De um lado, uma estrutura disforme em espuma espandida pintada com tinta automotiva se ergue sobre o chão. De outro, obras de cerâmica com esmalte sintético misturam partes de corpo com formas que lembram o magma de um vulcão em erupção. Em "Mecanosfera", na Galeria Claraboia, em São Paulo, Emer Freire e Bárbara Banida colocam em contato matérias díspares, entre o industrial e o orgânico, o corpo e aquilo que escapa à forma humana. O início do diálogo entre os dois artistas se deu no 39º Panorama da Arte Brasileira, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, com curadoria de Diane Lima. Na mostra, os trabalhos de Bárbara Banida e Emer Freire foram aproximados tanto pela disposição no espaço quanto pelo interesse em tensionar as fronteiras entre o humano e o ambiente. Enquanto Banida apresentava esculturas de mulheres em transformação, que assumiam formas de corais, Freire combinava materiais industriais, orgânicos e sintéticos em estruturas que sugeriam organismos e sistemas em funcionamento. Já em "Mecanosfera", com curadoria de Lucas Dilacerda, a produção de ambos artistas adquire novos desdobramentos. A começar pelo título, que faz referência à mecanosfera, ideia associada aos filósofos Gilles Deleuze e Félix Guattari para pensar as relações entre máquinas, seres vivos e outros elementos que compõem o mundo. A ideia se relaciona ao conceito de agenciamento, em que elementos de naturezas distintas se conectam e, juntos, produzem algo novo. Na mostra, esse princípio orienta não só a combinação de materiais nas obras, mas também a relação entre elas, a arquitetura e a iluminação, que interferem na percepção do conjunto. Na produção de Freire, objetos e materiais que já tiveram funções específicas são retirados de seus contextos originais e combinados em novas configurações. Tubos de acrílico, estruturas de varas de pesca e peças provenientes de processos industriais passam a integrar composições que colocam em relação o tecnológico e o orgânico. Para ele, suas obras não são objetos isolados, mas sistemas de relações que se transformam conforme os elementos que os compõem e o ambiente em que estão inseridos. Por isso, o trabalho depende tanto das partes reunidas quanto das relações que estabelecem entre si. "Hoje eu me vejo mais como um organizador de sistemas do que escultor", diz. A série "Rituais de Acoplamento", por exemplo, parte de peças de aço-carbono cortadas a partir de um mesmo desenho, reorganizadas em diferentes arranjos. Freire aproxima o procedimento de construção dos trabalhos aos "Bichos", de Lygia Clark, nos quais a obra se transformava pela manipulação. Daí também o ritual do título, que remete à repetição do gesto e à concentração exigida pela montagem. Banida, por sua vez, parte da cerâmica para criar imagens que transitam entre a figuração e a abstração. Em Mecanosfera, suas obras elaboram uma narrativa sobre o amor entre vulcões e estrelas. "O centro da Terra é apaixonado pelo Sol, por isso que o vulcão entra em erupção: para tentar chegar ao Sol e às estrelas", diz a artista. E é desse amor impossível, conta, que nascem os planetas. A cerâmica esmaltada é central nessa pesquisa. Para Banida, o barro é uma matéria que atravessa diferentes culturas e escalas de tempo, enquanto o esmalte permite que ele assuma a aparência de outras substâncias. "Se eu uso um esmalte metálico, o barro vira bronze. Se eu uso um esmalte rochoso, o barro vira rocha vulcânica", afirma. Ela define essa prática como um dispositivo de fabulação, capaz de produzir formas que não precisam se limitar à representação do mundo conhecido. A pesquisa se relaciona ao interesse de Banida pela ecologia e pela ficção como ferramentas para imaginar outros futuros. Desde 2024, ela desenvolve Érota, um mundo imaginário com seres, climas e idioma próprios, no qual investiga formas de existência que não partam necessariamente da experiência humana. "O meu trabalho é uma recusa ao fim", diz.
Emer Freire e B�rbara Banida imaginam outras formas de vida em exposi��o
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