Dos test�culos de macaco ao bar: a hist�ria do monkey gland

Dos test�culos de macaco ao bar: a hist�ria do monkey gland

Dorian Gray precisou vender a alma para obter a juventude eterna. Como se sabe, quem envelhecia em seu lugar era seu retrato pintado, o que se revelaria algo funesto. Se o personagem de Oscar Wilde tivesse conhecido o Doutor Voronoff, seu destino poderia ser outro. Francês de origem russa, Voronoff surpreendeu o mundo no começo do século 20 com a intrépida proposta de transplantar testículos de macaco para homens em idade avançada. Algo o convenceu que as bolas de um babuíno pudessem tornar tais cidadãos mais jovens ou ao menos dotá-los de energia renovada. Talvez imagens ou testemunhos de agitação frenética em bandos de símios. Ou alguma vaga noção zoológica sem comprovação. A opção pelas peculiares glândulas (e não, digamos, fatias de cérebro) devia estar ligada a uma promessa de maior potência sexual. Não sei se há notícia de garanhões entre chimpanzés e gorilas, don juans peludos, casanovas com rabo. Mas como o plano surreal de Voronoff tinha fumos científicos, foi amplamente divulgado pela imprensa, angariando muitos adeptos. Os ricos pagaram com ansiedade pelo procedimento, e muitos relataram sucesso total, o que deu fôlego à aventura. Quando se trata de assuntos de alcova, o efeito placebo talvez supere com ampla margem a razão. De qualquer forma, é possível que poucos quisessem contar que não sentiram diferença. Voronoff era um charlatão? Ou acreditava ter surrupiado um segredo dos deuses e o transformado num feito médico? Fato é que ficou milionário, passando a viver numa villa luxuosa na Itália, onde tinha sua clínica de milagres e uma criação de 70 babuínos para fornecer a matéria-prima. Viravam eunucos, os pobres, e passaram a urrar em falsete. A fama era tanta que Voronoff foi convidado para dar palestras mundo afora. Em 1929, pousou no Rio de Janeiro para tal fim. Lamartine Babo, que era um observador bem-humorado dos assuntos em voga, fez uma marchinha sobre o criador do viagra bestial. "Toda a gente agora pode/ser bem forte, ser um taco/ser ágil como um bode/e ter alma de macaco/A velhice na cidade/canta em coro a nova estrofe/e já sente a mocidade/que lhe trouxe o Voronoff". Evidentemente, "taco" não é a expressão "Trump always chickens out", mais ou menos "Trump sempre dá pra trás", mas sim uma gíria da época para valente, brioso. O governo Trump, aliás, determinou que militares com 30 anos ou mais fossem submetidos a testes para determinar os níveis de testosterona. Tudo em nome de uma maior eficiência em matar. É melhor que não saibam das experiências de Voronoff. Vão faltar macacos. A febre em torno de "Seu Voronoff", como o chamou Lamartine Babo, talvez tenha sobrevivido melhor na lembrança por meio de um coquetel. Batizado de monkey gland, literalmente "glândula de macaco", foi criado pelo lendário Harry McElhone no seu Harry's New York Bar de Paris, na mesma época em que cavalheiros franceses, sob efeito da mágica médica da moda, passaram a morar em galhos —cada um no seu. MONKEY GLAND 60 ml de gim 20 ml de suco de laranja 5 ml de grenadine 2,5 ml de xarope de açúcar (2:1) 3 lances de absinto Bata os ingredientes com gelo e coe para uma taça coupe. Decore com um zest de laranja LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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