Nos últimos dias, vi empresários e profissionais dizendo nas redes sociais que pretendem demitir quem votou diferente, interromper projetos ou deixar de ajudar pessoas por frustração com o resultado das urnas. Eu penso exatamente o contrário. Empresa não é extensão de palanque, e liderança não pode transformar divergência política em critério para decidir quem merece trabalhar. Nunca perguntei aos meus colaboradores em quem votaram. Também não acredito que precisem me contar. O voto é individual, secreto e pertence a cada pessoa. Dentro da empresa, o que espero é responsabilidade, respeito, entrega e compromisso com o trabalho. Essa discussão não é pequena. O Ministério Público do Trabalho informou que recebeu 2.250 denúncias de assédio eleitoral em 2026, até 27 de outubro. Entre as situações relatadas estão ameaças de demissão, constrangimentos e represálias relacionadas ao voto ou à preferência política. Quando uma relação de poder entra na urna junto com o trabalhador, alguma coisa saiu do lugar. Sou empresária e tenho minhas convicções. Elas não desaparecem quando entro na empresa. O que muda é a responsabilidade que tenho diante de quem trabalha comigo. Posso discordar profundamente de uma escolha política e, ainda assim, reconhecer um bom profissional. Se uma pessoa cumpre suas responsabilidades, respeita a equipe e entrega resultado, por que eu usaria o voto dela como medida de competência? Também não faz sentido abandonar projetos sociais ou compromissos porque uma eleição terminou de um jeito diferente do que alguém desejava. Quem recebe uma oportunidade, uma formação ou um atendimento não pode virar instrumento de retaliação política. Responsabilidade social só é responsabilidade quando continua existindo, mesmo quando o ambiente deixa de ser confortável. Minha trajetória empresarial também me ensina outra coisa. Governo influencia juros, impostos, regras, crédito e ambiente de negócios. Tudo isso importa e precisa ser acompanhado. Ainda assim, nenhum governo substitui gestão, trabalho, decisão e capacidade de adaptação. Empreendedor que condiciona toda a própria disposição de produzir ao resultado de uma eleição entrega a terceiros um poder que deveria continuar em suas mãos. Frustração política existe. Discordância também. Democracia pressupõe justamente que milhões de pessoas façam escolhas diferentes das nossas. Depois da urna, a empresa continua abrindo no dia seguinte. Clientes continuam chegando. Salários precisam ser pagos. Projetos precisam continuar. Liderar significa saber separar aquilo que é convicção pessoal da responsabilidade que assumimos quando outras pessoas dependem das nossas decisões. Não quero saber em quem meu colaborador votou. Quero saber se ele faz bem o trabalho para o qual foi contratado. Essa diferença parece simples, mas diz muito sobre o tipo de empresa que escolhemos construir. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Empresa n�o � lugar para punir voto
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