Doutor da floresta e ex-executiva de big tech lideram revolu��o digital na Amaz�nia

Doutor da floresta e ex-executiva de big tech lideram revolu��o digital na Amaz�nia

Não por acaso uma canoa ocupou espaço principal no salão comunitário da Escola Família Extrativista do Carvão, em Mazagão (AP). É em torno dela que se sentaram os líderes e parceiros da Rede Conexão da Povos Floresta, reunidos ali entre 4 e 6 de agosto para o terceiro encontro da iniciativa que agrega 60 organizações com a missão de levar inclusão digital às 2.850 comunidades tradicionais da Amazônia. É simbólico que a mesa tenha sido trocada pelo meio de transporte essencial para os povos amazônicos. "Fazer as discussões em torno de uma canoa é nossa forma de reafirmar o respeito a todos que vivem às margens dos rios e na floresta", explicou a líder comunitária Dalva Miranda, 67, coanfitriã do evento, ao lado de Joaquim Belo, seu companheiro de vida e militância há 36 anos. Dalva explicita ainda a simbologia de realizar o encontro naquele espaço. "Esta é uma escola viva, que pensa, que faz e se refaz. Queremos a inovação e a tecnologia, mas sem tirar o pé do conhecimento tradicional", enfatizou, aos 176 participantes. Os 187 alunos, que alternam 15 dias na escola e 15 com a família, também recepcionaram os convidados. "O conhecimento tem que preservar os saberes da floresta e a terra onde se vive. Quem tem um pedaço de terra, tem um pedaço do mundo", completou Dalva. Ela passa a palavra para Joaquim, que carrega no DNA a história de resistência dos povos tradicionais da Amazônia. "Sou filho de Tomé que foi fundador dessa escola. Sou filho dessa luta", disse o líder extrativista de 64 anos, herdeiro de um caboclo coletor de castanha e borracha preso pela ditadura por atuar em movimentos sociais e na fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais do Amapá e do Partido dos Trabalhadores. Joaquim cresceu em uma casa de 14 irmãos biológicos e mais seis criados pelos pais, na "pedagogia do compartilhamento, de fazer junto". O caminho para a alfabetização do "doutor da floresta", como é chamado pelos pares, foi árduo. Joaquim morou em 12 casas de parentes e amigos para concluir o ensino médio bem no ano da Eco-92, quando já florescia como ativista. "A Amazônia que acomoda a vida, que nos alimenta, é a casa que a gente tem. Por isso, a luta pelos territórios tradicionais, pelo uso coletivo das nossas riquezas. As árvores e a terra são bem comum." Herdeiro da luta de Chico Mendes, assassinado em 1988, Joaquim presidiu por três mandatos o CNS (Conselho Nacional das Populações Extrativistas), criado pelo líder seringueiro. E foi como representante da entidade que o caminho de Joaquim se cruza com o de Juliana Dib, secretária-executiva da Rede Conexão Povos da Floresta. Formada em relações internacionais, com MBA em administração e experiência em políticas públicas, Juliana atuou de 2010 a 2013 na ONU, em Genebra, gerenciando projetos de fortalecimento de cadeias produtivas na África. Depois, como gerente de Desenvolvimento de Parceiros Estratégicos do Google para as Américas, liderou marcos como a implementação do Google Earth em 60 comunidades indígenas. Em 2019, em licença do Google, passou uma temporada no Xingu digitalizando cantos sagrados indígenas com o Instituto Socioambiental. "Era para passar uma semana, ficamos um mês. Sentávamos em círculo, os mais velhos cantavam, os jovens iam traduzindo e eu ficava no computador transcrevendo e gravando tudo." Compartilhou esses momentos únicos com o marido, Ricardo Lima, fundador da plataforma colaborativa Worldpackers, com quem tem dois filhos: Luna, 5, e Kaíque, de 10 meses. Temos que levar conexão segura para nossos territórios e usar a tecnologia com sabedoria. Não é só chegar com internet, porque senão vamos levar só mais problemas A mineira, que mora em Florianópolis (SC), deixou a vida de executiva em uma big tech para ser gestora da Rede Conexão diante do desafio de que 1 milhão de indígenas, quilombolas, seringueiros e