Esta é a edição da newsletter Planeta em Transe. Quer recebê-la no seu email? Inscreva-se abaixo: Planeta em Transe Uma newsletter com o que você precisa saber sobre mudanças climáticas "Eu gostaria de poder estar aqui hoje simplesmente para falar sobre desenvolvimento, democracia, paz e as esperanças de uma nação jovem. Em vez disso, preciso falar sobre morte e destruição em proporções épicas. Sobre famílias esperando por entes queridos que nunca voltarão para casa. Sobre comunidades vasculhando lama, pedras e água em busca de pessoas cujos corpos talvez nunca sejam recuperados. Sobre pontes, estradas, escolas, casas e meios de subsistência levados pela água em questão de minutos." Começou assim um dos discursos mais impactantes da Assembleia Geral da ONU. Era a antepenúltima fala de um dia em que representantes e lideranças de 36 países-membros ocuparam a tribuna das Nações Unidas. No caso do jovem premiê do Nepal, o discurso foi, em suas palavras, um "alerta para a humanidade". "E eu pergunto hoje: nós realmente ouvimos esse alerta?", questionou Balendra Shah, 36. Neste sábado (26), o desastre que matou cerca de 1.400 pessoas completa um mês. O "tsunami do Himalaia", como Shah o chamou, deixou ainda mais de 6.000 pessoas desaparecidas. Como expliquei em outra edição da Planeta em Transe, as mudanças climáticas tiveram seu papel na tragédia. "Um clima mais quente está desestabilizando a frágil ecologia do Himalaia", disse o premiê nepalês. "A devastação resultante provocou destruição dos dois lados da fronteira entre Nepal e China. A enchente seguiu rio abaixo em direção à Índia. Isso nos diz algo fundamental: a mudança climática não reconhece fronteiras. Geleiras e enchentes não viajam com um visto carimbado no passaporte." Shah assumiu a liderança do Nepal em março. Na política, foi prefeito de Katmandu, a capital do país, e antes ficou conhecido como rapper. Sua ascensão foi o resultado de uma ruptura geracional que, como visto em outros países, partiu de protestos organizados pela geração Z e estremeceu estruturas que os manifestantes consideravam arcaicas. Apenas cinco meses depois de se tornar primeiro-ministro, Shah se viu à frente do país enfrentando uma das maiores tragédias de sua história. Além das perdas humanas e do trauma das cenas aterrorizantes daquele 26 de agosto, o Nepal agora tem pela frente uma tarefa bilionária de reconstrução. Na ONU, o premiê agradeceu pela ajuda internacional já recebida e indicou que vai precisar de mais assistência. Mas também apresentou outra fatura, muito mais cara, ainda que menos tangível. "Precisamos entender por que esse desastre importa para além do Nepal. O Nepal contribui com menos de 0,1% das emissões globais de gases de efeito estufa. Nós não criamos esta crise. Ainda assim, estamos pagando um preço colossal por ela", disse. É o dilema de dezenas de pequenos países que, embora longe de serem protagonistas na contribuição para os fatores que provocam a crise do clima, estão vulneráveis aos efeitos dela. Suas demandas são recorrentes em eventos multilaterais, como a própria Assembleia Geral da ONU e as conferências climáticas da entidade, como a COP30, ocorrida no ano passado em Belém (PA). Ainda nesta sexta-feira (25), por exemplo, o premiê de Tuvalu repetiu o apelo para que o mundo não se esqueça de como as mudanças climáticas podem tirar o pequeno país do mapa devido à elevação do nível do mar. Em sua fala, o primeiro-ministro do Nepal pediu que a Assembleia guardasse seis palavras. Alívio. 2. Reabilitação. 3. Reconstrução. E também: 4. Responsabilidade. 5. Reparação. 6. Resiliência. "As três primeiras são aquilo de que precisamos depois de um desastre", disse Shah. "As três últimas são aquilo de que precisamos para garantir que o desastre não se torne uma condição permanente." A Assembleia Geral da ONU é o palco para muitas demandas. Às vezes, para discursos com matizes eleitorais, como vimos com Lula e Donald Trump. Também para ataques e acusações, como vimos com o primeiro-ministro de Israel e o presidente do Irã. Um evento extremo também pode ser o gatilho para crises políticas, e administrar um país em um cenário delicado como esse é ainda mais desafiador. Mas o que chama a atenção no discurso de Balendra Shah é a sua tentativa de mostrar que a pauta do clima é universal. "Não estamos aqui para culpar nenhum país ou continente. Não estamos aqui para transformar a mudança climática em mais um campo de batalha geopolítico. Estamos aqui para pedir a todos que reafirmem seu compromisso com a responsabilidade compartilhada e a solidariedade", afirmou o nepalês. Quando diz que "aqueles que historicamente contribuíram mais para o problema e aqueles que têm maior capacidade de responder precisam fazer mais", Shah não está reinventando a roda. A comunidade internacional já reconheceu —ao menos em tese— que esta é, sim, uma responsabilidade que concerne a todos.
Em discurso na ONU, Nepal cobrou do mundo a fatura de uma crise que ele n�o criou
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