Drones de combate, IA e tecnologia de furtividade redesenham o combate a�reo

Drones de combate, IA e tecnologia de furtividade redesenham o combate a�reo

Cortando os céus sobre o Farnborough International Airshow no mês passado, os caças mais modernos impressionaram o público com exibições acrobáticas. Em solo, porém, as grandes atrações deste ano foram aeronaves elegantes e sem piloto, com nomes ameaçadores como Ghost Bat, Ravenstorm, Valkyrie e Fury, desenvolvidas tanto por grupos tradicionais de defesa quanto por novos participantes voltados à tecnologia. Não se trata dos drones descartáveis e relativamente baratos tão utilizados na Ucrânia e no Oriente Médio, mas de "aeronaves de combate colaborativas" maiores e mais caras, equipadas com armamentos sofisticados e capazes de operar ao lado de caças convencionais ou de patrulhar os céus de forma independente. Essa nova geração de veículos não tripulados oferece provas claras de como os recentes e rápidos avanços na tecnologia de voo autônomo estão mudando a maneira como as batalhas aéreas do futuro serão travadas —e como dezenas de bilhões de dólares dos orçamentos públicos de defesa serão gastos. "Há uma série de missões para as quais elas estão sendo consideradas", afirma Charles Woodburn, diretor-presidente da empresa britânica de defesa BAE Systems, que está desenvolvendo a aeronave de combate colaborativa Brontanax. Embora algumas envolvam voar ao lado de caças tripulados, ele diz ao Financial Times que outras poderiam ser "missões de sentinela", nas quais a aeronave armada "patrulha constantemente os céus em busca de drones que se aproximam e está pronta para enfrentá-los de imediato, porque já está no ar". Avanços desse tipo mudarão o papel dos caças e de suas tripulações. "O piloto, o sujeito no avião turbinado e armado, passará a ser mais um comandante de missão", prevê Peter Nilsson, ex-piloto de caça que hoje dirige os programas avançados da unidade aeronáutica do grupo sueco de defesa Saab. As próprias aeronaves também evoluirão. Os jatos em desenvolvimento, cuja entrada em serviço é esperada para meados da década de 2030, na melhor das hipóteses, serão valorizados tanto por suas capacidades de IA e processamento de dados e por sua furtividade quanto por sua velocidade, manobrabilidade e poder de fogo. Eliot Pence, diretor-presidente da startup canadense de tecnologia de defesa Dominion Dynamics, descreve essas aeronaves como "furtivas o bastante para sobreviver, com alcance suficiente para continuarem úteis, equipadas com sensores suficientes para compreender o espaço de batalha e conectadas em rede o bastante para dirigir recursos de menor custo em diversas altitudes". Elas também serão caras. Cada Boeing F-47, o caça de sexta geração planejado pela Força Aérea dos Estados Unidos, poderá custar de US$ 200 milhões a US$ 300 milhões, segundo Douglas Barrie, pesquisador sênior de aviação militar do International Institute for Strategic Studies. Isso equivale a cerca de duas a três vezes o preço de um F-35 Lightning, atualmente um dos caças mais avançados do mundo, excluídos os custos de pesquisa, testes e manutenção. Com uma frota de aeronaves autônomas de ponta também estimada de US$ 20 milhões a US$ 40 milhões por unidade, de acordo com Barrie, apenas "dois países no mundo participarão desse jogo —os Estados Unidos e a China". Isso deixa as potências médias diante do dilema de como garantir que não ficarão para trás. Alguns países continuarão operando os atuais jatos de quarta ou quinta geração, como o Eurofighter Typhoon, que estão recebendo armamentos, radares e outros sistemas mais avançados, ao mesmo tempo que investem em diferentes tipos de drones. Outros formarão alianças, como o Global Combat Air Programme (GCAP), que reúne empresas do Reino Unido, da Itália e do Japão para desenvolver um substituto para os jatos atuais e reduzir a dependência do F-35, fabricado nos Estados Unidos. Isso significa que os governos estão agora sendo chamados a assumir compromissos capazes de redesenhar ou reforçar alianças políticas por décadas, à medida que as forças aéreas evoluem para uma nova era de combate. "Precisamos avançar agora", disse a jornalistas no mês passado Éric Trappier, diretor-presidente da francesa Dassault Aviation, fabricante do caça Rafale. A Dassault fazia parte da aliança Future Combat Air System (FCAS) com a Airbus e a Indra Sistemas, grupo aeroespacial espanhol. O elemento central desse empreendimento, o caça a jato, desmoronou em junho em meio a divergências entre a Dassault e a divisão de defesa da Airbus sediada na Alemanha, e Trappier agora defende um projeto liderado pela França para desenvolver com urgência uma aeronave de demonstração. Trappier reconheceu que era difícil prever como seriam as guerras daqui a 30 ou 40 anos. "Mas, se nos fizermos essa pergunta, não faremos nada —e, se não fizermos nada, simplesmente teremos de aceitar que os avanços dos Estados Unidos nos sejam impostos." Para a maioria das pessoas, caças são sinônimo do filme Top Gun, de 1986, no qual Tom Cruise e Val Kilmer interpretaram pilotos destemidos a bordo de F-14 Tomcats, travando combates aéreos contra seus adversários soviéticos sobre o mar. O F-14, um caça birreator de 18 toneladas que operava a partir de porta-aviões e entrou em serviço em 1974, era típico daquele período, projetado para oferecer potência, capacidade de carga e velocidade. Aeronaves sucessoras, como o F-35 Lightning e o F-22 Raptor, da Lockheed, caracterizam-se mais por seus formatos furtivos, que dificultam a detecção por radar, e por sua versatilidade. