Imagine que sua professora de matemática te pergunte "quanto é zero?". Parece fácil de responder, né? Zero é nada. Se eu tenho zero brinquedos, significa que eu não tenho nenhum brinquedo. Mas nem sempre essa resposta foi tão simples assim, porque houve uma época em que o número zero não existia. E aí as contas ficavam bem mais complicadas. Nosso cérebro é treinado para perceber coisas que existem, não a ausência delas. Por isso, é difícil de entender o que é o zero fora de uma conta. Além da matemática, o zero tem um quê filosófico. Ele representa a ausência, e carrega a ideia de algo invisível, que não está em um lugar. Ao mesmo tempo, ele é um nada que existe, uma fronteira entre existir e não existir. "O zero foi um dos últimos números que a humanidade descobriu", conta o matemático Marcelo Viana, diretor do Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada) e colunista da Folha. Parece estranho, já que o zero é o primeiro número da fila quando a gente aprende sobre os números: zero, um, dois, três... Mas a explicação faz sentido se você parar para pensar que, lá no início da humanidade, os números serviam para contar e medir coisas que existiam. Por isso, o zero não servia para nada, já que você não precisa contar quantas galinhas não existem no seu quintal. Se você não tem nenhuma galinha, simplesmente não conta. Conforme o tempo passou, um dos povos que vivia na Mesopotâmia, os babilônios, inventaram uma coisa chamada de sistema posicional. Eles tinham dificuldade para diferenciar alguns números porque, sem o zero, ninguém conseguia diferenciar 11 de 101 ou de 1001, porque os números um ficavam apenas com um espaço entre eles. Uma confusão. Então os babilônios começaram a desenhar um sinal especial para indicar um vazio entre os números, para ficar claro que o número 101 tinha uma centena, nenhuma dezena e uma unidade. O zero, que ainda não era esse redondinho que a gente conhece, servia para marcar uma posição entre os números. "Durante muitos séculos ele não era considerado um número, ele era só um símbolo para dizer: 'Olha, está faltando alguma coisa nessa posição'", diz Viana. Era um sinal que indicava o "nada". Demorou algum tempo até que alguém finalmente transformasse o zero em um número de verdade. Os indianos, entre os séculos cinco e seis, criaram uma palavra para esse vazio entre os números e um desenho de bolinha para indicá-lo e também poder fazer contas com ele. Foi um matemático indiano chamado Brahmagupta que, no século sete, escreveu pela primeira vez as regras oficiais para fazer contas com o zero, como somar, subtrair e multiplicar por ele —dividir é impossível. Daí em diante a ideia do zero se espalhou. Os árabes carregaram o conceito na mala durante suas viagens para a Europa. Por isso, os algarismos que usamos até hoje, do zero ao nove, são chamados de "indo-arábicos". Só que a Índia não foi o único lugar do planeta a inventar o zero. Do outro lado do mundo, sem nenhum contato com os indianos, a civilização maia, na América Central, criou seu próprio sistema de numeração, igualmente sofisticado, que também incluía um símbolo para o zero —era de um desenho que parecia uma concha. Infelizmente, quase todo o conhecimento maia foi destruído quando os espanhóis colonizaram as Américas. Até hoje, no entanto, os indianos e os maias são os únicos povos que os historiadores sabem terem chegado à ideia do zero por conta própria. Segundo a professora Deborah Raphael, do Instituto de Matemática e Estatística da USP, naquela época a Europa vivia bem atrasada cientificamente se comparada à Índia e ao mundo islâmico —o conhecimento matemático mais avançado vinha de lá. Quando o zero chegou à Europa medieval, lá para o século 16, as pessoas não aceitavam muito bem essa ideia e tinham medo dela. Eles achavam estranho ter um número que representava o nada. Mas como os indianos e árabes progrediram muito na ciência e no comércio usando um sistema de números mais moderno, que tinha o zero, os europeus acabaram copiando. O zero se tornou, então, um número de verdade e ganhou utilidades práticas. Ele serve para indicar o térreo de um prédio (andar zero) e separá-lo do subsolo onde fica a garagem. Ele também marca a temperatura em que a água congela, de 0°C, e permite o entendimento da gravidade, já que a gravidade zero é aquela em que os astronautas conseguem flutuar. Toda a ciência por trás dos computadores e celulares depende do zero para existir. Ele é muito importante e passou a ser o centro organizador de toda a matemática. Ele separa números positivos de negativos e possibilita outros conceitos muito complexos de matemática. "Tudo gira em torno do zero. O homem não teria ido à Lua sem o zero, pois ele é ingrediente fundamental da matemática e, sem ela, nenhuma ciência seria possível", diz Viana. "Com o zero você constrói todos os outros números e com os números você constrói o universo."
Entenda como surgiu o zero, o n�mero do invis�vel
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