Drica Moraes brilha em 'Inter Alia' e leva plateia ao tribunal

Drica Moraes brilha em 'Inter Alia' e leva plateia ao tribunal

O espectador que entra no teatro para assistir a "Inter Alia" perde de imediato a posição de mero observador. Sob a condução primorosa de Rodrigo Portella, a montagem brasileira da dramaturgia da australiana Suzie Miller elimina o distanciamento analítico e constrói um ambiente de intensa carga psíquica, no qual a plateia é arrastada para o centro de um julgamento sem veredito simples. Portella opera na chave do essencial. A cenografia de linhas retas, cadeiras e grades de madeira, idealizada por Mina Quental e pelo próprio diretor, funde a solenidade de um tribunal de justiça com a claustrofobia de um lar em processo de ruína moral. A luz de Ana Luzia de Simoni, articulada em focos brancos e penumbras sufocantes, acompanha a perda da clareza institucional, enquanto o desenho de som de Federico Puppi, injeta uma tensão contínua que acelera o pulso da cena. Toda essa arquitetura cênica funciona como extensão do colapso interno dos personagens. É no desempenho do trio de atores, contudo, que a montagem ganha sua expressão mais penetrante. Drica Moraes constrói uma Jessica Parks de precisão milimétrica. A atriz vivencia o desastre sem histrionismo, revelando ao público o terror de uma mente analítica que vê suas estruturas ruírem. A curva dramática de sua atuação expõe o desgaste invisível de uma mulher que tenta equilibrar múltiplos papéis de excelência —a jurista combativa em guerra contra violência sexual, a mãe devotada, a articuladora do lar— até o instante em que a acusação de estupro contra o filho destrói essa ilusão de controle. Ver a personagem tentar, passo a passo, instrumentalizar a mesma lógica jurídica que sempre combateu para salvar seu herdeiro configura um dos momentos de maior tensão da cena recente. Ao seu lado, Caco Ciocler dá corpo ao marido, Michael, como um homem marcado pelo ressentimento velado diante do sucesso da esposa e por uma apatia que se manifesta na recusa em assumir a responsabilidade pela formação do filho. Na contracena com Drica, Ciocler deixa transparecer as fendas de um casamento sustentado por compromissos superficiais de igualdade. Completando o núcleo, Caio Cesar Passos interpreta o jovem Harry com a dosagem exata de ambiguidade. O jovem ator demonstra uma alienação empática, típica de uma juventude moldada por telas e subculturas virtuais, incapaz de compreender as assimetrias de poder e o significado do consentimento. Ao articular a dedicação do elenco a uma regência sem concessões, a montagem revela a velocidade com que discursos progressistas e princípios garantistas se deterioram diante da ameaça pessoal. O impacto da montagem não deriva de uma tese enunciada em cena, mas do mal-estar provocado pela constatação de como a ética se prova frágil quando confrontada pelo instinto de preservação da própria família. Três perguntas para… … Drica Moraes e Caco Ciocler Quando a acusação contra o filho se concretiza, sua atuação foge do desespero histriônico e caminha pela tentativa desesperada de usar a lógica para organizar o caos. De que maneira você e o Portella dosaram essa contenção para que o ruído interno da personagem chegasse com tanta força à plateia? Drica Moraes: Aos 57 anos, uma atriz já viveu tanta coisa, qualquer pessoa já viveu tanta coisa na vida... Já temos uma bagagem acumulada e a sensação de que você já passou das comédias mais rasgadas aos dramas ordinários e às tragédias mais profundas. Eu já passei por todos esses campos energéticos e de linguagem. Passei por tudo isso e o Rodrigo, junto com a Bianca Ramoneda, foram muito precisos no ponto que queriam para essa cena final. Eles me pediram essa contenção para haver a explosão emocional somente no ponto final. E aí eu tinha esse repertório de vida que me permitia fazer escolhas mais assertivas de acordo com o pedido tanto do diretor quanto da Bianca, dramaturga que foi imprescindível nessa jornada. A peça coloca no centro do debate a velocidade com que princípios sólidos podem ruir diante de uma ameaça ao núcleo familiar. Para você, como atriz, qual é o momento mais difícil de defender em cena nessa transição em que a jurista garantista cede espaço à mãe que cogita usar as brechas do sistema? Drica Moraes: O momento da revelação do filho à mãe e o pedido de ajuda dele a ela é o ponto de corte da dramaturgia onde, como intérprete, entro na tragédia. É o momento da queda radical do Olimpo ao Inferno, em que a juíza engole o próprio coração, arranca os olhos e se torna o ser humano mais impotente diante dos fatos. Não há saída possível sem encarar e passar pela pior dor. Nesse momento a peça não faz mais concessões à qualquer insinuação de humor, drama, thriller, filme de tribunal... é tragédia mesmo. É duro. O embate entre Jessica e o marido, Michael, expõe um casamento atravessado por ressentimentos silenciosos e por uma divisão desigual da carga mental. Como foi construir com a Drica essa fricção cotidiana entre duas pessoas que acreditavam viver uma relação de igualdade? Caco Ciocler: Os personagens são narrados pela Jessica, ou seja, o que se escuta sobre Michael é a visão que ela tem do marido e do casamento. Mas sempre nos pareceu mais rico complexificar esse jogo, criar ruídos, até contrapontos a essa visão, justamente para que o público pudesse ter a percepção de um homem e de um casamento atravessados por sentimentos silenciados, como você diz. Para isso, recheamos os improvisos, as intenções e as marcas com muita conversa e colocamos na roda referências pessoais. Era importante que se visse nesse casal também amor, que se visse no Michael um homem numa tentativa falha mas honesta de ser e fazer o melhor. Teatro Vivo – Av. Chucri Zaidan, 2.460, Vila Cordeiro, zona sul. Sexta e sábado, 20h. Domingo, 18h. Até 25/9. Duração: 120 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ingressos esgotados. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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