Rosa

O maior perigo ao levar a infância de um grande escritor ao teatro é cair no clichê do menino gênio, cercado de explicações didáticas que enfraquecem a cena. Em "João, Joãozinho, Joãozito", espetáculo escrito e dirigido por Márcio Araújo a partir do livro de Claudio Fragata, essa armadilha é evitada desde o início. A montagem não tenta apenas homenagear um autor consagrado, mas investigar as origens de sua escrita. Olha para o cotidiano de Cordisburgo para mostrar como a miopia, o isolamento e os hábitos de um menino comum serviram de base para a obra de Guimarães Rosa. O recorte de tempo é direto: vai do nascimento de Joãozito até sua mudança para Belo Horizonte, aos nove anos. O centro da ação é a venda de secos e molhados de Seo Fulô, em frente aos trilhos do trem. No cenário feito de caixotes móveis, criado por Bruno Anselmo, circulam vaqueiros, tropeiros, bichos e viajantes. Longe do futebol e das brincadeiras de rua, o garoto aprendeu a ler sozinho aos quatro anos e decidiu registrar o que via. A timidez do menino não vira tristeza, mas exercício de escuta. Ele presta atenção aos sons dos animais e às conversas dos adultos, descobrindo o peso das palavras antes de pensar em virar escritor. A principal escolha da direção foi evitar o destaque individual: o papel de Joãozito não fica com um só ator. Os nove integrantes do elenco se revezam como o protagonista. O símbolo dessa troca é uma gravata-borboleta —marca do Rosa adulto que aqui vira brinquedo, passando de mão em mão como laço, presilha de cabelo ou fita solta. Essa divisão do papel também ganha sentido prático e social ao afastar a figura do autor de um único padrão. Quando o menino ganha o corpo de uma atriz trans ou a voz de uma atriz negra, o teatro mostra ao público jovem que a imaginação não depende de privilégio de origem. O texto dialoga com as obras futuras sem dar aulas. O amigo imaginário do pequeno João é Miguilim. Ao aproximar o autor de seu personagem, a peça trata da miopia de ambos, mostrando que colocar óculos pela primeira vez mudou a forma como viam o mundo. Aparecem ali referências a personagens conhecidos, como Hermógenes e Diadorim. A linguagem de Rosa surge como uma mistura natural entre a conversa da roça e o interesse por dicionários. A encenação aposta no trabalho artesanal. Em vez de recorrer a efeitos de grandes musicais, apoia-se no próprio palco. Os atores tocam, cantam e contam a história. Os dezenove bonecos criados por Jésus Sêda representam os bichos do cerrado, enquanto a iluminação de Guilherme Bonfanti e os figurinos de Clau Carmo compõem o clima do interior de Minas. A trilha sonora, com viola caipira e sanfona, ajuda a situar a história. Em cartaz no Teatro do Sesi-SP com entrada gratuita, audiodescrição e Libras, o espetáculo aproxima Guimarães Rosa do público infantil sem simplificar ideias e sem subestimar o público. Mostra que o sertão na obra do autor nunca foi apenas um lugar no mapa, mas uma forma atenta e curiosa de olhar para a vida. Três perguntas para… … Márcio Araújo Você escreveu e dirigiu "João, Joãozinho, Joãozito" a partir do livro de Claudio Fragata. Como se deu esse encontro com o material original e em que momento você percebeu que ali havia um espetáculo? Foi um presente do presente, do presente... Começou assim: o Josué, amigo do Claudio Fragata e do Daniel Palmeira, se apaixonou pelo livro e deu um de presente para o amigo Daniel. Daí foi a vez dele se apaixonar! E com o bom olho de produtor que tem, percebeu que ali tinha um bom material para uma peça. Então, o Palmeira me deu um livro de presente com o convite: vamos fazer uma peça desta obra? Eu li e imediatamente me apaixonei também. Mas isso foi há seis, sete anos, desde que fizemos o primeiro projeto, até nascer a peça em 2026. A gravata-borboleta como signo que amarra a rotação dos atores é um achado cênico. Como surgiu essa ideia e o que ela representa para você? Nas muitas pesquisas que fiz, percebi que na maioria das fotos que encontrava do Guimarães na vida adulta, ele tinha essa marca em seus ternos sempre muito finos: a gravata borboleta. Ele adotou isso ao seu visual como um detalhe excêntrico, pessoal, ousado, e eu que estava indo pelo caminho óbvio pensando usar uma rosa como símbolo pra ele, pensei, não! O símbolo será a borboleta! E ela representa vida, criatividade, alegria, transformação, tudo o que eu queria passar nesse menino Rosa! O menino de Cordisburgo que se alfabetiza sozinho aos quatro anos e cataloga o mundo é uma figura que dialoga com tantas crianças neurodivergentes ou introspectivas. Você pensou nisso ao construir a dramaturgia? Sim. Foi o grande motor para eu contar essa infância. Ter pontos delicados e frágeis que poderiam criar identificação com todas as crianças, e atravessá-las, crianças da cidade, do interior, todas com suas dores e medos... Foi esse o caminho para escrever essa dramaturgia coringa, e a escolha de um elenco bem diverso, onde todos pudessem ser o Joãozito. De propósito, nas cenas onde João é mais frágil, tem medo, optei pelos homens, já nas cenas de viagem pelo mundo, das descobertas científicas, das leituras, escolhi as mulheres. Assim, todas as crianças, brancas, pretas, ricas, pobres, obesas, neurodivergentes, podem se ver e sonhar em serem o que quiserem! E espero que isso realmente aconteça! Como escrevi na última frase da peça: "Voa, criança! Voa!" Centro Cultural FIESP | Teatro Sesi – Avenida Paulista, 1.313 (em frente à estação Trianon-Masp do Metrô). Quintas e sexta, 11h. Sábados, 15h. Domingo, 14h. Até 13/12. Duração: 60 minutos. Classificação indicativa: Livre, indicado para todas as idades. Ingressos gratuitos. Reservas pelo www.sesisp.org.br/eventos LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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