Entenda a lacuna entre os dados sobre o desempenho dos alunos e a viol�ncia contra meninas na escola

Entenda a lacuna entre os dados sobre o desempenho dos alunos e a viol�ncia contra meninas na escola

Recentemente foi lançado o Ideb 2025, índice do INEP que combina desempenho em português e matemática nas provas do Saeb com a taxa de aprovação de cada escola. Nas três etapas avaliadas, o Brasil atingiu os maiores valores desde o início da série, em 2005. É um indicador relevante, mas deixa de fora dimensões que também definem a qualidade da educação. Queremos falar sobre as estudantes que estão por trás da média, pois, apesar de em alguns casos as notas serem maiores, meninas são as que mais sofrem violência na escola e isso tem um custo. As políticas de equidade que ganharam força na educação brasileira miram, sobretudo, o recorte racial e socioeconômico, pois são os grupos com menores resultados de aprendizagem. A desigualdade de gênero quase não entra nessa análise. Falar de equidade é falar de condições equitativas para aprender, e ainda precisamos entender como as violências de gênero afetam a aprendizagem e a vida escolar das meninas. Os microdados da PeNSE ajudam a preencher parte dessa lacuna. Em 2024, a proporção de meninas que relatam ter perdido a vontade de viver é o dobro da observada entre meninos (25% contra 12%), padrão que se repete na tristeza persistente (41% contra 17%). As meninas podem até tirar notas melhores, mas pagam um custo emocional alto, ligado a violência e estereótipos de gênero, que os indicadores de aprendizagem nunca vão mostrar. Se a qualidade da educação depende também das condições para aprender e permanecer na escola, é preciso perguntar o que fica invisível quando olhamos apenas para desempenho e aprovação. Inserir a perspectiva de gênero, somada à raça e ao nível socioeconômico, no debate da equidade pode contribuir fortemente para a qualidade da educação. Além dos indicadores de aprendizagem e fluxo escolar que já orientam o Ideb, são precisos indicadores que captem clima escolar e violência de gênero. Parte do caminho já existe. O Saeb e a PeNSE já perguntam a estudantes, professores e diretores sobre violência no dia a dia escolar. Falta dar a essa análise a mesma prioridade dos resultados de aprendizagem. Enquanto isso, o retrato mais completo do clima escolar segue represado em microdados que poucos abrem. Fica o convite ao ecossistema da educação brasileira para aprofundar o olhar sobre desigualdades de gênero na escola. Nada disso é um chamado para descartar o Ideb. A pergunta que fica é por que a agenda da educação ainda trata gênero como um recorte secundário, quando os próprios números sinalizam sua importância. A Lei Maria da Penha completou 20 anos em 2026, e vale lembrar que a prevenção à violência de gênero começa na escola, com clima saudável e equitativo, currículo e espaços de escuta para estudantes. Se em 2006 o Brasil decidiu que essa violência não podia mais ser silenciosa, o próximo passo é trazer essa discussão para dentro das escolas. O editor, Michael França, pede para que cada participante do espaço Políticas e Justiça da Folha de S. Paulo sugira uma música aos leitores. Nesse texto, a escolhida por Stefania Molina e Graziela Santos foi "O Trono do Estudar", de Dani Black. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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