Em S�o Paulo, 'A �ltima Cova' transforma luto em celebra��o no palco

Em S�o Paulo, 'A �ltima Cova' transforma luto em celebra��o no palco

A cada vez que a morte sobe aos palcos, eu me pergunto em que cena vou tirar meu bloquinho da bolsa para anotar as novidades. É normal a gente encaixar personagens e frases naquilo que já conhece, quando fica muito perto de um assunto. O que eu mais gosto é da sensação do "isso ainda não tinha pensado". Em "A Última Cova", de Newton Moreno para Marco França, a história do coveiro-justiceiro não coube no bloquinho. Quase nada do que Djalma fala sobre enterrar corpos encontrou referência aqui. Nunca tinha me ocorrido que o único lugar onde com certeza se acha alguém que sumiu é no cemitério. Todos vão passar por lá: vivos enterrando seus mortos, mortos enterrados por seus vivos. Todas as mães. "A Última Cova" é uma espécie de Antígona pedagógica. Da necessidade humana por ritual digno de encerramento, emerge a justiça de outro plano. Djalma sepulta corpos e liberta almas. Desobedecendo à lei dos homens, reúne defuntos que, alguém convencionou, não podem ser enterrados juntos. Protege a árvore onde a amada deixada jura que ainda encontra seu marido. Não havia uma jaqueira no palco, dizem meus olhos. Mas a história do coveiro é tão convincente, que eu poderia jurar que a vi. O teatro é infinito, como a vida. Marco França encena um monólogo cheio de gente. As vozes dos vivos que choram seus mortos ecoam entre as notas da sanfona entoadas pelo ator e músico. Como é a sua relação com o morrer? Meu pai morreu de leucemia quando eu tinha 21. Foi um luto à prestação. Dois anos depois, entrei para a companhia Clowns de Shakespeare, em Natal (RN), onde fiquei por 15 anos. O primeiro projeto em que trabalhei nela, como ator, foi nos moldes dos Doutores da Alegria. Ao trabalhar com pacientes, principalmente crianças, eu comecei a pensar nos cuidados paliativos, na qualidade do morrer. A pensar no que podia ter sido diferente com meu pai. E, enquanto eu enfrentava outras perdas, de tios e avós, percebi que gostava de ir a velórios, de sentir uma certa paz enquanto era acolhido pelas pessoas que faziam questão de estar ali compartilhando as despedidas. Quais as referências para uma obra tão profunda quanto popular sobre o morrer? Em 2024, fui para o Festival de Teatro Santiago a Mil, no Chile. E uma das peças a que assisti se chamava "El Enterrador", um monólogo em catalão. Mesmo sem entender muito, por causa do idioma, pensei em como um personagem coveiro, essa figura tão invisibilizada, era incrível. Eu já vinha querendo criar um projeto mais autoral e que me permitisse rodar o país, no ano em que completo 50 anos. A inspiração foi imediata: idealizei um personagem coveiro, num cemitério, contando histórias dos mortos que enterrou, numa linguagem popular e poética. E tinha certeza de que o dramaturgo certo para escrevê-la seria o Newton Moreno, que comprou o projeto de cara. Foi durante a pesquisa para o personagem que cheguei a vocês, do Morte sem Tabu, a "O Que te Assombra" —e também ao quadrinho "O Abismo do Esquecimento", do desenhista Paco Roca, sobre Leoncio Baída Navarro, conhecido como "o sepultador de Paterna". Ao procurar saber sua história, descobri que a peça que havia assistido em Santiago e me dado essa inspiração era a de Leoncio Navarro. "A Última Cova" estreou no início de julho e está em segunda temporada, emocionando plateias lotadas. O que o projeto tem significado para você? O Djalma tem me feito pensar muito sobre a urgência da vida e me dado mais pulsão de vida. E isso tem sido recorrente. Este ano eu perdi a Titina Medeiros, que foi minha companheira de palcos por 15 anos. E ela cantava, num dos espetáculos, a mesma incelença que eu canto no início e no fim da peça: "A sua mãe sentindo dor/ Duas espadas de dor". Não tem uma vez que eu não pense nela ao interpretar o sepultador. No dia da estreia também aconteceu algo que mexeu muito comigo. O irmão da minha mãe estava em coma há sete meses, numa situação muito sofrida para todos, e morreu naquele dia, enquanto eu estava em cena. De alguma maneira, foi como se eu o tivesse ajudado a descansar, tivesse ajudado a cantar para subir. Eu senti um misto de tristeza e alívio, uma sensação de dever cumprido, para nós dois. Falar e encenar a morte e as nossas finitudes, tem me feito viver de forma cada vez mais celebrativa. A história do Tiago Pitthan, que conheci pelo Morte sem Tabu, também foi muito inspiradora para tudo que tem acontecido. Uma espécie de ensaio para o que ainda pode vir pela frente. A vida já é tão pesada, é preciso celebrar cada dia. Fazer o Djalma tem sido uma cura diária, uma celebração permanente. Ao fim de cada apresentação, muitas pessoas têm compartilhado as suas memórias sobre perdas e o amor que é mais forte que a morte, como digo no espetáculo. E é com esse espírito que, esta semana, retorno ao palco celebrando a existência e o legado de Dona Laura Cardoso, que sempre será uma referência no nosso ofício. Espaço Cia. da Revista - al. Nothmann, 1.135, Campos Elíseos, região central. Sáb e seg. às 20h. Dom. às 18h. Até 31/8. Ingr.: R$ 90 (inteira) e R$ 45 (meia-entrada) em eventim.com.br ou bilheteria física do teatro. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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