O excesso no uso de telas em sala de aula, a diminuição da leitura por prazer e mudanças nas políticas de alfabetização podem estar por trás dos piores resultados dos países ricos na história do Pisa, de acordo com Catherine Snow, professora da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. "Ainda não é possível concluir se tablets e computadores desviam o foco da educação, ou se os programas educativos que usam esses dispositivos têm sido menos eficientes do que se esperava", afirma. Os resultados do teste divulgados no início de setembro mostram uma queda entre os países membros da OCDE em leitura, ciência e matemática. Brasil permaneceu estagnado em relação à edição anterior. A pesquisadora também comenta como disputas sobre a melhor forma de alfabetizar levaram a uma crise nos EUA —em 83% dos distritos, os estudantes performam pior em leitura do que há dez anos, de acordo com avaliação nacional— e comenta os riscos de políticas semelhantes que têm se espalhado pelo Brasil. "Há uma multiplicação de avaliações que medem quão rápido as crianças leem palavras. Um foco excessivo na velocidade pode atrapalhar a compreensão e afastar os estudantes da leitura", afirma. No Brasil, avaliações desse tipo são feitas em 25 das 27 unidades da federação, de acordo com o MEC (Ministério da Educação). No âmbito do programa Criança Alfabetizada, 27,5% dos estudantes brasileiros de 2º ano são avaliados. O MEC também disponibiliza avaliações de leitura e escrita, realizadas por 48,8% e 39,7% dos alunos dessa faixa etária, respectivamente. Além das avaliações sugeridas pelo ministério, que são opcionais, estados e municípios também têm autonomia para realizar outros testes em suas redes. Snow esteve em São Paulo em setembro para participar de encontro da rede ProLEER, que reúne educadores e especialistas da América Latina, dos EUA e dos Países Baixos, fundada por ela, e do Jeduca (Congresso Internacional de Jornalistas de Educação). Em entrevista por vídeo, ela também comenta o plano de Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, de adotar o método fônico como diretriz para a alfabetização. "Governantes e legisladores não são educadores e, portanto, não conhecem quais são as melhores práticas", afirma. O que pode estar por trás da queda de desempenho em leitura entre os países da OCDE? Eu tenho apenas algumas hipóteses. O primeiro indício que vemos é uma queda maior na performance em função do tempo de tela nas salas de aula. Muitos países da OCDE adotaram métodos de ensino digitais, fornecendo computadores e tablets aos alunos. As escolas também têm relatado —ainda não é uma base de dados enorme, mas já é suficiente para algumas inferências— que, quando conseguem banir os celulares das salas de aula, o desempenho melhora. Ainda falta explicar por que isso acontece: é simplesmente o tempo gasto fazendo coisas que não são da escola, porque as telas estão ali, ou existe algo menos eficaz no uso das telas, mesmo para fins educacionais? Outro aspecto, que já aparecia nos resultados anteriores do Pisa, é um indício de que os países onde as crianças se sentem mais engajadas com a leitura são os países com melhores notas de leitura. Cada vez menos alunos relatam ler livros por entretenimento ou por prazer, e acho que isso precisa ser uma parte importante a ser considerada ao avaliar esses resultados. Os EUA, em particular, têm vivido uma crise no ensino de leitura. Há alguma especificidade do país que pode influenciar outros países? Nos últimos anos, há uma tendência em se considerar que o sucesso na alfabetização se dá mais com a habilidade de ler palavras isoladamente do que com o engajamento com textos. Portanto, tem-se dado maior foco ao ensino da correspondência entre letras e sons. Isso tem consumido muito do tempo que poderia ser usado para experiências de leitura mais autênticas. Esse fenômeno vem da popularização do que tem sido chamado de "ciência da leitura", quase sempre entendida como o uso desse método fônico. Mas a verdade é que não há uma única ciência, mas um corpo grande de pesquisas sobre como as crianças aprendem a ler e a escrever. E o que esse corpo de pesquisas mostra é que a instrução sobre o código pode ser importante, assim como o contato com a leitura de forma autêntica. Não se trata de um outro, mas de fazer ambos: 20 minutos por dia aprendendo sobre letras e sons podem ser suficientes para a maior parte dos