A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (Noaa), agência federal dos Estados Unidos, atualizou —para pior— suas projeções para o El Niño. Em junho, quando se confirmou o início do fenômeno, a probabilidade de que ele atingisse a categoria muito forte era de 63% entre novembro e janeiro; em julho, a cifra passou a 81% entre outubro e dezembro. Já na última semana, a estimativa foi a 93% de setembro a novembro, com 90% de risco de que a condição extrema perdure até janeiro. O El Niño, caracterizado pelo aquecimento da superfície do oceano Pacífico equatorial, é considerado muito forte quando a temperatura supera 2ºC em relação à média histórica. Desde o início da série, em 1950, tal patamar foi superado em cinco episódios. O último foi em 2023-24, e o mais intenso, em 2015-16 (2,6ºC). Atualmente, a alta da temperatura está em 1,4º. Há ainda calor elevado abaixo da superfície, com áreas até 10°C mais quentes, número muito acima do que já foi registrado anteriormente —em 2015-16, essa zona ficou 6ºC acima da média. Assim, a Noaa projeta que o fenômeno deste ano pode ser um dos mais fortes desde 1950. Os efeitos de um "El Niño de início precoce", como descreve Chris Funk, diretor do Centro de Riscos Climáticos da Universidade da Califórnia, já se fazem sentir. Partes do Panamá, país com grandes precipitações, não registram chuvas intensas desde o início de maio. A Etiópia enfrenta um dos verões mais secos em quatro décadas. A seca chega a partes do Sudeste Asiático, atrasando a semeadura de arroz e de outras culturas agrícolas. No Brasil também há risco de comprometimento de safras, impactando a inflação. Aqui, os efeitos do El Niño são estiagens no Norte e Nordeste e chuvas fortes no Sul; o Sudeste pode apresentar as duas condições. Urge a mobilização do poder público. Na quarta (19), o Ministério do Meio Ambiente se reuniu com secretários estaduais da área para definir atuação coordenada. Além de medidas para conter incêndios e reforçar infraestrutura, é preciso atenção redobrada no sistema de saúde. Em julho, a Organização Pan-Americana da Saúde lançou um alerta regional de risco elevado de estresse térmico, desidratação, agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias e de arboviroses, como a dengue. Em 2024, no último El Niño, o Brasil não tratou com seriedade alertas similares da OMS, e mais pessoas morreram por dengue no país (5.873) do que a soma dos oito anos anteriores (4.992). editoriais@grupofolha.com.br
El Ni�o muito forte e precoce
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