Em que exato momento mais dinheiro deixa de melhorar sua vida?

Em que exato momento mais dinheiro deixa de melhorar sua vida?

Há mais de 20 anos, perguntei ao meu orientador de doutorado, um sueco, o que o levava a trabalhar com tanto afinco sabendo que quase 60% do seu salário acabaria, por via da coleta fiscal, nas arcas insaciáveis do Estado. Respondeu-me que quanto mais ganhasse, mais contribuiria para o bem-estar de todos. Eu, vindo de latitudes menos crédulas, achei a resposta boba. Sempre me pareceram frágeis estes sistemas econômicos fundados sobre uma ideia excessivamente benigna da natureza humana. Ora, a verdade é que o homem é um animal vaidoso, invejoso, mesquinho e ferreamente competitivo, sempre com a luneta posta no triunfo do vizinho para lhe rogar secretas pragas. Com um punhado de moedas no bolso, o sujeito compra a ilusão de ter superado os piores fantasmas da infância, enquanto a sociedade, educadamente, finge não reparar na pequenez que continua a roer debaixo da roupa de grife. Por outro lado, quando a riqueza individual atinge proporções bilionárias, ela passa a mercantilizar os bens comuns e o próprio meio ambiente, acelerando fenômenos de anomia e fragmentação comunitária, ao mesmo tempo que subverte a soberania dos Estados nacionais e desequilibra as forças do mercado em favor de uma oligarquia global. Na democracia não há espaço para o tecnograndiosismo de Musk, Zuckerberg e Thiel. O pesquisador Luke Kemp da Universidade de Cambridge, depois de analisar mais de 400 sociedades ao longo de 5.000 anos, concluiu que a concentração de riqueza provocou, muitas vezes, a fragilização de instituições e o colapso de civilizações. Mas o debate político em torno da taxação dos ricos também me deixa inquieto, há algo castrador e punitivo na medida. É importante, descontada a devoção. Quando a fiscalidade se transforma num instrumento de ressentimento, a política abdica do seu papel de edificar o bem comum para se limitar a nivelar por baixo a ambição humana. A invectiva "taxem os ricos" de Pramila Jayapal, Jean-Luc Mélenchon ou Bernie Sanders confunde justiça fiscal com hostilidade à riqueza. O caminho tem de ser outro. Nos círculos acadêmicos, está ganhando densidade o debate sobre os limites materiais da riqueza. A partir de que ponto mais dinheiro deixa de trazer qualidade de vida? Há limites para a quantidade de férias nas Bahamas que podemos fazer, para a qualidade da medicina a que temos acesso ou para o conforto que uma casa nos dá. Uma mansão de quarenta quartos não traz uma felicidade proporcional à de quatro. Há uma linha de corte a partir da qual mais dinheiro deixa de gerar felicidade. A partir daí, a riqueza converte-se num fardo feito de segurança privada, perda irremediável de anonimato e burocracia contínua para gerir portfólios de investimento, reduzindo a vida a um exercício de custódia e isolamento social. À data da sua morte, o family office de Abilio Diniz mantinha duas centenas de funcionários só para gerir a sua fortuna. Se a definição de uma linha de pobreza (no Brasil é US$ 6,94 ou R$ 36 por dia por pessoa) foi um dos grandes avanços sociológicos do século passado na formulação de políticas públicas, falta-nos talvez a linha do outro extremo. Se já sabemos, com minúcia estatística, a partir de quanto uma pessoa tem pouco, deveríamos também saber a partir de quanto ela já tem o bastante para ser feliz. Em 1978, Jan Drewnowski introduziu a ideia de uma linha de riqueza (affluence line), procurando medir não a escassez, mas o ponto a partir do qual recursos adicionais já pouco acrescentam à satisfação das necessidades materiais. Em 2006, o sociólogo brasileiro Marcelo Medeiros propôs uma metodologia para defini-la a partir da distribuição de renda e do próprio limiar de pobreza. Pierre Concialdi pesquisou o tema no contexto das economias europeias, enquanto a acadêmica belga e neerlandesa Ingrid Robeyns, a partir de 2017, o incorporou a uma teoria normativa dos limites da riqueza e cunhou o termo "limitarianismo". Desde então, o tema passou a dialogar com a literatura acadêmica sobre suficiência, autonomia individual, desigualdade política e concentração patrimonial. Naturalmente, a linha de riqueza é um conceito relativo, variando entre a realidade de um brasileiro e a de um norueguês, em função do custo de vida e das estruturas de proteção social. R$ 20 milhões também não é o mesmo para um residente em Ipanema no Rio de Janeiro ou em Santana do Ipanema em Alagoas. Fixar a linha de corte está longe de ser um exercício matemático simples. Não depende apenas do custo de vida ou da capacidade de consumo, mas de fatores psicológicos e sociais. Eventualmente de gênero também. Por isso é um desafio interessante. O propósito desta ferramenta conceptual não é proibir a acumulação de patrimônio, mas oferecer uma métrica que permita a cada indivíduo reconhecer a sua própria zona de saturação material. Ultrapassado esse limiar, a escolha permanece pessoal. Alguns continuarão a acumular, porque a riqueza pode saturar como fonte de bem-estar sem saturar como instrumento de poder; outros poderão ver nesse ponto a oportunidade de redirecionar tempo e capital para fins de maior utilidade social ou realização pessoal. Faz então sentido perguntar: se dinheiro e felicidade deixam de caminhar juntos depois de certo ponto, por que continuamos medindo o nosso sucesso pela quantidade de dinheiro que conseguimos acumular? Talvez a resposta do meu orientador de doutorado, um célebre economista, não tenha sido tão insensata assim. O bobo não era ele. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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