O alerta vermelho para a saúde mental de estudantes acendeu entre 2021 e 2023, diante de uma avalanche, pós-pandemia, de casos como tentativas de automutilação, esgotamento extremo, crises de ansiedade aguda e até suicídios. Para frear essa onda, uma articulação entre lideranças educacionais e médicas deu origem à Comissão de Saúde Mental nas Escolas Brasileiras, que envolve 57 escolas do país. A iniciativa partiu de Marcos Talarico, fundador do grupo Educational Leaders, que uniu forças com Cristina Godoi, médica psiquiatra e diretora-geral dos colégios Albert Sabin, Vital Brazil e da Escola AB Sabin, e com o professor Rudney Soares, diretor do Colégio Miguel de Cervantes e atual presidente do comitê. Juntos, eles consolidaram a parceria com a Faculdade de Medicina do Hospital Sírio-Libanês para desenvolver protocolos preventivos e tirar os colégios da inação. Soares explica que, na década de 1990, os sintomas já existiam, mas ninguém falava abertamente sobre ansiedade ou transtornos. A pandemia, as mudanças tecnológicas (como as redes sociais e a inteligência artificial), o esgarçamento dos laços familiares e a sobrecarga de expectativas por performance aumentaram o sofrimento e também trouxeram o assunto mais à tona, segundo a médica psiquiatra Nina Ferreira O objetivo da comissão, segundo Godoi, é promover um olhar multidisciplinar para a questão e estruturar caminhos preventivos a partir da discussão de casos reais (sem citação de nomes) em encontros periódicos. Neles, coordenadores da Faculdade de Medicina do Hospital Sírio-Libanês e médicos da instituição trazem pesquisas nacionais e internacionais para analisar situações críticas enfrentadas pelas redes de ensino, transformando o debate empírico em protocolos estruturados. No ecossistema de escolas sob a liderança de Cristina Godoi, o monitoramento sistemático do clima escolar produziu resultados mensuráveis: pesquisas de larga escala aplicadas nas unidades mostram que a percepção dos estudantes de que os colegas se preocupam com o próprio bem-estar subiu de 52% em 2023 para 71% em 2026, enquanto a aceitação das diferenças saltou de 67% para 76%. O grupo aposta em práticas como letramento emocional na educação infantil por meio do Programa Semente, uma metodologia estruturada que ensina os alunos a reconhecer, nomear e regular as próprias emoções. A frente de prevenção também inclui palestras sobre higiene do sono —que apontam que noites maldormidas aumentam em até três vezes o risco de depressão e ansiedade em jovens—, sessões de meditação do tipo mindfulness e formação continuada de professores em parceria com a Santa Casa e a Unicamp. Luciana Zobel Lapa, coordenadora pedagógica do 5º ao 8º ano do Colégio Pentágono, relata que nos últimos anos houve uma mudança clara nos hábitos, com uso excessivo de telas e rotinas pouco saudáveis —como ir dormir muito tarde, com menos horas de sono total—, que se refletem em sala de aula por episódios de desregulação emocional, isolamento e autolesão. Para mapear riscos, a escola aplica semestralmente a pesquisa "Voz do Aluno", além de contar com aulas de cidadania e convivência ética e uma estrutura de enfermaria para acolhimento imediato de crises. Ao falar sobre o limite de atuação, ressalta que "o limite de atuação da escola está justamente na compreensão de que acolhimento emocional não significa atendimento clínico". A questão também mobiliza o Colégio Marista Arquidiocesano, onde acontecem ações preventivas e de acolhimento estruturadas, segundo Simone Alves Freitas Dias, coordenadora pedagógica do ensino fundamental - anos finais. Ela afirma que o colégio busca tratar o tema a partir de uma perspectiva de cuidado integral, a partir do entendimento de que o desenvolvimento acadêmico não pode ser dissociado das dimensões emocionais, sociais e relacionais. Como exemplo de ação do Arquidiocesano, Dias cita o Projeto Interioridade, que tem rodas de conversa e um documento de pactos de convivência construído e assinado pelos próprios alunos contra bullying, racismo e exclusão. "A escola não substitui o acompanhamento psicológico ou médico quando necessário, mas queremos consolidá-la como um espaço de proteção, pertencimento e cuidado." Luciana Lapa, do Colégio Pentágono, reforça a afirmação. Segundo ela, a escola não existe para diagnosticar ou medicalizar, mas, sim, para formar uma comunidade segura de pertencimento, com aprendizado e saúde mental lado a lado. O limite da atuação aparece quando a demanda ultrapassa o âmbito educacional.
Escolas reagem � crise de sa�de mental dos alunos com projetos de preven��o
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