As tarifas de 50% que o presidente dos EUA, Donald Trump, impôs ao Canadá e entraram em vigor no sábado (22) podem ser devastadoras para muitas empresas canadenses e seus funcionários. Elas podem tornar seus produtos pouco competitivos nos EUA e levar à perda de dezenas de milhares de empregos, segundo economistas. "50% é um número enorme para cada um dos produtos afetados", avaliou Joseph Steinberg, professor de macroeconomia da Universidade de Toronto. "No caso desses produtos, devemos ver uma redução muito grande nas exportações", comentou. "Em alguns casos, as exportações serão totalmente interrompidas, e as empresas que fabricam esses produtos serão gravemente afetadas. Algumas, sem dúvida, fecharão", previu. Até 90 mil empregos podem ser perdidos no Canadá, segundo cálculos de Trevor Tombe, economista especializado em comércio da Universidade de Calgary, no Canadá. Isso inclui postos de trabalho em empresas que não são diretamente afetadas pelas tarifas. Por exemplo, a demanda por caminhoneiros desaparecerá quando as empresas canadenses forem excluídas do mercado dos Estados Unidos. Entre os setores que provavelmente serão duramente atingidos está o florestal. Depois de décadas de tarifas elevadas sobre madeira proveniente de coníferas —encargos que Trump aumentou em 2025—, o setor agora enfrenta tarifas adicionais de 50% sobre exportações que incluem compensado, produtos de madeira laminada, painéis de fibra, papel, papel para fabricação de papel higiênico e embalagens. "Estamos sendo massacrados", lamentou Derek Nighbor, presidente da Associação de Produtos Florestais do Canadá. Ele afirmou apoiar a decisão do primeiro-ministro canadense, Mark Carney, de abandonar as negociações comerciais com os EUA na noite de sexta-feira (21). "Isso ocorre em um momento em que os fundamentos da economia dos Estados Unidos não estão bons", disse Nighbor. "Estamos lidando com mercados muito, muito fracos, que não vão melhorar muito se esse tipo de comportamento tarifário continuar", resumiu. O colapso das negociações comerciais levou Trump a desencadear as novas tarifas sobre centenas de produtos exportados pelo Canadá. Elas abrangem cerca de US$ 20 bilhões (R$ 103,25 bilhões) em comércio canadense. As tarifas somam-se aos encargos de 50% impostos ao aço e ao alumínio canadenses, bem como às tarifas de 25% sobre automóveis anunciadas por Trump no ano passado. Na segunda-feira, Trump também ameaçou elevar as tarifas sobre automóveis para 50% em 1º de janeiro e impor a mesma alíquota às autopeças atualmente isentas de pagamento quando se qualificam como norte-americanas segundo o tratado comercial entre Estados Unidos, México e Canadá. A expectativa é que Carney anuncie nesta terça-feira (25) tarifas retaliatórias contra os Estados Unidos. Embora US$ 20 bilhões em comércio pareçam uma cifra enorme, isso representa cerca de 5,5% do valor de todos os produtos que o Canadá envia aos Estados Unidos. Portanto, as novas tarifas talvez não tenham um efeito amplo e debilitante sobre a economia canadense, dizem economistas. As exportações do Canadá são dominadas por remessas de petróleo e gás —itens que Trump excluiu de sua guerra tarifária, juntamente com o fertilizante potássico e a maioria dos minerais. Para a economia canadense como um todo, os novos encargos aumentarão em cerca de 2,5 pontos percentuais a alíquota tarifária efetiva sobre os produtos do país, de acordo com economistas. Isso elevará para cerca de 6,5% a tarifa média imposta pelos EUA aos produtos canadenses, estimou Tombe. Em comparação, Trump negociou acordos com vários outros grandes parceiros comerciais que resultaram em tarifas gerais de 15%. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. O Royal Bank of Canada também estimou que tarifas nesse nível médio afetariam apenas cerca de 0,4% da produção econômica do Canadá. Mas, em uma análise publicada na segunda-feira, a TD Securities, corretora de investimentos do Toronto-Dominion Bank, afirmou que as novas tarifas representavam um problema em potencial, ainda que dificilmente devem exercer uma pressão prolongada sobre o dólar canadense. "A preocupação maior é o sinal que um acordo fracassado envia sobre as perspectivas de uma solução comercial mais ampla", analisou a corretora. "Os mercados podem interpretar isso como evidência de que a incerteza comercial persistirá". Embora as taxas impostas no sábado prejudiquem o setor florestal, elas atingirão com mais intensidade as empresas que exportam máquinas e produtos eletrônicos e as que fabricam móveis, brinquedos e produtos feitos principalmente de plástico.As novas tarifas tornarão impossível para muitas empresas canadenses continuar vendendo no mercado norte-americano, afirmou Steinberg. Segundo sua estimativa, cerca de 15% da economia canadense está diretamente ligada ao comércio com os Estados Unidos, que absorve aproximadamente 70% de todas as exportações do seu vizinho. Mas a importância das vendas aos americanos varia enormemente entre as empresas e os setores econômicos canadenses. Mais de 90% dos veículos fabricados no Canadá, por exemplo, destinam-se a compradores dos Estados Unidos. Carney, economista e ex-presidente de banco central, prometeu 28 bilhões de dólares canadenses (cerca de US$ 20 bilhões) para ajudar as empresas do país afetadas pelos novos encargos dos Estados Unidos, embora os detalhes ainda não tenham sido divulgados. No sábado, ele sugeriu que a dívida do Canadá não seria arrastada para uma situação semelhante à atual instabilidade do mercado de títulos dos Estados Unidos. "Estamos entrando em uma fase na qual solidez fiscal, disciplina e foco serão muito importantes; tudo isso será examinado de perto", declarou. "O mundo funciona de modo que, às vezes, os mercados ignoram esses fundamentos. E então, de repente, passam a se concentrar neles. Quando isso acontece, se você não tiver colocado a casa em ordem, será tarde demais. Nós colocamos a nossa casa em ordem", comentou o premiê. Depois do fracasso das negociações comerciais, o primeiro-ministro também prometeu igualar "dólar por dólar" as tarifas dos Estados Unidos sobre os produtos americanos que entram no Canadá. Mas Steinberg disse ser impossível impor tarifas retaliatórias sem consequências para os canadenses, como preços mais altos. "As tarifas retaliatórias canadenses contra os Estados Unidos prejudicam um pouco os americanos, mas prejudicam muito mais a economia canadense", disse ele. "Tarifas em qualquer direção têm um impacto aproximadamente 10 vezes maior sobre a economia canadense. Isso vale para as tarifas de Trump e também para nossas medidas retaliatórias". Na segunda-feira, não havia sinais evidentes de pânico no Canadá. O índice S&P/TSX, que reúne ações canadenses, fechou em leve alta em relação à última sexta-feira (21). O dólar canadense também encerrou o dia com queda inferior a 1 centavo em relação ao dólar dos Estados Unidos.
Economistas dizem que tarifas dos EUA de 50% sobre Canad� podem fechar 90 mil vagas de emprego
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