Há pouco mais de um mês, "American Hostage" estreou. A série, sobre um impasse armado que ocorreu de verdade numa agência de crédito imobiliário de Indiana, em 1977, é uma daquelas surpresas que amo descobrir como crítico de TV. Reúne atuações dedicadas de Jon Hamm e Giovanni Ribisi e reflexões assustadoramente atuais sobre as frustrações dos que não têm poder diante dos poderosos. Você deveria ver, se puder. O que provavelmente não poderá, a menos que abra a carteira mais uma vez. É que "American Hostage" está no MGM+. O que é MGM+? Boa pergunta! É um serviço de streaming, derivado do canal premium Epix. (O que é Epix? Não há tempo para isso!) O mais relevante é que custa US$ 7,99 por mês. Ou seja, são US$ 7,99 fora a lista interminável de assinaturas que você provavelmente já tem. (Observação: muitos dos planos que menciono aqui oferecem várias opções de preço —mensal ou anual, com ou sem anúncios, em um pacote ou outro. Talvez seja bom ter uma calculadora à mão.) Tradicionalmente, críticos de TV não costumam levar o preço em conta ao decidir o que cobrir. Isto não é crítica gastronômica. Mas, ultimamente, ver TV começou a parecer uma experiência em um restaurante sofisticado, com uma infinidade de adicionais, aumentos de preço e suplementos de caviar fazendo a conta ir às alturas. Isso é frustrante para os consumidores em tempos de inflação. Mas também não faz bem à arte —ou, pelo menos, à experiência e à conversa em torno dela. Cria mais uma divisão entre os que têm, escolhendo entre um vasto menu na primeira classe da mídia, e os que não têm, deixados de fora na terceira classe. Transforma um meio que já foi universal, embora frustrante, em algo cada vez mais inacessível, ainda que muitas vezes excelente. "American Hostage" é boa. Mas é boa a ponto de valer US$ 7,99 por mês? Alguma série é? Houve um tempo em que a TV era gratuita —bem, tirando o investimento em um aparelho, uma antena e seu precioso tempo assistindo a anúncios. Todos tinham acesso às mesmas ondas de transmissão e aos mesmos programas. Nasci na era das antenas de TV com duas hastes e não vou romantizá-la como se tivesse sido melhor. Mas, como tantos aspectos da vida "aprimorados" pela tecnologia, ela era menos complicada. Isso mudou com a popularização da TV a cabo. "Família Soprano" ajudou a transformar a HBO de um luxo doméstico ocasional (ou uma comodidade de quarto de motel) num item cultural indispensável. Cada vez mais, a TV que valia a pena assistir e comentar era algo pelo qual era preciso pagar. E depois pagar um pouco mais. Os canais a cabo se multiplicaram, e o pacote de TV —espremendo os canais a que você assistia junto aos muitos que não via— foi ficando cada vez mais inchado. Consumidores de mídia já espremidos além da conta desejavam que fosse diferente. Quem dera fosse possível escolher as plataformas que você queria assinar! Em algum lugar de Wall Street, um dedo se curvou em uma pata de macaco, e nasceu o negócio do streaming. Agora, se você tivesse uma conexão com a internet (mais uma tarifa, a menos que seu vizinho fosse descuidado com a senha do Wi-fi), poderia escolher seus serviços à la carte: Netflix, Hulu, Prime Video, Peacock, Disney+, Paramount+, AMC+. YouTube TV e YouTube Premium. Dropout, para comédia. Shudder, para terror. Crunchyroll, para anime. Quer acompanhar esportes profissionais? Talvez seja bom arranjar um segundo emprego. Conheço todos eles porque meu trabalho exige que eu possa assistir a qualquer coisa exibida em qualquer lugar. Um dia, quando eu me aposentar, desfazer meus compromissos mensais com mídia será como liquidar os ativos de uma empresa da Fortune 500 que foi à falência. Ao mesmo tempo, escrevo para pessoas que estão comparando o custo de mais uma assinatura com o da gasolina e do supermercado. E todos nós vivemos em uma economia cada vez mais estruturada em torno de assinaturas para praticamente tudo, como discutido em um episódio recente de "Last Week Tonight With John Oliver". (HBO Max, a partir de US$ 10,99 por mês com anúncios.) É verdade que US$ 7,99 é mais barato que um ingresso para uma sessão de cinema à tarde onde moro, quanto mais para um espetáculo da Broadway ou um show. Mas vale a pena para você? Como eu poderia saber? Como crítico, sei o que "vale a pena", e a era do streaming criou mais espaços para que obras de valor floresçam. O melhor dessa forma de arte agora está espalhado por vários jardins murados, cujos muros ficam um pouco mais altos a cada ano. A esta altura, a frequência dos avisos de aumento nos preços do streaming —que vêm superando a inflação— rivaliza com a das mensagens de candidatos pedindo doações. (A PBS, apesar de seus desafios de financiamento, parece um negócio melhor a cada dia.) Assim, o meio que costumava ser uma língua franca da cultura pop se transforma em uma Torre de Babel. As histórias que você vivencia e as referências que entende são determinadas pelas decisões de compra que tomou. Uma série excelente — como "Hal & Harper", do ano passado, na Mubi — pode definhar num serviço pouco conhecido, com seu público limitado antes mesmo da estreia. E uma população já fragmentada por gostos, perfis demográficos e subculturas se subdivide ainda mais por razões econômicas. Você pode desobedecer às regras e compartilhar senhas de streaming. Pode criar um sistema de lembretes para cancelar várias plataformas. Ou pode simplesmente desistir, escolher um ou dois serviços e rezar para que o algoritmo lhe ofereça algo bom. O que há de bom neste ano? Há a nova "A Leste Éden", na Netflix (US$ 8,99 por mês com anúncios, US$ 19,99 sem anúncios, US$ 26,99 em 4K). Há minha nova série favorita do ano, "O Segredo de Widow's Bay", na Apple TV (US$ 14,99 por mês, sem anúncios —ou "grátis", suponho, se você comprar produtos Apple elegíveis a cada três meses por toda a eternidade). Há uma excelente nova temporada de "Verdade Oculta", do FX, disponível no Hulu (US$ 12,49 com anúncios ou como parte de uma variedade de pacotes tão extensa quanto as instruções para preencher uma declaração de imposto de renda). Há também "Cupertino", um novo drama jurídico sobre o setor de tecnologia, do qual gostei mais à medida que avançava —e que, felizmente, é exibido pela CBS, uma daquelas antigas redes de TV aberta cujo sinal ainda voa magicamente pelo ar e pode ser captado por uma antena. Não tem antena? Há muitos serviços de streaming com o recurso de "TV ao vivo". Vai custar caro.
Epidemia de assinaturas cria novas divis�es sociais entre o p�blico do streaming
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