Empresas brasileiras parecem ainda n�o se incomodar com custo ambiental dos data centers

Empresas brasileiras parecem ainda n�o se incomodar com custo ambiental dos data centers

Estatísticas sobre a adoção da inteligência artificial pelo mundo corporativo proliferam. Há as de produtividade, as de destruição ou de criação de postos de trabalho, as de velocidade de transformação organizacional (ou do fracasso dessa transformação). Pouco se sabe, contudo, dos custos sociais e ambientais dessa aplicação. Dados aceitos internacionalmente indicam que data centers, que concentram a estrutura principal para suporte e desenvolvimento de IA, utilizaram 1,5% do consumo global de eletricidade em 2024. A projeção para 2030 é de que a participação suba para 3%. Talvez esses custos, ou ao menos sua métrica, ainda não sejam perfeitamente conhecidos. O Brasil vive um cenário em nada parecido àquele dos Estados Unidos, onde demonizar data centers virou estratégia de sobrevivência política. Mais até do que reação ao acúmulo de poder e de grana por parte das big techs e de seus controladores bilionários, o que pega para os eleitores é o aumento da conta de luz, o estresse hídrico que a demanda de água para a refrigeração das máquinas pode ocasionar e até discussões sobre direitos dos povos originários e sobre bem-estar animal. No Brasil, diferentemente, data center é "zap", carta forte no baralho dos líderes políticos por ser infraestrutura para o desenvolvimento de uma IA nacional, possível vetor de geração de empregos, insumo incontornável da tão propalada soberania. Na campanha presidencial de 2026, os protagonistas Lula e Flávio Bolsonaro incluíram em seus programas algum fomento à edificação de data centers, mas acoplando a eles uma das nossas vantagens competitivas, a matriz energética limpa. O presidente Lula falou em "salvaguardas ambientais", enquanto Flávio pensou o Brasil como "polo global de data centers sustentáveis". Um projeto de lei que cria incentivos fiscais para a instalação de uma série de data centers no Brasil foi finalmente aprovado no Senado em 1º de setembro de 2026, quase um ano depois de ter sido criado, então como medida provisória, e depois de tramitar já como PL em regime de urgência na Câmara. O tempo perdido no Senado não inibiu que cidades como Fortaleza, Campinas e Rio de Janeiro anunciassem planos grandiosos para tornarem-se polos e concorressem pela primazia dos investimentos em data centers. Que não são nada desprezíveis. A revista The Economist informa que eles podem bater em US$ 3 trilhões no mundo até 2030, enquanto a consultoria McKinsey menciona o valor de US$ 5,2 trilhões até o mesmo ano. Empresas que se destacaram nesta edição da Top of Mind falaram à Folha sobre as aplicações de IA em seus negócios e, eventualmente, sobre seu impacto. Claudia Meira, CIO das operações brasileira e latino-americana da transnacional Unilever, que tem marcas campeãs no Top Higiene e Beleza e no Top Alimentação, diz que as metas globais de descarbonização da corporação não mudaram com o advento da IA —a ambição é zerar as emissões operacionais (diretas) até 2030 e de toda a cadeia até 2039. "A IA é aplicada de forma estratégica para aumentar a eficiência operacional e otimizar o uso de recursos em nossas fábricas, contribuindo diretamente para a redução de desperdícios de embalagens, matérias-primas e energia." A executiva ainda menciona um protocolo de governança, o Responsible AI, criado para que as iniciativas de negócios nas várias operações pelo mundo não conflitem com as metas de sustentabilidade e possam ser escaladas, "evitando a duplicação de esforços, reduzindo custos e acelerando a captura de benefícios em toda a organização". Julio Cesar Baião, diretor de tecnologia da Ypê, presente nesta Folha Top of Mind, diz que a adoção da IA pela empresa é pensada para "reduzir etapas manuais, dar velocidade à análise de informações, apoiar a operação e melhorar a experiência de clientes e consumidores". "A visão da Ypê é de que a IA deve potencializar o trabalho das pessoas, automatizando tarefas repetitivas e apoiando análises, sem substituir atributos humanos como empatia, escuta ativa, negociação e compreensão de contextos complexos", ele explica. Profissionais de um centro de distribuição impactados pela automação, segundo a empresa, foram realocados e capacitados para novas funções, algumas relacionadas à tecnologia. A marca preferiu não informar sobre o consumo energético de suas soluções de IA, por considerar informação