"Deus nunca dá para a gente uma cruz maior do que a gente aguenta carregar, né?", afirma Eduarda Campopiano (PL-SP). Deputada estadual mais votada em São Paulo, com 1,9 milhão de votos, ela diz que tem recebido ataques da esquerda desde que seu nome ganhou projeção nacional. Isso porque ela se intitula "inimiga das feministas" e diz que "a guerra está só começando". "Eles percebem que a derrota finalmente tá batendo à porta. E o que eles estão tentando fazer é minar com narrativas mentirosas." Nos últimos dias, a deputada federal reeleita Sônia Guajajara (PSOL-SP) e a psicóloga e ativista Sofia Favero (PSOL-SP), eleita deputada estadual, acionaram o Ministério Público contra Campopiano por declarações consideradas racistas e transfóbicas. Nascida em Campinas, no interior paulista, e hoje vereadora em Praia Grande, ela construiu sua atuação pública nas redes sociais antes de entrar na política institucional. Aos 19, era comentarista na Rádio Jovem Pan. O discurso antifeminista é o principal tema de suas postagens em redes sociais —tanto que ela foi associada a influenciadoras contrárias ao voto feminino. Ela nega: "Não sou contra, até porque eu voto desde muito nova, mas acho injusto que um movimento político-ideológico sequestre essa pauta". Veja a seguir entrevista que ela concedeu a Folhateen. A senhora esperava ter o número de votos que teve? O pessoal da esquerda estava colocando as expectativas na Erika Hilton [eleita deputada federal pelo PSOL] e eu a consegui superar com 400 mil votos a mais. Foi bastante. A única mulher que já fez mais votos do que eu foi a Janaína Pascoal, e ela também não é uma mulher de esquerda. Teve a Carla Zambelli há um tempo, a própria Michele Bolsonaro teve uma votação muito expressiva nessas eleições. Todas as vezes que a gente realmente bate essas metas, quem fica no topo são mulheres de direita. Eles [da esquerda] tinham uma expectativa muito grande de que iam conseguir mudar isso e de que iam pegar esse marco para eles. E aí eu chego, inclusive para minha própria surpresa, e acabei quebrando essa expectativa. Nas redes sociais, as pessoas que te criticam apontam que antes das eleições você tinha cabelos tingidos, mais compridos, mostrava as suas tatuagens. Por que ocorreu essa mudança de visual? Eu cresci, né? Quando eu fiz as minhas primeiras tatuagens, eu tinha 17 anos. Quando eu gravava para Jovem Pan, por exemplo, eu tinha cabelo roxo. Nunca fui de esquerda, mas eu era uma adolescente muito roqueirona, sabe? E os meus amigos também eram, então foi daí que veio o cabelo colorido. Então eu fiz tudo isso: tatuagem, comecei a pintar o cabelo de colorido com 12 anos. Foram traços meus que perduraram até eu chegar mais ou menos na idade adulta, até eu ter uns 18, 19 anos. Só comecei a sentir que não fazia mais parte. Acho que um cabelo mais curtinho ficaria mais leve, mais fácil de cuidar. Pô, pintar tá dando muito trabalho. Aí eu conheci o meu noivo também. E aí ele me levou para conhecer outras pessoas, e aí eu comecei a conviver com um círculo de pessoas muito diferente. Então foi uma mudança muito gradual. A gente cresce, a gente muda. E é uma coisa tão boba, né? Essa mudança estética não tem relação com uma tentativa de atrair um eleitorado evangélico? Não, até porque eu sou católica. Então esse eleitorado evangélico caminha comigo de qualquer forma. O eleitorado cristão, conservador, caminha comigo, independente. Já caminhava quando eu tinha aquele aspecto mais roqueiro, aquela coisa meio gótica. Eu já tinha muitos seguidores porque eles falavam justamente isso: cara, você quebra a expectativa. Passei a eleição inteira recebendo muita mensagem de muitos padres, com o pessoal da minha paróquia todo torcendo por mim. Mas eu também tenho muitos, muitos amigos evangélicos. Meu chefe de gabinete é pastor. Eu sempre conversei com esses públicos, inclusive na época do cabelo colorido. Muita gente fala que tem até saudade daquela época. Quem não tem sou eu mesmo, porque era muita manutenção. Quando começou a sua trajetória na igreja? Faz um pouco mais, um pouco menos de dois anos, por aí. Eu sempre gostei muito da Igreja Católica. Eu passava na frente das paróquias e pensava: "Que coisa linda!". E eu comecei a estudar a origem dessa estética. E quando eu entendi que no catolicismo a beleza remete a Deus, a coisa começou a fazer muito sentido para mim. De quebra, o meu noivo também gosta muito de estudar história. Ele começou a estudar a história das Cruzadas. E aí a gente pensou: "Vamos na missa?" Foi na Páscoa de 2025, se eu não me engano. E aí a gente foi, e na hora que a gente saiu, a gente falou: ferrou, temos um problema, vamos virar católicos agora. E a gente começou a frequentar a igreja com mais frequência, comecei a me aproximar de muitos influenciadores católicos. É