Efeitos colaterais da maconha podem surgir nas primeiras horas depois do uso

Efeitos colaterais da maconha podem surgir nas primeiras horas depois do uso

Na última coluna, escrevi sobre a neurobiologia da maconha. Procurei mostrar que o THC exerce ação psicoativa, ao se ligar aos receptores canabinoides CB1, encontrados em circuitos de neurônios envolvidos na memória —hipocampo—, nas respostas emocionais —amígdala—, na cognição —córtex cerebral—, na motivação —sistema límbico— e na coordenação motora —cerebelo. Foi a primeira de três partes que serão abordadas neste espaço, com a finalidade de mostrar o mecanismo de ação do THC e seus possíveis efeitos colaterais. Hoje, vou falar dos efeitos colaterais que podem surgir nas primeiras horas depois do uso. Não tenho a pretensão de condenar ou de defender a maconha. Fumar maconha é decisão de caráter pessoal que não deve ser tratada com moralismos nem como caso de polícia, política que só serviu para corromper, superlotar cadeias e alimentar o crime organizado. O objetivo da coluna é o de explicar o mecanismo responsável pela sensação de prazer associada à droga e quais seus efeitos colaterais, para que a decisão de usá-la leve em conta as evidências. Caso contrário, persistirão os mitos de que se trata da "erva do diabo" ou "de uma erva natural que não vicia nem faz mal a ninguém". Vamos aos principais sintomas que podem se instalar nas primeiras horas. 1. Cognição e coordenação. Alterações em diversos componentes da função cognitiva, principalmente nas memórias de curta duração e da memória de trabalho. São elas que nos fazem lembrar em que gaveta deixamos as chaves ou onde largamos o computador. Depois de fumar um baseado, a capacidade de planejamento pode ficar comprometida, consequência da ação do THC no córtex cerebral. A velocidade com a qual tomamos decisões racionais se torna mais lenta, enquanto a tendência de assumir riscos e a impulsividade aumentam. A percepção da passagem do tempo se altera. Os efeitos são mais intensos e duradouros nos principiantes e nos fumantes ocasionais. Nessas situações pode haver comprometimento da coordenação motora, com aumento da probabilidade de acidentes automobilísticos, risco que chega a durar até 24 horas sem que a pessoa se dê conta. A associação com álcool ou cocaína potencializa o risco. O principiante e o usuário ocasional apresentam perdas mais intensas na atenção e na concentração, com consequências nocivas para o aprendizado. A intensidade desses efeitos é dependente da frequência do uso e da dose de THC. Eles não são consistentemente observados. 2. Ansiedade e sintomas psicóticos. Uma minoria desenvolve quadros de ansiedade generalizada, ataques de pânico, alucinações e vômitos. Usuários frequentes também podem ter experiências negativas ao fumar preparações mais potentes ou administradas por outra via. Nas cadeias, atendi vários pacientes com quadros de confusão mental, sudorese, extremidades frias e taquicardia, depois de ingerirem balas ou doces com cannabis. Muitos deles fumavam maconha há anos, mas não estavam habituados à via oral. Em 1987, apareceram milhares de latas cheias de maconha de alta qualidade, desovadas por um navio no litoral. Nas Unidades de Pronto Atendimento ficaram populares os jovens que tinham fumado "a da lata". As crises de alucinações estão relacionadas com doses elevadas. São mais frequentes em pessoas com sintomas psicóticos prévios ou que têm parentes de primeiro grau com alguma psicopatologia. Em geral, esses quadros são autolimitados e respondem bem ao acolhimento e à sedação leve. 3. Efeitos cardiovasculares. A exposição aguda aumenta a frequência cardíaca, a pressão arterial e pode causar hipotensão postural. Há casos descritos de complicações cardiovasculares, incluindo infarto do miocárdio e AVC. Um estudo mostrou que, em pessoas com infarto do miocárdio recente, um cigarro de maconha aumenta quatro vezes a probabilidade de ter novo infarto, na hora seguinte. 4. Efeitos agudos nos pulmões e vias aéreas. Embora a longo prazo as complicações sejam semelhantes às do tabaco, as consequências imediatas são diferentes porque o fumo provoca constrição dos brônquios, enquanto a cannabis causa broncodilatação. Por fim, as doses fatais para roedores, no laboratório, são inatingíveis pelos seres humanos. Não há relato de morte por overdose na literatura epidemiológica. Na próxima coluna, as complicações a longo prazo. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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