Ao saber dos R$ 61 milhões que o ex- banqueiro Daniel Vorcaro deu para o provável-ex-candidato-Flávio Bolsonaro, entrei em crise com meus milionários. Nunca me deram um regalo que passasse de R$ 300 e jamais me chamaram para suas mansões na praia sem antes enviarem a lista de víveres que eu deveria comprar no supermercado. É sempre bom jantar antes de visitá-los, ou passarei a noite naqueles deploráveis ovinhos de amendoim. Alguns, juro por Deus, levam de volta os vinhos que trazem para as festas. Certa feita, um colega bilionário conseguiu que eu apresentasse uma ideia de evento para o diretor de marketing de um banco. O diretor agradeceu, mas patrocinar feminismo não lhe interessava. Passados uns meses, o colega bilionário reclamou com amigos em comum: muito deselegante, não me ofereceu porcentagem de nada. Porcentagem de zero, pra rico, não é igual a zero. Deve ser assim que eles ficam mais ricos. Na festa de um ano da minha filha, uma ricaça me deu um saco com roupas usadas por seus filhos. Uma das calças fedia ainda a bosta da primogênita herdeira. Enquanto o Brasil está indignado com o "vorcanaro", eu estou indignada com os meus milionários. Não peço milhões com a desculpa esfarrapada de usá-los para cometer a pior película da história, mas o que custaria aos meus ricos de estimação me darem, sei lá, uma ajudinha de R$ 20 mil pra que eu continue aqui meu sonho de um canal de YouTube sobre literatura, feminismo e psicanálise? Ainda colocaria as marquinhas deles lá, das empresinhas deles, ou seja, nem era só no amor. Nada! Meus milionários só me procuram pra pedir dicas de livros, séries e filmes. Alguns insistem em ouvir conselhos amorosos ou seguem me perturbando com seus problemas do tipo "o Einstein não é mais o mesmo, internei pra operar o joelho depois da meia maratona de NY e me levaram gelatina de sobremesa" ou "tal gestão náutica não opera mais em Ilhabela". Quando fiquei apertadíssima de grana, há uns seis anos (pandemia, demissões, divórcio) meus amigos banqueiros, empresários e herdeiros não me ofereceram nem um pão de queijo brutalizado pelas horas. Um deles chegou a cogitar me socorrer: "Tá aqui o telefone do administrador do meu Family Office, ele vai te passar direitinho o cálculo de juros". Uma única pessoa me ajudou. Foi uma amiga jornalista, que sustenta duas rebentas com resenha de livro. Sem falar nada, essa anja com carteirinha do Sam’s Club depositou R$ 3.000 na minha conta. Isso me emociona até hoje. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Todos os meus ricos racham a conta do almoço. Todos. Eu não os deixaria pagar, eu faço questão de rachar. Óbvio. Mas o que não é óbvia é a sanha tremeliquenta de seus olhos quando chega a cobrança. O desespero pra que nem um centavo a mais lhes seja roubado. Conferem e conferem e conferem. Eu não pedi essa água com gás aqui não, hein! Me recuso a pagar pelo vinho caro que pediram e eu não bebi, mas posso ver na hora como isso soa deselegante. Já dar calça suja pra neném aniversariante é finérrimo né? Meus ricos são de esquerda (alguns, performaticamente) e insuportavelmente idôneos. Por isso, nunca ouvirão de mim "estou e estarei contigo sempre". O meu único medo é pensar o que meus milionários estão ensinando ao Brasil agindo dessa forma. O que fica de legado? Mais vale um pobre na mão que te empresta três conto do que dois milionários voando de executiva? Precisa ver isso daí. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Em crise com meus bilion�rios
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.