uma caminhada de constante evolução. A conversão nunca termina. E visitei o Santuário de Aparecida pela primeira vez, fiquei maravilhada. Tudo na minha vida começou a melhorar demais depois da nossa conversão. A gente está com casamento católico marcado já, numa paróquia maravilhosa de Santos. Eu era agnóstica, o meu noivo frequentava umbanda de vez em quando. A gente se converteu juntos. Com o seu slogan de antifeminista, muita gente começou a dizer que a senhora é contra o direito ao voto feminino. A senhora chegou a dizer que quer cumprir a sua missão e depois voltar para casa fazer bolo. Qual é a sua opinião sobre o voto feminino? Eu acho isso maravilhoso, tá? Todo mundo começou a falar que eu sou contra o voto feminino, mas eu nunca falei isso. Sou muito próxima da Pietra [Bertolazzi, influencer], que fala isso abertamente [sobre ser contra o voto feminino]. A gente já participou de dois debates juntos, mas a Pietra é Pietra, a Duda é Duda. Eu não sou obrigada a concordar com tudo que ela fala e ela também discorda de mim em muita coisa. O que eu já disse sobre o voto feminino é que aqui no Brasil o pessoal associa muito isso à [ativista feminista] Berta Lutz, sendo que as manifestações que ela organizava não reuniam nem cem pessoas. Ela não tinha moral nenhuma. A primeira mulher a votar no Brasil, a Celina Guimarães, disse que quem correu atrás de desenrolar tudo isso para ela foi o marido dela. Está no primeiro discurso dela: devo tudo isso ao meu saudoso marido, que se interessou nesse ponto muito antes de mim. No Brasil, quem de fato viabilizou o voto feminino foi o Vargas. Então a minha questão é: o movimento feminista se apropria de uma luta que é de toda a sociedade. Existiam homens e existiam mulheres trabalhando para que o sufrágio universal chegasse ao Brasil, para que negros pudessem votar, para que analfabetos pudessem votar, para que mulheres pudessem votar. Houve a participação de homens que achavam que o processo democrático deveria envolver todos. O movimento negro se envolveu, o movimento sufragista se envolveu, muitos movimentos fizeram parte disso. Eu não sou contra o voto feminino, até porque eu voto desde muito nova, mas acho injusto que um movimento político-ideológico sequestre essa pauta. Recentemente uma pessoa bem próxima à família Bolsonaro, Paulo Figueiredo, disse que as mulheres votam mal. E há um movimento em outros países sobre a mudança do voto feminino para um voto da família. Como a senhora avalia essa fala do Paulo Figueiredo? Eu não tenho muito contato com Paulo Figueiredo, eu conversei com ele pouquíssimas vezes. Eu acompanho muito raramente o que aparece dele. Ele é um cara de direita, e até aquele momento, grande parte das pessoas que votavam no Lula, por exemplo, eram mulheres. Então aquela fala dele vem dessa revolta. Fizeram um auê muito grande em cima de algo que foi só um momento de indignação dele. Mas sobre essa questão de voto familiar, de verdade, eu nunca me debrucei em cima disso. Eu nem sabia que isso era uma pauta. Não conheço a proposta para falar se faz sentido ou não, mas acho que não. Algumas pessoas dizem que a senhora tem posturas contrárias às vacinas. A senhora se vacinou contra a Covid? Não, na época não tomei, continuo sem tomar até agora. Primeiro, porque eu tenho muito medo de agulha, apesar das tatuagens. E segundo, porque na época havia uma insegurança muito grande acerca de quais vacinas eram seguras para quem. Uma gestante chegou a morrer. E daí que eles disseram "ó, galera, gestante é bom não tomar". Houve vacinas sendo retiradas de circulação. Eu particularmente não tomei, mas foi por uma opção minha. Vale lembrar que quem comprou todas as vacinas foi o presidente Bolsonaro na época, e o Brasil bateu recorde de vacinação assim que a Anvisa liberou tudo. A nossa briga era para que quem quisesse tomar pudesse tomar, e quem não quisesse tomar pudesse também não tomar, para que a gente não tivesse a Revolta da Vacina acontecendo de novo, do Estado invadir a casa das pessoas e obrigar isso a acontecer. Eu acho que é uma questão de autonomia sobre o próprio corpo. E outras vacinas, a senhora tomou? Para algumas a gente tem que fazer exame, né? Tem aquelas que se você tem alergia a ovo você não pode tomar. No geral, eu tenho todas as vacinas. Eu acho que tudo que precisava, que geralmente se dá em criança, aquela que o adolescente toma também. Ali [no caso da Covid] foi uma questão de um medicamento desenvolvido muito rapidamente, e eu tava tranquila. Eu já não sou uma pessoa que sai muito de casa, então eu pensei "não tem necessidade, não vou". Acabei não indo, mas no geral as outras eu tenho todas, sim.
Eduarda Campopiano diz defender voto feminino e que 'derrota bate � porta' da esquerda
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