ribeirinhos viviam, até 2022, apartados do mundo digital. "Nossa missão é conectar em rede todos as comunidades que residem em territórios protegidos da Amazônia, mais de 120 milhões de hectares de floresta. Não é só levar internet, mas conectar pessoas", explica Juliana. Ela abraça o desafio, entre viagens curtas no período de amamentação para dar conta do recado. "A rede é como se fosse mais um filho. Vem de uma ótica do cuidado", disse ela, ao saudar os companheiros das três entidades formadoras —CNS, de Joaquim, Conaq (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas) e Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira). "Estamos aqui reunidos por amor à nossa ancestralidade, para honrar a floresta, que é vida." Juliana e Joaquim são a cara diversa e potente da Rede Conexão. Essa fusão de inteligência corporativa e sabedoria ancestral resume o papel da dupla na construção da iniciativa nascida em 2023, segundo a economista Bia Saldanha, uma das precursoras da sociobioeconomia no Brasil. "A rede é fruto dessa união de mundos. Temos na liderança uma pessoa como a Juliana, que traz um aprendizado desse mundo das plataformas e de grandes empresas, mas com uma visão amorosa e generosa", pontua a carioca integrante do conselho da rede, que tem Tasso Azevedo, do MapBiomas, como presidente. "E temos também um líder como Joaquim, um sábio da floresta, um ativista que se dispõe a estar a serviço desse projeto, agregando toda a história do movimento dos seringueiros e do movimento social da Amazônia como um todo." Nós decidimos por conectividade participativa e com a nossa cara. Vamos nos conectar para quê? Para acessar educação, saúde, políticas públicas e formação A proposta não é só levar wi-fi, mas garantir direitos e dignidade, ao promover o uso consciente da tecnologia para que a internet seja um escudo e um vetor de autonomia. A infraestrutura instalada em quase 3.000 comunidades já apoia o monitoramento de 120 milhões de hectares ameaçados por desmatamento, além de viabilizar telemedicina 24 horas e facilitar o acesso a programas como o Bolsa Família. Juliana resume os três pilares em infraestrutura gratuita (antena, roteador e kit de energia), controle comunitário por aplicativo com filtros e bloqueios e inclusão digital por Grupos de Trabalho. "Um exemplo é a IA Parente, uma inteligência artificial desenvolvida pela rede e para a rede, que mostra o caminho para acessar políticas públicas, benefícios não só para as comunidades, mas para manter a floresta viva e a sociobioeconomia cada vez mais próspera", explica Juliana. A prosa ao redor da canoa está quase chegando ao fim. "Temos que levar conexão segura para nossos territórios. Não é só levar internet, porque senão vamos levar só mais problemas. Temos que utilizar a tecnologia com sabedoria", defende Ludimar Kokama, representante da Coiab. "Sou apaixonado pela Rede Conexão. Passei por vários projetos frustrados, mas esse é consistente, entrega resultados", emenda José Carlos Galiza, da Conaq. Joaquim, que hoje viaja o mundo levando a pauta da Amazônia a países da Europa, África e Estados Unidos, entra na conversa para lembrar que todos estão no mesmo barco. "A grandeza da Conexão está em juntar as redes dos povos tradicionais e parceiros do mundo urbano que acreditam que a floresta é fundamental para manter viva também a selva de pedra." A Rede Conexão Povos da Floresta em Números 2.843 comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas atendidas em 9 estados da Amazônia Legal 120 milhões de hectares de cobertura florestal monitorada por meio da infraestrutura de conectividade da rede 8.370 teleconsultas e atendimentos médicos realizados via rede, com emissões de exames e laudos realizados 217 mil pessoas beneficiadas diretamente com acesso à internet e serviços digitais em territórios isolados 1.282 facilitadores capacitados, entre os líderes comunitários, pelo programa da rede de educação chamado "Sabedoria Digital"

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