Enquanto a corrida eleitoral de 2026 ganha força com as convenções, a semana terminou com "Mendonça autoriza PF a investigar Lulinha por tráfico de influência". O mesmíssimo enunciado se repetiu na manchete impressa dos três grandes jornais de circulação nacional na sexta-feira (31). A coincidência soa absurda e não é nada boa, mas pode acontecer (os títulos nos sites eram menos iguais). O conjunto, porém, gerou burburinho nas redes, que se encarregaram de conferir o também nada bom sabor conspiratório à cobertura. Em outro tópico, a Folha noticiou no último dia 28 que o "Datafolha indica dificuldade persistente de Flávio Bolsonaro no eleitorado feminino". O "voto feminino", em mais de um sentido, se impôs como preocupação para o presidenciável do PL, é fato. Faltava o detalhe: no meio da "persistência", os números indicavam oscilação positiva da rejeição de Lula entre o eleitorado feminino. Não faria mal ter notado, até porque o jornal mesmo viu, em abril, que "Lula intensifica agenda voltada às mulheres para evitar perda de apoio feminino". E a aparente frivolidade com que os candidatos abordam o tema ainda carece de tratamento melhor. Já a corrida eleitoral de 1989 fez um inesperado retorno. Naquele ano, apesar da derrota para Collor, a campanha petista conseguiu deixar na memória nacional o jingle marcado pelo "Lula lá". O jogo de palavras deu origem a uma disputa de autoria que voltou ao Painel do Leitor no começo de julho, depois de uma aparição no jornal no ano de 2011. Na mensagem, Maurício Maia escreve ao jornal: "O slogan Lula lá é uma criação do publicitário Carlito Maia, embora o jornal insista em atribuí-la a outra pessoa (‘Lei Falcão, 50, marcou mordaça da propaganda eleitoral antes do desafio das redes sociais’, Política, 29/6). A 1ª menção ao slogan foi publicada pelo Jornal do Brasil em 7/12/1988, mais de quatro meses antes do encontro petista ocorrido em maio de 1989, no qual o sr. Paulo de Tarso Santos alega ter tido a ideia. Nota da Folha associando Carlito Maia ao slogan foi publicada em 16/4/1989. O jornal tinha ciência desses registros desde 2011." Maurício é filho de Carlito. Em 2011, a família de Carlito já questionara o jornal pela atribuição da autoria do slogan a Paulo de Tarso. A coluna Mônica Bergamo deu espaço às versões, e a família voltou a indagar: "Quando a Folha errou?". "A nota limitou-se a registrar a posição da família (...), bem como as informações de integrantes da equipe de Lula em 1989 que dizem que ela era de Paulo de Tarso", respondeu a colunista. A controvérsia voltou com as publicações do jornal sobre o lançamento do livro "Lula Lá e Outras Histórias", de Paulo de Tarso Santos, feitas em dezembro e fevereiro últimos. Em nenhum texto sobre a obra a Folha retoma a questão da autoria do slogan. Em 1989, porém, o jornal deu o crédito a Carlito Maia em três colunas (o Painel em abril e setembro e a coluna Joyce Pascowitch em novembro). Em 2002, o obituário de Carlito faz a mesma coisa. Em reportagem de 2003, ambos os publicitários apareciam, mas Carlito ficava com o "Lula lá": "Paulo de Tarso foi elogiado pelos petistas pela criação da Rede Povo, bem-humorado eixo da campanha televisiva de Lula em 1989, que dava suporte ao slogan ‘Lula lá’, criado pelo publicitário Carlito Maia." No final daquele ano, outra reportagem mencionava Carlito, assim como artigo de 2004. Em coluna de 2005, Paulo de Tarso surge como "um dos mentores do Lula-lá’ tão lembrado". Em coluna de 2008, volta só Carlito como autor (com 1988 como ano de criação). Já em 2010, o jornal atribuía a Paulo de Tarso o jingle "Lula lá" (uma parceria com Hilton Acioli) –mas também, em duas ocasiões, o slogan. Veio, então, o episódio de 2011, quando Paulo de Tarso afirmou: "Admito que o Carlito Maia possa ter tido essa ideia ao mesmo tempo que eu, mas isso nunca chegou a nós durante o desenvolvimento do trabalho". Em 2012, Carlito voltou a se creditado como autor do slogan numa nota sobre o julgamento do mensalão. Em 2015, houve mais duas atribuições da expressão a Carlito Maia. Do ponto de vista jornalístico, há problema no fato de a Folha ter mudado de versão mais de uma vez sem jamais explicar ao leitor se houve erro. Outro problema é falar do livro e da própria expressão sem tocar na controvérsia. Newsletter da Ombudsman Inscreva-se para receber no email a coluna que discute a produção e as coberturas da Folha "Decidi colocar o ‘Lula lá’ na capa porque eu queria deixar clara a minha posição", diz Paulo de Tarso, que reafirma a autoria, mas ainda