"Estamos avançando", diz Hamm a Clov em "Fim de Partida", de Samuel Beckett, em cartaz em São Paulo, com Marco Nanini. Avançar como se, cego e paralítico, Hamm não sai da cadeira de rodas e seu empregado Clov, por mais que o odeie, não consegue livrar-se dele? Se avançar não dá, retrocedamos. Em 2024, Roberto Schwarz publicou na New Left Review o ensaio "Adorno/Beckett". É a transcrição de uma palestra que deu, em 2006, sobre o crítico alemão e o dramaturgo irlandês centrada, justamente, na peça "Fim de Partida". Ela se passa num cômodo claustrofóbico do qual ninguém sai porque algo inominável extinguiu tudo, restando apenas o horizonte cinzento. Além do senhor e do servo, há no palco o pai e a mãe de Hamm. Disjecta membra, detritos esparsos da derradeira destruição, vivem em latas de lixo.A linguagem dos quatro é rugosa, rude, tocante. Na interpretação usual, da qual Theodor Adorno se afasta, suas palavras e gestos compõem um minimalismo que sintetizaria a estilhaçada experiência humana. A beleza atemporal da arte resgataria o fulgor desses cacos de vidas detonadas. Escrita em francês, "Fim de Partida" estreou em 1957, em Londres, numa tradução do autor. Ele abandonara o inglês como idioma artístico para depurar os automatismos da linguagem, articulando um estilo impessoal —o de "Esperando Godot", sua obra mais conhecida. Adorno viajou a Paris no ano seguinte, hospedando-se no hotel Lutetia, onde Beckett o visitou. Foram ao bar do La Coupole e jantaram no Les Isles Marquises. A conversa ensejou "Tentando Entender ‘Fim de Partida’" (sem tradução para o português), segundo Roberto Schwarz, "um dos grandes ensaios sobre arte moderna" de Adorno. A peça segue o preceito aristotélico da unidade de tempo, espaço e ação. A trama transcorre em tempo real, num único cenário, mas sem tempo, espaço ou ação propriamente ditos. Seu tempo é um vago pós-tudo, depois de a história ter terminado. O espaço não é urbano, bucólico ou mesmo nacional. A ação é uma algaravia de estertores verbais, ruídos e rumores de gente que quer acabar de vez. Ou melhor: de quem acabou e não sabe, continua.Embora filiada ao teatro clássico, "Fim de Partida" não é uma tragédia. Pertence a um gênero híbrido, a comédia absurda de humor negro —Beckett fez o roteiro de um filme com Buster Keaton chamado "Filme"—, o que explicaria a tirada "nada é mais engraçado que a infelicidade"; a crença de Hamm na vida depois da morte porque a sua existência fora sempre post mortem; o brado "estamos avançando" na hora de regressão triunfante. Para Schwarz, o pulo do gato de Adorno foi ter incorporado e expressado, na sua forma literária, a explosão das expectativas do pós-Guerra. O que rasteja em andrajos pelo palco de "Fim de Partida" são espectros da razão burguesa, no momento mesmo de seu triunfo sobre a barbárie fascista. A peça desmonta a ideologia filosófica em voga nos anos 1950, o existencialismo. O jargão de Heidegger e Sartre —situação, absurdo, ser-para-a-morte— não designa a possibilidade de optar e, portanto, implica na liberdade dos sujeitos. Essas categorias, Beckett demonstra e reitera, perderam sentido devido ao curso tomado pela história mundial. O Beckett de Adorno não é um poeta genérico, e sim um artista radical que situa a arte historicamente. Em "Fim de Partida", refere-se ao passado longínquo, a Sedan, palco de uma batalha europeia sem fim —vide a horda de migrantes bárbaros aboletada no âmago do continente. Encarcera o passado recente num bunker que torna presentes os seres-para-a-morte das butiques existencialistas. Diante da hecatombe nuclear que se avizinha, Hamm e Clov, Nell e Nagg, prefiguram resíduos tóxicos de um futuro inexorável, de um tempo que não vem aí porque já está aqui. Qual o papel da arte nesse acre furdunço? É errar de novo, mas de modo diverso, repetir em vão aos quatro ventos, na fuça dos quatro cavaleiros do apocalipse, e ostentar o lábaro estrelado: "Estamos avançando!". Honra seja feita, pois, a Marco Nanini, o Hamm de tantas porfias perdidas. Pequeno, capenga, com a perna lesada, o enorme ator alça voo com verve discreta e assevera que, quando deixam, torna-se o satã de seu tempo e nação. Estamos avançando! Ave, Helena Ignez, a mãe de Hamm, Nell. Aos 83 anos, a viúva de Glauber Rocha e Rogério Sganzerla segue sendo a prova viva e divina do que poderíamos ser, caso tivéssemos seu empenho, engenho e arte. Mais que avançar, vencemos! Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Em 'Fim de Partida', res�duos t�xicos de um futuro inexor�vel
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