alunos; alguns precisarão de um pouco mais. Contudo, é preciso garantir que haja tempo nas aulas para ler histórias e discuti-las, ler textos sobre Ciências em voz alta, disponibilizar livros para as crianças lerem e deixar que elas interajam com esses materiais, e várias outras atividades que aproximem os estudantes dos objetivos da leitura no nosso mundo. Como essa ciência da leitura se relaciona com o que os especialistas americanos chamam de "guerras da leitura"? As guerras de leitura são um confronto de ideias particularmente intenso nos EUA, mas não se restringem a ele. O debate se dá entre duas posições: a primeira é a de que as crianças são capazes de aprender a ler de maneira espontânea, assim como aprendem a falar. Idiomas como o português e o espanhol têm um conjunto relativamente pequeno de regras sobre a relação entre letras e sons, o que torna essa aprendizagem mais fácil. A perspectiva contrária defende que é preciso enfatizar o ensino de todas as correspondências entre letras e sons, principalmente em idiomas como o inglês, em que há muitas regras diferentes sobre essas correspondências. O problema é que as duas posições estão corretas, mas se aplicam de maneira diferente de acordo com cada criança, com o contexto familiar dela e com os estágios do desenvolvimento infantil. Em famílias que possuem muitos livros, onde se lê com frequência, onde se colocam bilhetes na geladeira, ou se etiquetam os produtos da cozinha, por exemplo, as crianças conseguem desvendar muitas das regras da escrita sozinhas e precisam apenas de um empurrãozinho na escola. Muitas crianças chegam às escolas sem essa experiência e precisam passar a ter esse contato. São elas que, no início do ensino fundamental, também mais se beneficiam de instruções mais sistemáticas sobre o código da escrita. Mas isso não deve durar muito tempo: cerca de 20 minutos por dia durante alguns meses deveriam ser suficientes para a maioria dos alunos. O restante do tempo precisa ser usado para que eles desenvolvam o hábito de ler por prazer, por entretenimento e para aprender coisas novas. Você é fundadora da rede ProLEER, que reúne educadores de toda a América Latina. Como você tem visto esse movimento nessa região? No passado, algumas partes da América Latina, e o Brasil de forma muito intensa, focaram a perspectiva de que as crianças podem aprender a ler e a escrever de forma mais natural. A implementação dessa abordagem, entretanto, acabou fazendo com que a leitura se tornasse inacessível para muitos estudantes. Vemos que há um esforço para corrigir esse caminho, mas com frequência há também uma hipercorreção. Isso pode levar ao desperdício da capacidade das crianças, entediá-las e guiá-las para um caminho errado: ao focar demais ler palavras, deixamos de ensinar que a leitura é sobre se engajar com um texto e alcançar a compreensão dele. Quais são os sinais de que uma hipercorreção pode estar acontecendo? Antes de mais nada, vale destacar que o Brasil não acompanha os demais países do Pisa. Os resultados brasileiros, infelizmente, nunca foram bons, mas têm melhorado e, mais importante, não sofreram queda nos últimos anos. Então isso seria um experimento interessante: ver o que os professores brasileiros estão fazendo de certo, pelo menos para evitar a queda. Por outro lado, é preciso ver também quais são as políticas para alavancar a alfabetização atualmente, e a avaliação é uma delas. No Brasil, têm-se implementado avaliações que medem a quantidade de palavras que as crianças conseguem ler por minuto. Focar apenas essa forma de avaliação é um caminho perigoso. A fluência leitora não é uma medida péssima: é algo que se verifica de forma rápida e eficiente, traz resultados bastante confiáveis e há uma correlação entre a fluência e a compreensão. O risco está na forma como as avaliações podem influenciar as salas de aula: porque querem ir bem nos testes, as escolas tendem a focar no que é medido. Quando apenas se ensina as crianças a lerem com cada vez mais agilidade, a correlação com a compreensão deixa de existir e, na verdade, a velocidade passa a atrapalhar. Veja: todos nós lemos rápido quando estamos lendo sobre um assunto que conhecemos e dominamos, mas é normal desacelerarmos quando nos deparamos com algo que não entendemos. É um comportamento leitor normal e positivo, mas desencorajado quando se treina para esses testes. Outro fator é que a preparação para as avaliações