A eleição bate à nossa porta e me veio à lembrança algumas frases da escritora Carolina Maria de Jesus, autora de "Quarto de Despejo", obra publicada em 1960 —portanto, há 66 anos— trazendo sérias reflexões sobre o momento político, cheio de promessas vazias e demagógicas. Carolina, então moradora da favela do Canindé, teve grande projeção no cenário literário brasileiro, ficando mundialmente famosa após seu livro ter sido traduzido em dezenas de países. Frases retiradas do seu livro dizem muito sobre o atual processo eleitoral, quando ela critica e descreve o descaso dos políticos com a população mais vulnerável, jamais atendida nas suas necessidades básicas —como saúde, educação, moradia e trabalho como meios de sustentar e dar dignidade a sua família. Em "Quarto de Despejo", Carolina registra frases lapidares —o "Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome". Vista nos dias de hoje, só a frase em si eliminaria a totalidade dos postulantes à presidência. Ela inicia falando sobre a situação da democracia, para dizer que tinha perdido a "fé no Kubstchek", no caso, o Juscelino. Os escritos de Carolina obedecem a uma sintaxe própria, a mesma que a popularizou e, a despeito de tudo, a transformou em best-seller. "A democracia está perdendo os seus adeptos. No nosso paiz tudo está enfraquecendo. O dinheiro é fraco. A democracia é fraca e os políticos fraquissimos. E tudo que está fraco, morre um dia. ...Os políticos sabem que eu sou poetisa. E que o poeta enfrenta a morte quando vê o seu povo oprimido." Em outro exemplo, dirige seu olhar ao legislativo. "Mas eu já observei os nossos políticos. Para observá-los fui a Assembleia. A sucursal do Purgatório, porque a matriz é a sede do Serviço Social, no palácio do Governo. Foi lá que eu vi ranger de dentes. Vi os pobres sair chorando. E as lágrimas dos pobres comove os poetas. Não comove os poetas de salão. Mas os poetas do lixo, os idealistas das favelas, um expectador que assiste e observa as trajedias que os políticos representam em relação ao povo." Carolina escreveu sobre política e políticos, direcionando suas críticas à dura situação vivida por ela e os filhos como moradora de favela, "o quarto de despejo da cidade". Para a autora mineira, a "fome também é professora". A atualidade de suas frases marca o posicionamento perante o sistema que subjuga a população empobrecida. "Mas o povo não está interessado nas eleições, que é o cavalo de Troia que aparece de quatro em quatro anos." No dia 20 de maio de 1958, ataca, com veemência, o oportunismo eleitoral. "Quando os políticos dizem nos seus discursos que estão ao lado do povo, que o povo é a maioria, eles estão nos usando como trampolim para subir." Mais de seis décadas depois, Carolina continua dizendo coisas que incomodaram a classe política do seu tempo, de forma direta e cortante: "Quem paga as despesas das eleições é o povo!" Voltando sua bateria para a cidade onde morou dois terços da vida, escreveu: "Eu classifico São Paulo assim: O Palácio é a sala de visita. A Prefeitura é a sala de jantar e a cidade é o jardim. E a favela é o quintal onde jogam os lixos". Necessária, atual e ousada, Carolina escrevia para uma sociedade que excluía gente preta e pobre, dando seu recado sobre os rumos da nação: "A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra. E nós quando estamos no fim da vida é que sabemos como a nossa vida decorreu. A minha até aqui tem sido preta. Preta é minha pele. Preto é o lugar onde eu moro." Passados tantos anos, o Brasil vivido por Carolina continua mantendo milhões de pessoas à margem de sua riqueza. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
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