A renúncia de Santiago Peña não foi apenas o desfecho do colapso do Ueno Bank. Foi, antes de tudo, o reconhecimento de que o presidente do Paraguai havia perdido o principal recurso de sobrevivência política de qualquer governante do país: o apoio do Partido Colorado. Quando a legenda por meio da qual se elegeu passou a sustentar seu impeachment, Peña deixou de ter como resistir a uma derrota iminente no Congresso. O estopim foi a crise do Ueno Bank, instituição digital que entrou em colapso após intervenção do Banco Central paraguaio, deixando milhões de clientes sem acesso imediato aos recursos. As denúncias envolvem supostas irregularidades na gestão do banco, vínculos entre o grupo controlador e o poder político, decisões regulatórias questionáveis e o uso de recursos previdenciários. O caso ganhou o apelido de "Master paraguaio" por semelhanças com o escândalo do Banco Master no Brasil, embora se trate de uma crise distinta, centrada no Ueno Bank e no Grupo Vázquez. Mas a quebra do banco, por si só, não derrubaria necessariamente um presidente. O que transformou uma crise financeira em crise de governo foi a retirada de apoio de Horacio Cartes, ex-presidente e líder histórico do Partido Colorado. Cartes havia sido o grande padrinho político de Peña: foi em seu governo que o atual presidente ocupou o Ministério da Fazenda, entre 2015 e 2017, e foi com esse respaldo que Peña construiu sua candidatura vitoriosa em 2023. A ruptura, portanto, não representou a perda de mais um aliado. Representou o desmonte da arquitetura política que sustentava o governo. Quando Cartes anunciou que o partido apoiaria o impeachment, alegando a necessidade de restaurar a ordem institucional e punir o suposto desvio de recursos públicos, privados e previdenciários, Peña ficou isolado. O presidente do Congresso, Basilio Núñez, também retirou seu respaldo, e as principais correntes coloradas na Câmara passaram a sustentar o processo. Em sua mensagem de saída, Peña afirmou que "nenhuma pessoa está acima do Paraguai", uma formulação que busca apresentar a renúncia como gesto de responsabilidade institucional —embora a sequência dos fatos mostre que ela ocorreu sob pressão política intensa. Cercanías A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo Peña representa uma ala distinta daquela associada a Mário Abdo Benítez, seu antecessor no Partido Colorado. Abdo Benítez passou por crises semelhantes, mas conseguiu os votos e os favores de Cartes para manter-se no poder. Peña, economista formado nos Estados Unidos e com passagem pelo Fundo Monetário Internacional, chegou à Presidência com uma biografia mais técnica, financeira e internacionalista. Vaidoso, gostava de se vangloriar como conhecedor das letras de seu país. Começou uma entrevista com a Folha debatendo "Eu, o Supremo", clássico de Roa Bastos. Sua ascensão esteve ligada a Cartes e a uma agenda de modernização econômica, abertura ao capital e proximidade com o setor financeiro. Abdo, por sua vez, representava uma vertente mais tradicional e conservadora do coloradismo, marcada pela defesa de valores familiares e religiosos e pela continuidade de uma hegemonia partidária historicamente enraizada no interior do país. A disputa entre essas correntes não é apenas ideológica: envolve o controle do partido, o acesso a cargos, os recursos eleitorais e a definição do próximo nome do Colorado. A crise do Ueno Bank expôs essa fragmentação e deu a Cartes a oportunidade de reposicionar sua facção como guardiã da ordem institucional. A queda de Peña também se insere em uma tradição paraguaia de crises políticas resolvidas por pressão parlamentar. O precedente mais marcante é o impeachment de Fernando Lugo, em 2012, concluído em menos de 48 horas e que provocou uma crise diplomática regional. O caso de Peña difere em conteúdo e velocidade —o gatilho foi uma crise financeira, não um conflito fundiário—, mas repete um padrão: no Paraguai, a estabilidade presidencial depende menos da popularidade individual do que da capacidade de manter coesa a máquina do Partido Colorado. A diferença decisiva é que Peña renunciou antes de ser efetivamente destituído. Essa escolha preserva-lhe um estatuto distinto: pela Constituição, ex-presidentes que deixam o cargo sem sofrer impeachment tornam-se senadores vitalícios. A renúncia, portanto, não apenas encerra seu mandato, mas tenta blindá-lo de uma derrota política formal e preservar-lhe uma plataforma institucional. Pela lei paraguaia, porém, a renúncia não se efetiva automaticamente. O Congresso Nacional deve aceitá-la formalmente, nos termos do artigo 202 da Constituição. Aceita a saída de Peña, o vice-presidente Pedro Alliana assume a Presidência e completa o mandato, conforme o artigo 234. Alliana, também do Partido Colorado, é alvo de pedido de destituição apresentado pela oposição, mas parte da própria base governista já manifestou apoio à sua permanência —um indício de que a sucessão pode ser menos turbulenta do que a queda do presidente.
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