Há uns anos participei, em Brasília, de um seminário com autoridades policiais e penitenciárias. Apresentei resultados de pesquisa sobre as diferenças entre CV e PCC. Disse que, na ponta, seus terceirizados podem até se parecer: o jovem que vende droga na esquina ou rouba na garupa da moto. Mas quem os organiza opera de modos distintos, exigindo diferentes políticas de segurança. O CV representa uma primeira geração do crime organizado: exerce controle territorial armado e funciona como empresa piramidal de tráfico e extorsão, militarizada. Em geral, onde se instala, organiza uma cúpula de 13 associados, que presta contas e repassa lucros ao "Estado-Maior", no Rio. Cada um dos 13 administra uma área: armas, disciplina, drogas, dívidas, estratégia de expansão etc. São a um só tempo dirigentes e sócios dos negócios. Seus vapores, soldados e ladrões ganham dinheiro e protegem o território em troca de porcentagens, com pouco acesso às decisões. A guerra aos "alemão", os inimigos, cimenta a solidariedade interna. O PCC é uma forma criminal de segunda geração: uma irmandade secreta, uma "maçonaria do crime", não uma empresa ou comando militar. Articula empreendedores criminais autônomos que se ajudam mutuamente. Cada integrante toca seus negócios, não paga à organização, mas a fortalece. Conselhos, as "Sintonias", definem estratégias e fornecem infraestrutura para mercados de drogas, armas, veículos e contrabando, além de advogados e contadores. O patrimônio de cada empresário-membro não se confunde com o caixa da facção, sagrado. A ideologia de igualdade interna é fortíssima. Enquanto no CV negócios e comando podem se concentrar nas mesmas mãos, no PCC a autoridade circula por posições: a instituição pesa mais que suas lideranças. Naquele seminário, reforcei que essas duas formas de organização se expandiam simultaneamente pelo Brasil. Em muitos estados, falava-se em "Tudo 2" e "Tudo 3". Em Porto Alegre, os Bala na Cara, Tudo 2, enfrentavam os Manos, Tudo 3. Em Salvador, o Bonde do Maluco é 3; o Comando da Paz, 2. Em Goiás, os Amigos do Estado são também amigos do PCC e confrontam o CV. Meninos morreram por selfies com gestos 2, ou 3, em terreno inimigo. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Mas não há apenas guerra, nesse mapa. "O crime fortalece o crime", dizem as facções. Levantei também a hipótese de que 2 e 3 poderiam coexistir: o CV controlando territórios e o varejo de uma cidade; o PCC regulando fluxos ilícitos de atacado no porto, por exemplo. Seria preciso pesquisar muito melhor essas relações, que afetam diretamente a insegurança no país. Ainda sabemos muito pouco. Logo depois de mim, falou no seminário um alto dirigente da segurança. Fez questão de dizer que não se importava se era CV ou PCC: era tudo "vagabundo igual". Sua fala, claro, foi muito aplaudida. Essa é a concepção dominante da segurança pública no Brasil: não apenas de ignorância e guerra ineficaz, mas de reação ao conhecimento. Há os que pensam que ela deveria ser uma política pública, baseada em evidências, mas ainda somos poucos. Terceirizados e garupas seguem sendo presos e mortos, substituídos no dia seguinte por organizações cada vez mais poderosas. Enquanto o Brasil vai virando 2, ou 3, talvez mais. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Entre CV e PCC n�o h� apenas guerra, e ainda sabemos muito pouco
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