estratégica e por tampouco ter atribuído a essa agenda monitoramento "mais estruturado". A consultora de sustentabilidade Regina Magalhães, da Plural Inovação, com passagens pela Schneider e Microsoft, não vê as empresas brasileiras, de modo geral, mensurarem o custo ambiental do uso de ferramentas de IA, e crê que isso se deve à pequena relevância dessa fonte no quadro geral de consumo de energia. Em entrevista à Folha e também em texto próprio no site especializado Capital Reset, ela defendeu que o uso de IAs pelas empresas é um caminho para "gerar reduções de energia e água muito superiores ao que [elas] consomem em sua operação". "O saldo tende a ser positivo quando a tecnologia é orientada, desde o projeto, para promover sustentabilidade." Regina enviou um estudo à reportagem que informa que, das 100 maiores empresas brasileiras, 62 têm ao menos um projeto de IA para sustentabilidade. A indústria de transformação, sozinha, colabora com 43% desse número. Missão importante das aplicações de IA na Nestlé, destaque no Top Alimentação da pesquisa Datafolha, é aumentar a eficiência de processos industriais. Jefferson Meneghel, gerente de energia e serviços industriais da Nestlé Brasil, diz que a ferramenta ajuda na redução de desperdícios nos processos de produção, por exemplo, do leite Ninho e do Nescafé. Jefferson informa também que não foi necessário contratar energia elétrica adicional especificamente para as aplicações de inteligência artificial. "Seguimos com o plano de expansão das nossas operações no Brasil com a curva de consumo planejada." O plano global de descarbonização da empresa não foi mudado. Ele estabelece redução de 50% das emissões de CO2 em 2030 e 100% em 2050 (tendo como base 2018). "Já alcançamos a [iniciativa] RE100 ao utilizar 100% de eletricidade renovável em nossas operações ao redor do mundo. No Brasil, a meta foi alcançada em 2017." Dona da marca Friboi, que pela sétima vez foi a vencedora do Top Carne na pesquisa realizada neste ano pelo Datafolha, a JBS utiliza IA em "diferentes frentes de negócio", como diz Daniela Perez, gerente executiva de marketing da empresa. "Principalmente como ferramenta para ampliar a capacidade de análise de dados, tornar decisões mais ágeis e melhorar a experiência de clientes e consumidores." Para os próximos anos, a companhia pretende ampliar o uso de agentes de IA integrados às rotinas das equipes, "sobretudo em atividades comerciais, atendimento, análise de dados e suporte à tomada de decisão". Segundo Daniela, serão implementadas, por exemplo, "soluções para apoiar vendedores diretamente em suas interações com clientes por meio do WhatsApp", liberando-os para atividades de "maior valor agregado". Já para os processos industriais, Daniela afirma que a empresa vislumbra "ganhos relacionados à seleção e à padronização da produção, sempre buscando por maior qualidade das análises e informações geradas". Recente revisão das metas de sustentabilidade da JBS global não levou em conta a adoção da IA. Para emissões de gases do efeito estufa, a meta de curto prazo (até 2030, com base em 2019) é reduzi-las em 30%; para água, diminuir 15% de seu uso; para energia, atingir 60% de matriz renovável em 2030. A Ambev, que tem a Brahma como campeã do Top Cerveja, serve-se de uma plataforma interna de IA, a "AI Builder", para "simplificar o desenvolvimento, publicação e operação de soluções baseadas em IA generativa no ecossistema corporativo". O letramento em IA atingiu 100% dos postos de liderança, afirma a empresa em nota. Sobre a agenda de descarbonização, a Ambev diz ter atingido a meta de utilizar 100% de eletricidade renovável nos processos e que se concentra no chamado "escopo 3", responsável por cerca de 90% das emissões, que abrange, entre outros, a cadeia de fornecedores. "Esse trabalho combina o engajamento direto de fornecedores em práticas de baixo carbono com o uso de inteligência artificial para otimização de processos e apoio à tomada de decisões. Além disso, a empresa incorporou novas frentes de eficiência energética e inovação, como o uso de biogás, biomassa e o aproveitamento de resíduos." A companhia diz ter investido R$ 10 bilhões em inovação nos últimos três anos e vê como próximo passo a consolidação de uma plataforma preditiva cujo mote é "do campo ao copo". A ideia é integrar "inteligência de dados de forma invisível para antecipar hábitos, ocasiões de consumo e necessidades do ecossistema em tempo real".

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