Depois que uma empresa dá certo, fica fácil contar sua história como se tudo tivesse sido planejado. É uma tentação. No meu caso, seria mentira. Voltei para a casa dos meus pais com uma filha pequena e cerca de R$ 90 mil em dívidas. Recomecei trabalhando com sobrancelhas. Antes de pensar em construir um grupo empresarial, precisava pagar contas. Havia mais urgência do que certeza. Sei o que significa tomar decisões com pouca margem para o erro. Por isso me incomoda a facilidade com que se recomenda fracassar. Para quem tem reservas, uma tentativa malsucedida pode ser experiência. Para quem depende do próximo recebimento, pode ser o fim do negócio. Aprender a empreender exige aprender a errar do jeito certo: rápido, pequeno e com controle. Isso começa antes de investir. Quanto posso comprometer nessa ideia? O que preciso descobrir? Em que momento vou parar se ela não funcionar? As respostas precisam existir antes que o entusiasmo decida sozinho. Um teste sem limite pode virar uma aposta que consome tudo o que já foi construído. No setor da beleza, uma nova forma de vender pode ser testada com um orçamento limitado, por um período definido. É possível ouvir clientes, medir a procura, calcular a margem e corrigir a oferta antes de expandir. O aprendizado precisa aparecer na decisão seguinte. Chamar todo prejuízo de lição é uma maneira elegante de evitar a pergunta sobre o que, de fato, mudou. Também é preciso que alguém consiga dizer ao fundador que a ideia dele não funciona. A obstinação que ajuda a abrir uma empresa pode atrapalhar na hora de corrigir seu rumo. Persistir no negócio exige, às vezes, desistir de uma decisão. Quando discordar do dono se torna perigoso, o erro costuma ganhar tempo para crescer. C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisões O Brasil torna essa conversa mais necessária. Temos um mercado consumidor amplo, gente criativa e necessidades esperando soluções. Vejo no setor da beleza quanto espaço existe para transformar uma habilidade em renda. Ao mesmo tempo, incertezas políticas e econômicas afetam o crédito, o consumo e o planejamento. Uma mudança de cenário pode encurtar a margem de uma empresa que já operava no limite. Essa combinação pede iniciativa e gestão na mesma mesa. Foi o que me atraiu no C-Level: compartilhar este espaço com Renata Vichi, Flávio Augusto e Sergio Zimerman, em diálogo com executivos e especialistas em economia, tecnologia e negócios. Vejo valor nessa troca porque a disposição para criar precisa conversar com a capacidade de medir, organizar e rever. Empreendedores e executivos têm muito a aprender uns com os outros. Na passagem do atendimento à gestão, precisei estudar e aprender a ouvir. Crescer amplia o alcance de uma ideia e também o custo de uma decisão equivocada. O que parecia depender apenas de mim passou a envolver o trabalho de outras pessoas. Essa responsabilidade pede espaço para testar, mas exige limites que protejam a continuidade da empresa. Quero trazer a esta coluna a conversa que as histórias de sucesso muitas vezes deixam de fora. Como decidir sem ter todas as respostas e como reconhecer, a tempo, que uma escolha precisa mudar. Empreender é aceitar que algumas ideias vão dar errado e trabalhar para que a empresa sobreviva a elas. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Empreender � errar do jeito certo
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