Empreendimento de luxo na Mal�sia vira lar para n�mades da tecnologia e golpistas

Empreendimento de luxo na Mal�sia vira lar para n�mades da tecnologia e golpistas

O Forest City da Malásia é apresentado como um empreendimento de luxo com moradias e opções de lazer. No entanto, quando a polícia recentemente invadiu uma torre do arborizado complexo, não foram encontrados moradores abastados, e sim uma suposta organização criminosa composta por centenas de chineses. "Foi uma operação muito maior do que esperávamos", disse uma pessoa envolvida na operação que aconteceu em 15 de julho. "Levamos dois dias para preencher a papelada." A operação ecoou recentes desmantelamentos de esquemas de corrupção em prédios degradados em áreas mais pobres do sudeste asiático. Foi mais um golpe à reputação do Forest City, empreendimento financiado pela China, copropriedade do rei da Malásia, promovido na capital Kuala Lumpur e pelo governo do estado de Johor. O projeto de US$ 100 bilhões a apenas um quilômetro e meio de Singapura atraiu manchetes internacionais ainda mais negativas uma semana depois, quando o fechamento da Network School, comunidade de moradia compartilhada fundada nos Estados Unidos, pelas autoridades locais, provocou indignação em Washington. São más notícias para o projeto da ilha artificial, promovida como um "paraíso dos sonhos" quando foi lançada em 2014. "Esta é uma ilha amaldiçoada", disse um funcionário americano da área de tecnologia enquanto caminhava pelas ruas vazias do complexo na semana passada. Concebida para ser um farol da Iniciativa Cinturão e Rota, a cidade exibiria o poderio econômico da China e projetaria sua influência. O plano era construir uma cidade reluzente com 700 mil habitantes. Mas a dificuldade em atrair moradores e a crise imobiliária chinesa deixaram pouco para mostrar além de uma cidade fantasma de arranha-céus pouco povoada. Forest City é uma joint venture entre a incorporadora imobiliária chinesa Country Garden e a Esplanade Danga 88, empresa privada controlada pelo sultão Ibrahim Iskandar, o governante de Johor e rei da Malásia sob o regime de monarquia rotativa de cinco anos do país. O empreendimento foi projetado como fileiras de arranha-céus densamente agrupados ao lado de um hotel de luxo, com lojas e restaurantes ao longo de 4 km de costa. Plantações de palmeiras nas proximidades também incluem um resort de golfe de primeira linha. Os apartamentos foram inicialmente comercializados para cidadãos chineses como investimentos e como residências para aposentados e famílias jovens que desejassem se mudar para a região. Os preços começavam em 780 mil yuans (R$ 591 mil) para um apartamento de dois quartos. Para alguns, provou ser uma boa escolha. Maggie Gao chegou em 2019 com o marido e o filho, vinda de Pequim. Recentemente, ela deixou o emprego remoto em uma empresa de tecnologia chinesa para abrir uma cafeteria à beira-mar. "O ritmo de vida aqui é muito mais lento do que nas cidades chinesas", disse Gao. "Tudo é bem conservado. Gostamos daqui e estamos felizes em ficar." Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. Mas ela disse que muitos vizinhos que também se mudaram da China acabaram voltando durante a pandemia de Covid-19 e não conseguiram vender seus imóveis. Aqueles que não conseguiram manter os pagamentos da hipoteca tiveram seus apartamentos tomados. Com a China ainda mergulhada em uma crise imobiliária, a incorporadora Country Garden, sobrecarregada por dívidas, não conseguiu priorizar seu maior projeto no exterior. O projeto original previa um complexo abrangendo quatro ilhas, mas nem mesmo a primeira delas foi concluída. Nos últimos anos, os governos da Malásia e de Johor têm procurado incentivar as empresas a instalarem-se na região, destacando a sua conectividade digital e oferecendo aos trabalhadores estrangeiros residência acelerada e baixas taxas de impostos. Forest City foi anunciada como um centro para escritórios familiares e empresas de tecnologia financeira, como parte de uma zona econômica especial que liga Johor e Singapura, lançada no ano passado. Mas esses incentivos e facilidades parecem ter atraído recém-chegados indesejados. A polícia de Johor informou que operações realizadas no mês passado contra duas empresas que aplicavam golpes resultaram na prisão de 335 pessoas. Uma delas funcionava em 27 apartamentos distribuídos em cinco andares de uma torre residencial em Forest City; a outra, em cinco casas térreas. As vítimas eram 309 cidadãos chineses, 19 indonésios, quatro cidadãos de Myanmar e três malaios. As operações envolviam supostos golpes de investimento, criptomoedas e relacionamentos amorosos. Essas atividades são delicadas para a vizinha Singapura, cujos cidadãos são particularmente vulneráveis a golpes. Na torre residencial, a polícia descobriu uma loja exclusiva que vendia macarrão instantâneo para os funcionários, que haviam sido instruídos a não sair do prédio, segundo a pessoa envolvida na operação. Também foram encontrados aparelhos de ar-condicionado desconectados e móveis novos. "Parecia que eles estavam em atividade há menos de um mês", disse a pessoa, acrescentando que os envolvidos provavelmente eram criminosos que fugiram de áreas fechadas pela polícia em outras partes do sudeste asiático. "Isso é apenas um efeito colateral." A Country Garden, a Esplanade Danga 88 e o governo de Johor não responderam aos pedidos de comentários. A polícia de Johor recusou comentários além das declarações públicas já emitidas sobre as operações. Não há qualquer indício de crime organizado na agora extinta Network School, comunidade de moradia compartilhada fundada em Forest City pelo empreendedor de tecnologia americano Balaji Srinivasan. Srinivasan, ex-diretor de tecnologia da corretora de criptomoedas Coinbase, lançou a Network School em 2024 com a intenção de criar uma "comunidade pioneira de tecno-otimistas". Centenas de nômades digitais de todo o mundo se mudaram para o empreendimento, atraídos pela oferta de acomodação, refeições e espaço de trabalho —além de benefícios como workshops de programação, aulas de idiomas e programas de bem-estar— em pacotes a partir de US$ 1.500 por mês. No entanto, a comunidade desmoronou no mês passado, após alegações online de que cidadãos israelenses estavam entre seus membros. A Malásia, que mantém laços estreitos com a Palestina, não reconhece Israel e não permite a entrada de portadores de passaporte israelense no país sem autorização especial. As autoridades da Malásia investigaram a Network School e, posteriormente, ordenaram o encerramento das suas atividades, alegando irregularidades na licença em vez de problemas de imigração. No entanto, as declarações do primeiro-ministro Anwar Ibrahim, de que quaisquer israelitas encontrados no local seriam deportados, levaram o Departamento de Estado dos EUA a convocar o embaixador da Malásia e a manifestar a sua indignação por parte de membros do Congresso americano. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. Srinivasan —que negou que membros da Network School tenham violado as regras de imigração— anunciou que a organização abrirá um novo centro no Cazaquistão. Na semana passada, a sinalização da Network School no Marina Hotel de Forest City, o ponto de encontro da comunidade, foi removida às pressas e a cafeteria do saguão que levava o nome da escola foi renomeada. Embora a maioria dos membros da Network School já tivesse ido embora, vários ainda estavam rondando o saguão e a academia do hotel. Um trabalhador venezuelano da área de tecnologia disse que havia chegado a Forest City duas semanas antes para conhecer a comunidade. "É uma grande pena o que aconteceu, mas isso não me desanimou", disse ele. "Com certeza consideraria abrir um negócio aqui. As instalações são ótimas e o local é muito tranquilo —um bom ambiente para trabalhar."

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