"Por que será que Deus fez a mulher assim? Será que a mulher seria diferente se fosse feita direto do barro?", questiona uma garotinha logo no começo do documentário "A Fabulosa Máquina do Tempo". Vestindo uma túnica, como se fosse Jesus, ela estranha a passagem da Bíblia sobre como Eva foi criada a partir da costela de Adão. É um faz-de-conta, mas sua pergunta é genuína. Foi por meio de brincadeiras que a diretora Eliza Capai conseguiu contar as histórias reais das meninas de Guaribas, cidade no interior do Piauí, e das mulheres de suas famílias, marcadas pela miséria há gerações. Agora, o filme está nos cinemas do país após ter passado pelo Festival de Berlim, em fevereiro, e pelo É Tudo Verdade, em abril. "A Fabulosa Máquina do Tempo" é um documentário híbrido, ou uma docuficção, unindo trechos roteirizados às entrevistas, pesquisas e registros do ambiente. É um gênero que remete ainda às origens do cinema —caso dos trabalhos de Robert Flaherty—e que segue se desdobrando até hoje, com títulos mais recentes como "Juízo", de Maria Augusta Ramos, e "Quatro Filhas de Olfa", indicado ao Oscar em 2023. No caso de Capai, a narrativa tem camadas. Ora, as meninas são gravadas brincando de casinha, com latas de alumínio, embalagens vazias de shampoo e um pedaço de papelão —e, sem perceber, dão pistas de sua realidade com algum movimento ou diálogo. Em outros momentos, a diretora captura as crianças enquanto elas entrevistam as próprias mães. Uma delas pergunta o que a genitora faria se pudesse voltar no tempo. "Teria insistido mais nos estudos, para só depois casar e ter filhos", é a resposta. Quando outra pequena pergunta para a avó como era Guaribas décadas atrás, descobre que na cidade o fogo era a lenha e não havia luz nas casas. A água encanada chegou só em 2003. Antes, todos eram católicos; hoje, predominam os fiéis da igreja pentecostal O Brasil para Cristo. "A Fabulosa Máquina do Tempo" é fruto de um trabalho iniciado há 13 anos. Ao ler o livro "Vozes do Bolsa Família", de Walquiria Leão Rego e Alessandro Pinzani, Capai se deparou com o levantamento de que mulheres eram priorizadas pelo governo para receber o benefício. Isso porque, estatisticamente, investem mais em comida e material escolar, enquanto os homens têm tendência a usar o dinheiro para lazer fora de casa. Daí, Capai foi pela primeira vez a Guaribas, após ganhar uma bolsa de jornalismo. A ideia era investigar o impacto do Bolsa Família na cidade, berço do programa criado no primeiro mandato de Lula. "Eu entrevistava mulheres da minha idade, na faixa dos 30 anos, e elas diziam que viviam na escravidão. Ali, isso significava a falta do básico", diz a diretora. A escassez se estendia de itens básicos, como chinelos, às necessidades mais essenciais, como ter três refeições por dia. Quando a diretora questionou as mulheres sobre o maior sonho delas, a resposta era a mesma. "Diziam ‘quero um marido bom, que me valorize’". Em 2021, quando Capai voltou à cidade, as coisas tinham mudado. As filhas daquelas mulheres que viviam na escassez eram bochechudas, descreve ela, e tinham novos sonhos. "Elas não queriam casar de jeito nenhum", diz. "Houve uma mudança também subjetiva. Elas não viam mais o próprio valor atrelado a um homem." Maratonar Um guia com dicas de filmes e séries para assistir no streaming "A Fabulosa Máquina do Tempo" faz par com outro documentário, a ser lançado futuramente, sobre a história das mães das meninas, com quem Capai se encontrou diversas vezes de 2013 a 2024. Nas últimas visitas ao local, a diretora e sua equipe deram oficinas de roteiro e de jornalismo às crianças —foi assim que elas souberam interrogar as próprias mães, por exemplo. Há ainda outra camada no filme. Capai propôs situações às meninas e pediu para que, a partir delas, criassem um enredo que elas mesmas encenariam para a câmera. Em uma dessas elaborações, as meninas recriam a história da mãe que não conseguiu estudar. Uma delas se veste de noivo, com bigode de cartolina e paletó de lençol, e a outra, de vestido branco, é a noiva. No altar, como na vida real, a pretendente diz "sim", mesmo que esteja na dúvida. No faz-de-conta, porém, o marido também passa tempo em casa com as crianças, e a mulher sai para estudar.
Eliza Capai documenta a luta contra a mis�ria em cidade ber�o do Bolsa Fam�lia
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