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Espera-se que os jatos de sexta geração atualmente em estudo tenham furtividade ainda maior, alcance mais longo e motores mais avançados. Uma maquete apresentada em Farnborough do jato que está no centro do GCAP, batizado de Tempest no Reino Unido, consistia em uma grande fuselagem com asas em delta e um compartimento interno de armas. "Todos os membros permanentes do Conselho de Segurança estão desenvolvendo plataformas semelhantes a esta", disse neste ano Simon Barnes, chefe do setor aéreo da BAE, durante uma visita às fábricas da empresa no noroeste da Inglaterra. A BAE é uma das parceiras do GCAP, ao lado da Leonardo e da Mitsubishi Heavy Industries. "Todas são grandes, consideravelmente maiores que as estruturas das aeronaves anteriores; todas são atualmente tripuladas; todas têm a capacidade de sobrevivência e o alcance como elementos centrais; e todas estão sendo desenvolvidas em ritmo acelerado." O programa F-47 dos Estados Unidos, concedido à Boeing pelo presidente Donald Trump em março do ano passado, é a peça central da iniciativa Next Generation Air Dominance, de Washington, o projeto de aeronave de combate mais ambicioso desde a década de 1980. Ele é considerado fundamental para conter o fortalecimento militar da China em um possível conflito envolvendo Taiwan. Acredita-se que a própria China esteja desenvolvendo um grande caça de sexta geração, designado J-36 pelas agências de inteligência ocidentais. Mas o colapso do FCAS levou governos e grupos de defesa europeus a procurar novas alianças, na tentativa de dividir o esforço de financiamento e engenharia necessário ao desenvolvimento de novas e complexas aeronaves de combate. O Canadá, que busca reduzir sua dependência dos Estados Unidos diante das relações tensas com Trump, aderiu ao GCAP como observador, e vários outros países, entre eles a Austrália, fazem pressão para se tornar membros. "Estamos atualmente nos organizando para não perder tempo", disse a investidores no mês passado Mike Schoellhorn, chefe da Airbus Defence and Space, acrescentando que sua preferência era por "uma solução que dê à Airbus uma posição significativa em um caça de sexta geração, com presença industrial espanhola e alemã". A indústria de defesa aguarda para saber se isso significa que Airbus e Indra tentarão aderir ao GCAP, que avança a todo vapor após receber um contrato de £ 4,6 bilhões dos governos patrocinadores. "Do ponto de vista industrial, creio que não há dúvida de que a Alemanha traria benefícios", afirma Lorenzo Mariani, diretor-presidente da Leonardo, sobre a possibilidade de adesão da Airbus. "Naturalmente, o dinheiro importa, porque tenho quase certeza de que o GCAP exigirá um nível elevado de financiamento nos próximos anos." Outra opção na Europa seria a Airbus e a Indra, ou a Dassault, unirem-se à sueca Saab, que estuda o desenvolvimento de uma nova geração de caças no âmbito de um contrato válido até 2030. Euro Radar Uma newsletter sobre geopolítica e economia global, editada pelo jornalista João Caminoto, de Paris Tanto a Airbus quanto a Dassault mantiveram conversas com a Saab, segundo pessoas a par da situação. Nilsson, o executivo da Saab, brinca que é um homem "muito popular", mas ressalta que conversa com todos. Qualquer decisão final caberá ao governo sueco, acrescenta. Detalhes precisos sobre as capacidades dos novos caças são mantidos sob rigoroso sigilo pelos governos que financiam seu desenvolvimento. O caça do futuro "provavelmente se parecerá menos com um heroico piloto em combate aéreo e mais com um quarterback aerotransportado capaz de sobreviver", afirma Pence, da Dominion Dynamics. Os sensores desempenharão um papel cada vez mais importante —como já ocorre no F-35, que funciona como uma central aérea de inteligência e processamento de dados, equipada com sensores capazes de "sugar" dados do campo de batalha, radar para detecção aérea e terrestre de longo alcance, câmeras infravermelhas que proporcionam uma visão contínua de 360 graus e um sistema eletro-óptico para identificação de alvos a longa distância. "Todos esses elementos se combinam para formar um panorama detalhado do que existe lá fora", afirma um ex-oficial de alta patente da força aérea de um país da Otan. "Portanto, esperamos outro grande salto na sexta geração", diz.

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