Entenda estrat�gia de secret�rio de Trump para mercado de US$ 32 trilh�es dos Treasuries

Entenda estrat�gia de secret�rio de Trump para mercado de US$ 32 trilh�es dos Treasuries

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, tem sido um importante ativo para Donald Trump, acalmando o mercado diante das turbulências provocadas pelas políticas do presidente americano. Agora, o ex-financista enfrenta seu teste mais difícil: conter investidores do mercado de US$ 32 trilhões (R$ 165 trilhões na cotação atual) dos Treasuries, que estão apreensivos com a possibilidade de a guerra no Irã elevar os gastos públicos e a inflação. A recente onda de vendas de títulos de longo prazo dos EUA não "reflete os fundamentos econômicos", disse Bessent à CNBC na quinta-feira (20). Ele atribuiu a turbulência à liquidez "muito ruim" do mercado. QUAL É A GRANDE APOSTA DE BESSENT? Seu principal objetivo é interromper a onda de vendas de títulos de longo prazo, como os Treasuries de 10 e 30 anos, que elevou os custos de financiamento do governo americano. Na quarta-feira (19), o Tesouro anunciou que iria "pelo menos" dobrar as compras de títulos públicos de prazo mais longo, de US$ 2 bilhões (R$ 10,3 bilhões) para pelo menos US$ 4 bilhões (R$ 20,6 bilhões). As buybacks (recompras) começam em 9 de setembro e ampliam programa criado para facilitar a negociação de títulos americanos antigos. Os rendimentos sobem quando os preços dos títulos caem, e o movimento provocou uma alta mais ampla das taxas de juros, que afetam desde títulos corporativos até hipotecas —poucos meses antes das eleições de meio de mandato de novembro. Bessent também sinalizou que poderá haver mais intervenções caso os US$ 4 bilhões (R$ 20,6 bilhões) não sejam suficientes. Segundo ele, o Tesouro dispõe de um "grande arsenal de ferramentas" para conter o mercado de títulos mais importante do mundo. Sua tentativa de se apresentar como o "principal vendedor de títulos" dos EUA o colocou frente a frente com os chamados "bond vigilantes" —investidores preocupados com a deterioração das contas públicas americanas, a inflação persistente e a onda de empréstimos de grandes empresas de tecnologia para financiar o boom da inteligência artificial. COMO O TESOURO VAI PAGAR POR ISSO? O arsenal do Tesouro, diferentemente do Fed (Federal Reserve), não dá a Bessent poderes potencialmente ilimitados para criar dinheiro. Ao contrário do Fed, o Tesouro não pode promover uma onda de compras de títulos de trilhões de dólares, conhecida como quantitative easing (flexibilização quantitativa), para alterar a curva de juros e manter baixos os custos de financiamento do governo. O Tesouro ainda não anunciou como pretende financiar as compras. A expectativa dos investidores é que o departamento compense as maiores recompras de títulos de longo prazo com a emissão de mais dívida de curto prazo, deixando-o exposto às oscilações das taxas de juros. A provável estratégia foi comparada à Operation Twist do Fed, em 2011. Na ocasião, o banco central americano usou recursos obtidos com a venda de títulos de curto prazo para comprar papéis de vencimento mais longo. A operação ajudou a reduzir os custos de financiamento de longo prazo, mas foi muito maior do que a intervenção de Bessent. O PLANO VAI FUNCIONAR? A reação inicial foi positiva: os Treasuries de prazo mais longo dispararam após o anúncio, afastando os custos de financiamento de 30 anos do maior nível em 19 anos atingido poucos dias antes. A alta, porém, perdeu força rapidamente. Na tarde de quinta-feira (20), boa parte da melhora havia sido anulada, e o rendimento do Treasury de 10 anos, referência para os custos de empréstimos de prazo mais longo na economia americana, havia voltado a subir. Participantes do mercado apontam vários fatores pressionando os custos de financiamento, entre eles o enorme déficit fiscal dos EUA, a concorrência por capital com empresas de inteligência artificial e os efeitos econômicos da guerra com o Irã. Charlie McElligott, da Nomura, classificou o plano de recompra, "por si só", como um "curativo para um ferimento à bala" e disse que ele "não será suficiente para aplacar as forças do mercado". Alguns analistas também questionaram a natureza abrupta da decisão, anunciada duas semanas depois da divulgação do plano trimestral de financiamento, o que teria prejudicado a credibilidade do Tesouro. "[Bessent] entende o problema. Mas entender o problema e ser capaz de fazer algo relevante a respeito são duas coisas diferentes", disse Jim Caron, diretor de investimentos da Morgan Stanley Investment Management. "O Tesouro simplesmente não consegue controlar os rendimentos de longo prazo." Bessent afirmou que "os rendimentos não refletem os fundamentos subjacentes", citando os efeitos da guerra com o Irã e a "liquidez muito ruim" no mercado de Treasuries de 30 anos. O Congressional Budget Office projeta que o déficit fiscal americano será equivalente a 5,8% do PIB neste ano, bem acima da meta de Bessent de chegar a 3% até 2028.BITCOIN, OURO E DÓLAR A intervenção de Bessent também repercutiu nos mercados de moedas e ativos considerados proteção contra a desvalorização do dólar. O bitcoin saltou quase 7% nesta sexta-feira (21) e acumula alta de 23% na semana, para cerca de US$ 77.380 (R$ 398 mil), seu maior nível desde maio. O ouro avançou 1,5% nesta sexta, para cerca de US$ 4.585 (R$ 23,6 mil) por onça-troy, e acumula alta superior a 13% em agosto, a caminho de seu maior ganho mensal desde 1999. O dólar caiu cerca de 1% contra uma cesta de moedas desde terça-feira (18), à medida que investidores preocupados com a inflação e a dívida americana de US$ 40 trilhões (R$ 206 trilhões) aumentaram suas apostas em ativos como bitcoin e ouro. "As intervenções de Bessent não fazem nada para lidar com as vulnerabilidades fundamentais", disse Matt King, estrategista macroeconômico e fundador da Satori Insights. "Não é de surpreender que o mercado esteja voltando para essas apostas." A debasement trade —compra de ativos contra a desvalorização de moedas— perdeu força no início da guerra, que elevou inflação, rendimentos curtos e o dólar. "Todo mundo gostava da tese da desvalorização —a guerra com o Irã jogou uma chave inglesa nisso, mas agora estamos de volta ao tema da desvalorização", disse um operador de commodities. A alta do bitcoin também provocou um short squeeze —alta que força investidores que apostavam na queda a comprar o ativo, ampliando a valorização—, à medida que investidores que apostavam na queda da criptomoeda encerraram suas posições. Reunião entre Trump, reguladores e empresas de criptomoedas foi vista como positiva em meio ao impasse sobre regras do setor. O Clarity Act, projeto de lei que busca estabelecer um marco regulatório para as criptomoedas, está parado no Senado. Enquanto isso, a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC na sigla em inglês) divulgou propostas próprias para regulamentar o setor. "É difícil não estar extremamente otimista tanto com o bitcoin quanto com as criptomoedas neste momento", disse Matt Hougan, diretor de investimentos da gestora de criptoativos Bitwise. Claire Jones , George Steer , Harriet Clarfelt , Nikou Asgari , Ramsay Hodgson e Madeleine Wright

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