No Brasil, nos países vizinhos, nos EUA e na Europa, os eleitores das direitas de massas contemporâneas têm algo em comum: votam contra o sistema. "Sistema" é palavra polissêmica, e aí está sua força. A façanha é misturar revoltas legítimas —contra privilégios, contra a corrupção— com preconceitos, conspirações e ataques às instituições democráticas. Assim, "sistema" pode ser o "politicamente correto", senha paleoconservadora para os direitos das mulheres, das pessoas negras e das minorias; pode ser a "Catedral", nome que a direita tecnológica dá às universidades e à imprensa; pode ser o "globalismo", o STF ou as urnas. Mas há uma diferença fundamental entre o Brasil, de um lado, e a Europa e os EUA, de outro. Lá, esse eleitor lamenta efetivas perdas. Aqui, ele teve ganhos. O eleitor de Donald Trump e da extrema direita europeia é o operário que perdeu a fábrica, o filho que não comprou uma casa aos 30 anos, como fez seu pai. Ele quer voltar: "Make America Great Again", faça os Estados Unidos grandes de novo; "A França está de volta", diz o lema de Jordan Bardella, do RN; "a Holanda nossa de novo", o de Geert Wilders, do PVV. Pesquisas mostraram que os condados americanos mais expostos à concorrência chinesa deslocaram o voto para os republicanos, e as zonas industriais europeias, na mesma situação, para partidos como a AfD e o RN. Aqui, a história é diferente. O Brasil também se desindustrializou, mas a extrema direita não nasceu no ABC paulista. Sua base territorial é a fronteira do agronegócio, composta por regiões que preencheram o vácuo dessa retração industrial e cresceram com ele —áreas em ascensão, não em declínio econômico. Além disso, o eleitor que deu 47% a Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno não é, em sua maioria, alguém que perdeu. É alguém que subiu nos anos do PT. Cruzando o voto nos setores censitários com a renda do Censo, esta Folha mostrou que, em relação a 2022, Lula caiu 5,1 pontos na classe C (renda familiar de R$ 2.500 a R$ 10,9 mil), 3,9 na D e 3,2 na E —e cresceu na A e na B. Flávio superou o pai, Jair, em todas as faixas. O PT recuou onde seus governos mais mudaram vidas. E mudaram. A classe E é a beneficiária do Bolsa Família, que chega a 19,9 milhões de famílias, do Farmácia Popular e da saída do Mapa da Fome; a D, da valorização do salário mínimo, do Pé-de-Meia e do Minha Casa, Minha Vida; a C, da isenção do Imposto de Renda até R$ 5.000, do Desenrola e do consignado. No Lula 3, o PIB avançou, o desemprego bateu mínima histórica e a inflação ficou sob controle. Mesmo assim, por boa parte do mandato, a desaprovação ficou acima da aprovação. Lula cumpriu seus objetivos e deslocou as expectativas para um patamar difícil de satisfazer por um governo espremido entre as demandas sociais, as exigências do mercado, um Congresso turbinado por emendas e a potência do continente, os EUA, no seu encalço. Ocorre que o programa de Flávio oferece essa melhora desejada através da chave da "prosperidade". Mas não diz concretamente como fará isso. Promete o impossível: um "tesouraço" e, ao mesmo tempo, a manutenção dos programas sociais; redução do custo do trabalho e direitos trabalhistas intactos. Não há como conciliar esses antagonismos, sobretudo por um candidato que não se compromete a dialogar ou governar para todos os brasileiros —como sempre fez Lula. A esquerda, por sua vez, não pode disputar esse voto com a nostalgia do boom dos anos 2000. O eleitor quer o degrau seguinte. Lula tentou expressar isso no slogan de sua coligação: "O Brasil Pronto pra Mais". Esse degrau só existe se o país reconstruir uma base produtiva capaz de oferecer emprego além das plataformas. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
Eleitor da extrema direita no Brasil � o 'igual-oposto' do europeu
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