Mais de 300 pessoas de diferentes regiões do Brasil e de outros países estiveram na última semana de setembro em Angicos, pequena cidade do sertão potiguar. Durante três dias, educadores, pesquisadores, estudantes e representantes de movimentos sociais se reuniram no seminário anual do Memorial Paulo Freire, da Ufersa (Universidade Federal Rural do Semi-Árido), com o tema "Educação que Une, Cultura que Transforma e Esperança que Floresce". Mais do que um encontro de memória, foi uma oportunidade para recolocar no centro do debate uma pergunta muito atual: que educação precisamos construir para que as pessoas se reconheçam como sujeitos capazes de transformar a realidade em que vivem? Essa questão esteve presente no cortejo que tomou conta da cidade, na encenação feita pelos estudantes da escola estadual, na abertura da exposição, no lançamento dos livros, nas oficinas e rodas de conversa entre pesquisadores e pessoas que foram alunas de Paulo Freire na histórica experiência de 1963. Naquele ano, em Angicos (RN), Paulo Freire e um grupo de estudantes universitários protagonizaram um dos momentos mais marcantes da educação brasileira. O país tinha então 16 milhões de pessoas analfabetas com 15 anos ou mais —39,7% dessa população, segundo o IBGE, impedidos de votar pela legislação da época. Campanhas de alfabetização se multiplicavam, mas predominavam métodos baseados na repetição e na transmissão de conteúdos, com pouca eficácia. Freire vinha desenvolvendo, em Recife, uma experiência diferente. Nos círculos de cultura, educação e cultura ocupavam os espaços públicos e partiam das palavras, experiências e formas de expressão das chamadas classes populares. Em Angicos, Freire e os estudantes universitários estabeleceram uma relação direta com os trabalhadores e construíram com eles um processo de aprendizagem baseado no diálogo e na reflexão compartilhada sobre a realidade local. Em cerca de 40 horas, 300 trabalhadores aprenderam a ler e escrever o suficiente para tirarem o título de eleitor. Mas, tão importante quanto, estudantes e trabalhadores descobriram, juntos, que o conhecimento não é apenas instrumento de adaptação ao mundo. Pode ser também instrumento para transformá-lo. Foi esse espírito que o seminário da Ufersa buscou recuperar. Angicos voltou a ser um território vivo de memória, cultura e esperança. O encontro é resultado de um trabalho contínuo que o Memorial Paulo Freire vem construindo sob coordenação de professores e por um grupo de cerca de 30 estudantes. Entre eles estão netos de participantes da experiência de 1963, testemunhas do intenso processo de escolarização por que passou o país nestas últimas décadas. No entanto, ainda hoje 8,4 milhões de pessoas com 15 anos ou mais são analfabetas, segundo o IBGE. Permanecem os desafios da evasão escolar, das desigualdades educacionais e da construção de aprendizagens que façam sentido para os estudantes. Paulo Freire é patrono da educação brasileira, mas sua concepção de educação nunca chegou a orientar de forma consistente as políticas nacionais. A expansão da escolarização não significou necessariamente uma pedagogia baseada em diálogo, participação, autonomia e na relação entre conhecimento e realidade. O encontro em Angicos mostrou que essas ideias continuam vivas e contêm possivelmente as chaves necessárias para reinventar a educação brasileira, superando esses desafios. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Encontro em Angicos (RN) resgata Paulo Freire e coloca educa��o transformadora no centro
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