também pode ocupar o tempo de outras atividades mais valiosas relacionadas à leitura. Nos EUA, pelo menos 43 estados aprovaram leis que determinam qual método deve ser usado em sala de aula. No Brasil, o governo de Jair Bolsonaro desenvolveu políticas que tornavam o método fônico a abordagem oficial. O plano de governo do candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL) promete retomar essa diretriz. Como você vê essa interferência política sobre o que acontece nas salas de alfabetização?Nos EUA, muitas das proibições ou imposições foram equivocadas, porque os governantes e legisladores não são educadores e, portanto, não conhecem quais são as melhores práticas. Mesmo quando a legislação promove abordagens com as quais eu concordo, ainda acredito que é perigoso torná-la obrigatória, principalmente em governos de perfil autoritário. Principalmente porque esse tipo de ação falha em providenciar os recursos de que escolas e professores precisam. Em países tão grandes como o Brasil e os EUA, o governo federal tem o papel de dizer aos governos locais e às escolas: se você precisa de novos materiais didáticos, nós compraremos; se as escolas precisam de mais recursos para fazer a formação docente, o governo irá financiar; se precisa de infraestrutura (por exemplo, ar-condicionado em um mundo em que há cada vez mais dias de calor extremo), nós providenciaremos. Ensinar as crianças a ler não é algo que pode ser alcançando com um único programa ou um único sistema: envolve compreender as trajetórias de desenvolvimento das crianças, compreender as diferenças entre os diferentes grupos de crianças, compreender o que é que desperta o interesse dela. Como resultado, a imposição de uma única maneira de agir —qualquer que ela seja— é arriscada. É impossível que uma essa definição pelo governo federal consiga considerar a realidade de cada escola, em cada região do país. O Brasil sempre teve um desafio em formar leitores. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil mostrou que, em 2024, apenas 27% das pessoas haviam lido um livro nos três meses antes da pesquisa. Como incentivar a leitura em um país tão grande? Há algumas ideias e projetos possíveis de se tentar, para além das escolas. A primeira coisa é construir a noção de que é importante que as crianças tenham acesso à leitura desde o nascimento. Há muitas evidências de que a distribuição de livros para famílias com crianças pequenas tem um papel relevante em despertar o interesse pela leitura e demonstrar às famílias que a leitura é importante. Nos EUA, há uma versão disso em que pediatras receitam uma leitura durante as consultas de rotina, aproveitando-se do prestígio que os médicos possuem para engajar as famílias, por exemplo. E para além da infância, como incentivar a leitura ao longo da vida? Depois de serem alfabetizadas, por volta do segundo ou terceiro ano, as crianças deveriam ser capazes de ler textos e identificar o que elas conseguem compreender deles. Com base nisso, elas estão prontas para novos desafios. É importante, ao longo da escola, desenvolver essas habilidades de ler em diferentes disciplinas e com diferentes objetivos, inclusive por prazer e por entretenimento. Se inicialmente elas liam palavras conhecidas, elas passam a aprender palavras novas ao encontrá-las em um texto, expandindo o vocabulário e também lendo sobre temas sobre os quais as pessoas não conversam muito, como ciência, história e sociedade. Passam a também criticar os textos, produzir respostas ou contrapontos. Jovens e também adultos precisam se engajar em leituras e conversar sobre o que leem. Uma iniciativa possível seria distribuir o mesmo livro para a população e incentivar que ele seja discutido na televisão, na internet e no rádio, de forma que as pessoas pensem: "Se eu não ler esse livro, vou estar deixando algo passar!" Raio-X | Catherine Snow, 80 Especialista no desenvolvimento da linguagem e da escrita em crianças, Catherine Snow é professora de cognição e educação na Universidade Harvard, nos EUA. É também fundadora e copresidenta da ProLEER, a Rede de Aprendizagem Profissional para o Avanço nas Reformas da Educação na Primeira Infância, que reúne pesquisadores e educadores da América Latina, dos EUA e dos Países Baixos.
Ensinar as crian�as a ler n�o � algo para um �nico programa ou sistema, afirma professora de Harvard
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