A fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) do Brasil está imersa em uma guerra de contrainformação digna de roteiro de espionagem da Guerra Fria. Os cenários do episódio incluem conspiração internacional, despistes e falhas suspeitas de controle fronteiriço. Nesta manhã de quarta-feira (28), aliados do candidato derrotado por Lula (PT) que relataram na véspera a viagem de Flávio aos Estados Unidos se dividiam entre os que alegavam ter ouvido uma mentira do núcleo familiar dos Bolsonaros e os que insistiam na versão. Os que se diziam enganados podem, claro, fazer parte de uma armação conjunta para despistar o roteiro da fuga do senador. Dando-lhes o benefício da dúvida, sobram questionamentos acerca da sapiência da operação. No cipoal de versões que ora emergem da Imigração argentina do aliado bolsonarista Javier Milei, ora de órgãos de mídia do país vizinho e do Brasil, Flávio e família atravessaram enfim a fronteira na noite de terça (27). Se isso for verdade, a questão básica é: e a Polícia Federal? Quando a notícia da saída de Flávio começou a circular, na manhã da terça, a primeira providência alegada pela PF foi a de reforçar controles fronteiriços. Se uma van branca com o senador, sua mulher e duas filhas atravessou realmente a ponte rumo a Puerto Iguazú à noite, pela lógica ou houve uma falha primária ou algum tipo de conivência, algo que apenas uma apuração poderá indicar. Flávio poderia já estar na cidade argentina, como uma TV local disse, e apenas teria se apresentado às autoridades de imigração? Essa hipótese pode ser explicada pelo vazamento à imprensa do vizinho da presença de um avião à sua disposição na cidade, adiando o que seria a fuga na noite de terça. Mas se o plano de voo da empresa Baires Fly acabou retido pelas autoridades, com sua tripulação parada no aeroporto local, como que o avião foi liberado nesta quarta para Guayaquil (Equador), no caminho de Miami? A rota em si faz sentido devido à necessária precaução de alguém que acabou de descumprir uma ordem do Supremo Tribunal Federal de evitar o espaço aéreo de seu próprio país. Mas e se os bolsonaristas que sustentam que Flávio já viajou na terça estiverem certos? Aí as hipóteses envolvidas ganham tinta que remetem a "Argo", vencedor do Oscar de melhor filme de 2013. A obra relata a extração de diplomatas americanos que haviam escapado ao cerco da embaixada dos EUA no Irã durante a eclosão da Revolução Islâmica de 1979. Eles deixam o país como integrantes de uma equipe de filmagem fictícia criada por Tony Mendez, chefe de disfarces da CIA por 25 anos. Entre bolsonaristas e outros observadores, há uma conspiração internacional comandada pelo Departamento de Estado dos EUA, que por ora apenas confirma que concederá vistos para Flávio e família, e não o asilo político ventilado por seus aliados no país de Donald Trump. Nesta visão, a fuga pode ter ocorrido pela Argentina e o corredor Andes-Caribe, pela Venezuela ora tornada um protetorado de Trump ou diretamente pelas mãos americanas, a hipótese que soa mais delirante. O primeiro cenário precisaria contar com uma mentira do governo Milei e repetiria basicamente o que está sendo divulgado só nesta quarta. O segundo, algum tipo de viagem de Flávio para a região amazônica e, de lá, aproveitando-se da baixa cobertura de radar local, um desvio rumo ao país de Delcy Rodríguez rumo a Miami. Neste caso, Flávio usaria as táticas dos traficantes de drogas que operam por lá e arriscaria uma interceptação pela Força Aérea. Além desse perigo, a família em fuga precisaria se esconder, dado que é obrigatório entregar o manifesto de passageiros de um voo com seu plano de rota para voar no Brasil. Claro, hipoteticamente é também possível achar meios de burlar isso com o devido incentivo financeiro. Como ensina Tony Mendez nas memórias "O Mestre dos Disfarces" (1999), as operações mais simples na aparência tendem a ser as mais bem-sucedidas quando o tema é retirar pessoas de um país. Por fim, uma fuga com apoio direto americano. Como não houve um assalto aéreo a Brasília no estilo que sequestrou o antecessor de Delcy, Nicolás Maduro, e levou o ditador com sua mulher para a prisão nos EUA, restaria alguma operação disfarçada pela saída anunciada pela Argentina em curso nesta quarta. A hipótese é fantasiosa e sugere uma intervenção direta americana, o que geraria uma crise —o próprio Trump, conhecido pelo pouco apego à verdade, tenta se distanciar do caso. Mas o entorno da direita americana basicamente a celebrou: o advogado mexicano Simón Levy e o ex-estrategista de Trump Steve Bannon disseram na véspera que tudo era uma ação de Marco Rubio, o radical secretário de Estado americano. Mesmo aliados de Flávio, como o sócio de seu irmão Eduardo Fábio Generoso, agradeceram Rubio pela "liberdade" concedida ao senador. Quando e se a novela acabar, com uma declaração pública do candidato derrotado após sua fuga, um enredo será apresentado. A única certeza é que a dúvida sobre sua veracidade permanecerá.
Entenda: Fuga de Fl�vio Bolsonaro vira guerra de vers�es
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