considera que as ideias possam ter convergido. Maurício, filho de Carlito Maia, descarta a hipótese com base nas publicações de 1988 e 1989. No livro de Paulo de Tarso, ele conta ter tido a ideia num evento da campanha em maio de 1989, mas admite ser ruim de data. "A história eu não vou mudar. Espero que essa polêmica se encerre, porque não vou abrir mão da autoria de um trabalho meu", diz o publicitário. "É ofensivo. Sempre trabalhei muito, e ele me pinta como se eu fosse o Satanás." Maurício demanda correção do jornal e vê "uma luta desigual". "Slogan é slogan, jingle é jingle. Ele pode ser o coautor do jingle, não entro nesse mérito, mas o slogan ‘Lula lá’ é de Carlito Maia —o que o jornalista Otávio Sitônio Pinto publicou não era material publicitário." Há mais esse complicador. Em 2011, Ricardo Kotscho abordou o caso em seu blog, e foi lá que o também jornalista Sitônio Pinto, morto em 2022, deixou um comentário. Em 26 de novembro de 1988, ele publicou no jornal A União, da Paraíba, o artigo "Lula-Lá", que "sugeria ao PT um slogan para a campanha". Kotscho, assessor de Lula em 1989, reafirma a autoria de Carlito Maia, "com certeza". Frei Betto, outro nome histórico do PT, também diz estar convencido disso. O jornalista e colunista da Folha Mario Sergio Conti conta que falou com várias pessoas do PT para ter chegado à conclusão, no livro "Notícias do Planalto", lançado em novembro de 1999, de que Paulo de Tarso escrevera o "Lula lá" durante uma reunião e Carlito Maia também "chegou à expressão, sozinho, na mesma época". Para Conti, porém, "a genialidade está na música de Hilton Acioli". O compositor Hilton Acioli diz que ele e Paulo de Tarso começaram a falar sobre o tema no "final de janeiro para fevereiro" de 1989, quando já "contava para várias pessoas". "Anotei o ‘Lula lá’ por educação", conta ele, que diz não ter gostado da ideia logo de cara. "Mas aí, quando comecei a trabalhar com ele, ficou muito legal." "Ele [Paulo de Tarso] me passou a ideia. Não fui atrás de saber onde, quando ele fez. Quando mostrei a música para o Lula pela primeira vez, ele ligou para o Carlito. Falou com ele", diz Hilton. "Depois, na campanha, quando já estava na rua, o Carlito me disse, na única vez em que falou comigo: ‘Muito boa a música. Só pode ter sido feita por um petista apaixonado’. Falei que eu não era petista. E ele: 'Eu também não sou do PT, o PT é que é meu'", ri Hilton de uma das tiradas conhecidas do publicitário. Eugênio Bucci, jornalista e professor de comunicação da USP, atribui a criação a Carlito, de quem era amigo. "Eu não conheço a razão para o Paulo de Tarso dizer que a coisa foi dele. Pode ser que ele tenha razão, mas existem publicações anteriores falando do Carlito, parece uma evidência muito sólida", diz Bucci, para quem a mudança de versão no jornal também é problemática. Paulo de Tarso diz ter tomado conhecimento da atribuição de autoria a Carlito Maia na nota da Folha de setembro de 1989. "Fiquei muito chateado na época, mas o Carlito era uma lenda do petismo. Eu não tinha contato com os jornalistas como o Carlito tinha. Mas nunca imaginei que eu iria querer reivindicar para mim isso. E o talento estava em fazer [a expressão] virar publicidade, virar canção, estava na Rede Povo", diz Paulo de Tarso, que não aborda em seu livro a questão da autoria. "Eu não quis alimentar uma polêmica que eu acho totalmente falsa." José Américo Dias, que montou a campanha petista de 1989, diz ter 100% de certeza de que o crédito é de Paulo de Tarso: "Não podemos negar o fato". O livro "Trajetórias", publicado pela Fundação Perseu Abramo em 2000, também atribui a autoria a Paulo de Tarso, mas a entidade diz estar pesquisando a questão após demanda do filho de Carlito. "Carlito Maia recebeu a edição com autógrafo de Lula com data de 14 de fevereiro de 2000. Já afásico e acamado, meu pai não tinha condições de avaliar a publicação. Ele morreu em julho de 2002. Espero que não seja necessário provar que os danos neurológicos que ele sofria o incapacitavam de vir a público discutir essa questão", diz Maurício Maia. "Há uma controvérsia sobre o assunto. Nos parece ser uma criação artística, o que nos remeteria para a criatividade do Carlito Maia. Mas não há como cravar a autoria individual. Estamos pesquisando ainda", afirma Alberto Cantalice, diretor da Fundação Perseu Abramo e membro da direção do PT. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Enroscos da corrida eleitoral e as voltas que o 'Lula l�' d�
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