Enquanto discutimos o ChatGPT, o futuro j� mudou de assunto

Enquanto discutimos o ChatGPT, o futuro j� mudou de assunto

Levei semanas para terminar "A Singularidade Está Mais Próxima", do futurista Ray Kurzweil. Não pela dificuldade do texto, mas porque cada capítulo me obrigava a fechar o livro e parar para pensar, muitas vezes tarde da noite, num assunto que eu não esperava carregar comigo por tanto tempo. Kurzweil defende, com segurança, que até 2029 a inteligência artificial vai igualar a humana em praticamente qualquer tarefa cognitiva. Até 2045, chegaremos à singularidade, quando a fusão entre biologia e tecnologia vira rotina. A previsão não nasceu agora; ele a faz desde os anos 1990, e acertou datas suficientes para que cientistas que riam dele há 30 anos passassem a levá-lo a sério. Essa discussão não é exclusiva do Vale do Silício. No mundo dos negócios chinês, a conversa já mudou de figura. Não se discute mais se a inteligência artificial vai igualar a humana, só quando. Em textos do Oriente Médio sobre o mesmo livro, a imagem de quem lê Kurzweil é quase idêntica à minha, alguém com um olho brilhando de curiosidade e o outro tremendo de apreensão. Quanto mais avanço na leitura, mais me convenço de que a inteligência artificial de hoje talvez seja a parte menos radical dessa história. O verdadeiro salto vem depois, quando ela deixa de ser algo que consultamos numa tela e passa a se integrar ao corpo e à mente, nanorrobôs na corrente sanguínea, córtex conectado à nuvem, memória ampliada por dentro. É esse capítulo —mais do que o do chatbot que escreve email— que me tira o sono, me preocupa e me empolga na mesma medida. No Brasil, a discussão ainda gira em torno de regras de sala de aula e políticas internas de empresa. A questão é se pode ou não usar ChatGPT. Debate legítimo, mas, diante da escala da discussão proposta por Kurzweil, soa como conversa sobre a cor da parede enquanto alguém, do outro lado do mundo, discute a planta do prédio inteiro. Se Kurzweil estiver certo, ou só perto de certo, a pergunta deixa de ser qual ferramenta usar essa semana e passa a ser o que resta de humano quando a inteligência parar de nos distinguir das máquinas. Não tenho resposta pronta e talvez seja por isso que ela me assusta e me anima quase na mesma proporção. Talvez a resposta esteja menos em pensar sozinho e mais em agir junto, decidir em grupo o que vale a pena começar diante dos outros. Uma máquina pode, um dia, pensar mais rápido que qualquer um de nós. Escolher para onde apontar essa inteligência ainda é só nosso, e sobram poucos anos para decidir o que fazer com ela. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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