Em Recife, comunidade atingida por chuvas de 2022 cria plano de preven��o a desastres clim�ticos

Em Recife, comunidade atingida por chuvas de 2022 cria plano de preven��o a desastres clim�ticos

Quando há previsão de chuva forte, começa um regime de plantão na vila Arraes, em Recife (PE). De olho no computador, Joice Paixão se reveza com uma vizinha para monitorar alertas meteorológicos, imagens de satélite e sistemas atmosféricos considerados perigosos. Se os dados mostram uma chance real de inundação, elas põem em ação um protocolo complexo. A estratégia vai de remover aqueles que vivem em áreas mais sensíveis até, após a enchente, mobilizar órgãos públicos para vacinar a população contra doenças como hepatite e tétano. As medidas fazem parte do Plano Comunitário de Redução de Risco e Adaptação Climática da vila Arraes, que fica no bairro de Várzea, às margens do rio Capibaribe, na zona oeste da capital pernambucana. A estratégia foi criada após as chuvas de maio de 2022, que deixaram 133 mortos no estado. Na vila, foram duas vítimas —e muita destruição. "O rio chegou a levar casas inteiras", diz Paixão, socióloga, presidente da Associação Gris Espaço Solidário e liderança na comunidade. "Tem casas aonde até hoje as pessoas não voltaram, porque não tem como voltar." Para evitar que a tragédia se repetisse, ela mobilizou diferentes parceiros, entre os quais pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco para fazer um censo e um estudo topográfico da comunidade. Assim, foram mapeadas as áreas e habitantes mais vulneráveis a inundações em meio aos 479 imóveis do território. Aliando os dados à experiência de mutirões realizados durante a pandemia de Covid-19 e treinamentos da Defesa Civil, o plano nasceu. A estratégia inclui uma rota de fuga oficial para quando o rio começa a subir e brigadas com diferentes focos: logística, saúde (mental e preventiva), comunicação e gestão de crise. "Agora, quando a gente lança o alerta [de chuva forte], já orientamos as pessoas a prepararem a 'bolsa sobrevivência', com documento, remédio de uso contínuo, muda de roupa…", afirma Paixão, acrescentando que a comunicação é feita via WhatsApp e também de forma analógica. "Quem faz a comunicação analógica são as fofoqueiras da rua", brinca ela. "Algumas casas têm idosos ou não têm internet, e elas já sabem. Então, uma mulher monitora duas ruas e, quando tem o alerta, ela bate na porta e avisa." Com o risco de inundação iminente, cada brigada tem uma função: mobilizar aqueles que vão ceder espaços para abrigos, ajudar na remoção de móveis pesados e de pessoas com mobilidade reduzida, preparar refeições e entrar em contato com órgãos oficiais. Segundo um relatório do Instituto para a Redução de Riscos e Desastres da UFRPE (Universidade Federal Rural de Pernambuco), 44% do território da cidade tem risco alto para a ocorrência de inundações e alagamentos. Além dos eventos extremos provocados pela mudança do clima, Recife é a 16ª capital do mundo mais vulnerável à elevação do nível do mar, segundo o painel de ciência climática das Nações Unidas. A estratégia da vila Arraes foi posta à prova pela primeira vez em maio, no feriado do Dia do Trabalhador. "Essa chuva foi a prova cabal de que o plano funciona", afirma a líder comunitária. "Muitas famílias conseguiram salvar pelo menos 'o grosso' dos móveis —geladeira, fogão, cama… O que é mais caro, né?" Ela emitiu os primeiros alertas na noite de quinta-feira, dia 30 de abril, e as brigadas entraram em ação para auxiliar os moradores. Horas depois, durante a madrugada, tempestades atingiram Recife e arredores deixando milhares de desabrigados e quatro mortos. Desta vez, nenhum óbito foi registrado na comunidade. "Existem os alertas da prefeitura, mas eles têm um atraso em relação à realidade. Muitas vezes, quando a prefeitura diz que está em alerta amarelo, que é o primeiro nível, tem territórios que já estão no alerta laranja ou vermelho, que começaram a alagar", diz Paixão, sobre a importância de ter um sistema próprio de monitoramento. "Quando o rio começa a subir, é muito rápido. Você olhou, o rio está na canela; você volta, já está na cintura." Adaptação climática comunitária O plano de mitigação dos impactos das chuvas da vila Arraes está entre os 20 projetos mapeados pelo Greenpeace em todo o Brasil no relatório "As soluções dos territórios: adaptação climática baseada em comunidades". O documento foi produzido em parceria com o laboratório de Ecologia e Conservação de Ecossistemas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e a consultoria Brisa Soluções Ambientais. O relatório inclui iniciativas que abordam também outras ameaças da crise climática, como incêndios florestais, seca, erosão costeira, ondas de calor e deslizamentos de terra. Entre elas, estão a Brivac (Brigada Voluntária Ambiental de Cavalcante) —que atua no combate aos incêndios florestais no entorno do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás— e a rede Adapta Sertão —que usa o cooperativismo para fornecer tecnologias e métodos que ajudem pequenos agricultores a lidar com a mudança do clima. "Não podemos mostrar esses lugares apenas no desastre. Temos que mostrar também a esperança", diz Leilane Reis, que coordena a frente de justiça climática do Greenpeace Brasil. Planeta em Transe Uma newsletter com o que você precisa saber sobre mudanças climáticas A especialista afirma que a maior parte dos investimentos em clima vai para ações que evitem emissões de carbono, enquanto a pauta da adaptação acaba escanteada. Isso, somado a um vácuo de políticas públicas, faz com que populações vulneráveis busquem desenvolver suas próprias tecnologias, voltadas às necessidades locais. "É muito impactante o que eles conseguem fazer com tão pouco dinheiro. Por exemplo, tem outra iniciativa de Recife, do bairro do Ibura, que criou, com R$ 12 mil, um sistema para monitoramento de regiões sob risco de deslizamentos de terra." Reis acrescenta que, mesmo quando há alguma possibilidade de financiamento mais vultoso, a barreira burocrática exclui muitas iniciativas de base comunitária. "É impossível olhar uma vulnerabilidade de forma isolada. Tudo tem um contexto histórico e social. Esses territórios passam por uma violência estrutural." "Não há adaptação nem justiça climática sem financiamento e sem a comunidade local como protagonista", afirma.

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